Terça-feira, 07.12.10

SVEGLIA, de Edson Migracielo

 

Lançamento de livro - Bamboletras

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O lançamento do livro SVEGLIA, do escritor Edson Migracielo, que ganhou Menção Honrosa no Prêmio Nacional SESC 2009, será lançado nesta quinta-feira, dia 9 de dezembro, às 19h na Livraria Bamboletras, em Porto Alegre, RS.


Publicado pela editora 7letras, o livro é um romance sobre a liberdade, mas tem uma característica particular: a história é contada sem pausas, em um parágrafo único, no qual diálogos, descrições e devaneios se misturam.


A intenção do autor é valorizar o ritmo e o som da obra, "um delírio da linguagem em transe de escrita", segundo ele.


Trecho do livro:


Chegou num cavalo, com sede. Arfava. Ao redor do pescoço pendia num barbante uma chave pendurada e pelo menos visíveis não eram as asas que proclamava ter. Bradou: água! Quero mais que me ver! Quero me lambuzar no sangue do tempo! Quero nascer! Água! Água! Arfava. Gostava de consumir-se no seu fardo que pertencia a cada um a seu modo e no caso dele era o mistério. O mistério em que refestelava-se levava-o imune pelo  mundo, e ele precisava aceitar como um prêmio aquela dor. Porque era dor também um fardo como o mistério, como o segredo vivo da morte, carregar-se assim como um iluminado e sem chamar a atenção como um passageiro. As pessoas eram roubadas e não percebiam, achavam que ele era apenas condescendente. Mas ele via nos encontros e nos sucessos os efeitos, e os tomava por causas num pressentimento de trás para a frente que era como divertir-se. Com as mais diversas máscaras cuspia atravessado em algumas caras. Como uma invenção móvel e imprecisa, assim moldava-se a cada vez distinto. Pois queria amar mas o amor quanto maior mais implacavelmente o dissolvia no grande pavor de um nada. Mas o céu restava. O céu estava sempre lá e as estrelas vinham à noite e nenhum espelho devolvia com fidelidade seu genuíno suspiro quando alguma delas caía. O fogo ardia num transe e ele pegava-se emprestado algumas chamas altas, para queimar-se. Para cumprir o misterioso fardo de consumir-se. As bolhas das queimaduras estouravam conforme as revoluções da lua e ele era novo. Bastava começar a caminhar e ele já era um rosto sem o sim e o não que conhecia, e cultivava, um rosto fabricado pelo futuro de todos, andando na rua entre mil outros. Famílias e descaminhos atiçavam-lhe a imagem e ele dizia muito, escrevia, ele acabava falando demais e deixava-se perpassar por flechas quando muito mais fácil teria sido abandonar os personagens. Mas não é fácil viajar sem a vida ou mesmo miseramente distante dela. E o fumo, e um café forte cujo cheiro já era uma promessa, café feito às pressas para abraçar a insônia. Para abraçar as máscaras, removê-las atentamente do papel cuidando que suas letras permanecessem unidas como na palavra Sveglia. E assim como a verdade, Sveglia também é sempre o filho trazido do cemitério onde ventava muito quando acordei. Receei que o sono do início fosse querer me levar outra vez: mas eu lembrava mesmo de quando estivera lá dentro, no escurinho líquido, atado por um cordão de carne?

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Terça-feira, 30.11.10

FATO LITERÁRIO em Pelotas - 2 de dezembro

A festa será grande e bela

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 13:34 | Comentar | Adicionar

Dia do JANTAR - o que não se pode perder

 

O Jantar, na Livraria da Vila - Itaim - 18 de dezembro

 


 

 


O delicioso, substancial e provocativo ensaio O JANTAR, de Naira Scavone levanta questões e respostas importantes sobre a alta gastronomia brasileira.

 

Qual a razão primordial para que o espaço da cozinha profissional seja ainda dominado pelos chefs masculinos (apesar da recente moda das chefs mulheres e, especialmente, da tradição secular da cozinha caseira cotidiana ser predominantemente de fatura feminina)? Qual a justificativa para o desenvolvimento de um novo gosto gastronômico a partir da presença de chefs estrangeiros em restaurantes e hotéis internacionais no Brasil (especialmente os franceses e os italianos)? Porque a gastronomia de experimentação e de vanguarda é sempre de fora (Espanha, Japão, Itália e França) e quase nunca a partir de uma cozinha de origem brasileira, resultando esta mais ancorada no conservadorismo para ser respeitada na sua qualidade intrínseca? Qual a razão para a “descoberta” de certos ingredientes brasileiros (pimenta-rosa, carambola e mandioquinha, por exemplo) como sofisticados, exóticos e apreciáveis, estar na palavra de chefs estrangeiros e não como proposta de chefs brasileiros? Qual o papel das revistas especializadas na formação do gosto no atual momento da gastronomia brasileira?

 

 

 

 


Lançamento na Livraria da Vila Itaim - Rua Mário Ferraz, nº 414 (11) 3073-0513 - Itaim-Bibi São Paulo, no dia 18 de dezembro, das 15h até às 19h30, com a presença da autora, Naira Scavone, do chef Aires Scavone e do fotógrafo Mauro Holanda, autor das várias imagens publicadas no livro.

 

Imagem: Mauro Holanda

publicado por ardotempo às 10:37 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 25.11.10

Livros para serem lidos, sem pressa

 

Ano para reconhecer Schlee

 

 


 

HOMEM FORJADO no território por natureza incerto da fronteira, o escritor, tradutor e professor Aldyr Garcia Schlee acostumou-se a labutar em silêncio e a produzir sua obra em um ritmo próprio e compassado, alheio (“à margem”, como ele mesmo define) ao sistema literário e suas pressões de mercado. Basta notar que, em quase meio século de carreira, o número de seus livros individuais não chega a uma dezena. Por isso, é o próprio escritor o primeiro a apontar o quanto o último ano marcou em sua trajetória uma pequena revolução, iniciada em 2009, com o elogiado Os Limites do Impossível, e coroada na Feira do Livro de Porto Alegre com publicação do épico romance Don Frutos e com o reconhecimento do prêmio Fato Literário – Schlee foi escolhido na categoria “personalidade”, com 52% dos 123 votos do Júri Oficial.


Me surpreendi muito com a premiação. Achei, sem querer afetar modéstia, que a premiada seria a Lya Luft, a quem conheço há muitos anos. Ainda estou tentando entender como foi que obtive tantos votos. Se fosse eleição política, eu teria vencido no primeiro turno – brinca o autor, que completa 76 anos no próximo dia 22.


Antes de lançar, na Feira de 2009, Os Limites do Impossível – uma narrativa de estrutura ambígua pode ser lida como um romance formado de histórias curtas independentes ou uma coletânea de contos com uma unidade temática –, Schlee vinha de um silêncio de quase uma década. Seu livro anterior havia sido a coletânea Contos de Verdades (2000), que teve uma precária distribuição devido à complicada situação financeira em que se encontrava sua editora da época.


Foi um livro que não repercutiu fora de um pequeno círculo de leitores. A trajetória de um livro não se completa com o seu ponto final, é parte fundamental dela também o conjunto de leituras que ele ganha depois de ir a público, e esse livro, lamentavelmente, não completou ainda essa trajetória – lamenta.


Mas uma década de silêncio não significou uma década de inatividade. Schlee dedicou boa parte dela, ao contrário, à pesquisa e à redação febril de sua obra mais ambiciosa, Don Frutos, monumental romance histórico que reconstitui, em mais de 500 páginas, a passagem por Jaguarão, terra natal do autor, do caudilho uruguaio Dom José Fructuoso Rivera (1784 – 1854), primeiro presidente constitucional do Uruguai.


É um romance sonhado por quatro décadas, desde que Schlee, ainda um jovem professor da Universidade Federal de Pelotas, topou, ao fazer uma pesquisa, com a informação de que Rivera havia morrido em Jaguarão. A obra só começou a ganhar feição, contudo, depois que o autor obteve a valiosa ajuda de um amigo uruguaio, o pesquisador Amílcar Brum, que o auxiliou a coletar a imensa massa de informações sobre a vida e os tempos do caudilho. Além de uma narração barroca e suntuosa, Schlee sustenta seu romance com a transcrição de documentos, cartas, notas de expediente, panfletos de época, alguns reais, outros fictícios. O livro ficou pronto antes mesmo de Schlee começar Os Limites do Impossível, mas só ganhou publicação este ano, pela editora ARdoTEmpo.


Duas grandes editoras chegaram a me solicitar o romance, eu enviei, e depois de um ano é que obtive resposta. Na primeira disseram que o livro era muito bom mas o “custo-benefício” não valia a publicação, ainda mais para um autor da minha idade. A segunda queria mutilar o livro da parte dos documentos – conta.

 

 

 

 

 

Tais episódios, contudo, ficaram para trás, ele garante. A repercussão obtida com a indicação e a premiação ao Fato Literário chamaram a atenção do público para o romance, principalmente na região da fronteira onde Schlee ambienta a maior parte de sua ficção. A versão em espanhol da obra deve ganhar publicação no Uruguai em breve, com tradução do próprio autor – que escreve indiscriminadamente seus livros tanto em português como em espanhol, o que pode explicar um pouco o ritmo sem pressa de sua produção literária. E sua surpresa no reconhecimento a ele ofertado como grande nome da cultura do Estado neste ano:


Das dezenas de e-mails que recebi me parabenizando, um terço veio do Uruguai. O que para mim tem um grande significado. Sou mesmo um autor de um universo pequeno e próprio. Quando falo que produzo à margem é que sou limitado ao meu pequeno mundo de fronteira: Rio Branco, Melo, Tacuarembó e Treinta y Tres, no Uruguai, e Jaguarão. Fora disso, não sei nada.


Carlos André Moreira - Publicado em Zero Hora

publicado por ardotempo às 17:35 | Comentar | Adicionar

Convite para DON FRUTOS em Pelotas

 

Convite para Lançamento do novo romance de Aldyr Garcia Schlee em Pelotas RS

 


 

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Segunda-feira, 15.11.10

Convite para Recital e Exposição AVE, FLOR

Dia 20 de novembro no Museu da Casa Brasileira - São Paulo

 

Das 11h às 14h - Sábado (20 de novembro)

 

Recital AVE, FLOR - com LAURA DE SOUZA (e a pianista Nancy Bueno)

De Fernando Mattos sobre os poemas de Cleonice Bourscheid

com Deisi Coccaro e Fernando Mattos

 

PROGRAMA

 

PARTE I AVE, FLOR (ciclo de canções)

 

Música: Fernando Mattos

Poesia: Cleonice Bourscheid


I. Poética

II. Lírios

III. Asa-de-anjo (Flor-do-céu)

IV. Mal-me-quer

V. Lição de poesia

 

SOPRANO: DEISI COCCARO

VIOLA: FERNANDO MATTOS

 

PARTE II TRIBUTO À NATUREZA


Diversos Compositores

 

R.Schumann

Myrten” op. 25 (H.Heine)

Die Lotosblume , n°7

- Du bist wie eine Blume, n° 24

- Der Nussbaum, n°3

 

C.Guastavino

 

“Flores Argentinas”(León Benarós)

- El clavel del aire Blanco

- Qué linda la madreselva!

- Campanilla, adónde vás?

La Rosa y el Sauce

 

F.Mignone

 

Quando uma flor desabrocha (Toada)

 

H.Villa-Lobos

 

“Modinha carioca” (Cattulo Cearense)

-  Tu passaste por este jardim

 

SOPRANO: LAURA DE SOUZA

PIANO: NANCY BUENO

 

Exposição no Jardim do Museu da Casa Brasileira

Imagens botânicas de ANELISE SCHERER

De 20 de novembro de 2010 a 16 de janeiro de 2011

 

Lançamento do Livro AVE, FLOR

Poemas de CLEONICE BOURSCHEID

Imagens de aquarelas botânicas de Anelise Scherer

Edições ARdoTEmpo

 

 

 

 

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Terça-feira, 09.11.10

Elvis na Praça - Um romance

Convite:

 


A escritora Laure Limongi viaja ao Brasil e participa da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre a convite da Câmara Sul-riograndense do Livro, com o apoio integral e cobertura de viagens e hospedagens por parte da Embaixada da França no Brasil.

publicado por ardotempo às 01:17 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 08.11.10

Jantar polêmico na 56ª Feira do Livro de Porto Alegre

Convite:

 

 

 

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Quinta-feira, 04.11.10

O Bibliotecário de Babel na Vila Madalena SP

Lançamento na Livraria da Vila - Fradique - São Paulo

 


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Em São Paulo - segredos do nascimento de Carlos Gardel no Uruguai

Lançamento do livro de contos/ romance Os limites do impossível, de Aldyr Garcia Schlee

 


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DON FRUTOS na Livraria da Vila

Lançamento do romance DON FRUTOS, de Aldyr Garcia Schlee

 


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Quarta-feira, 03.11.10

Don Frutos na Praça dos Livros

Os últimos meses de Rivera em Jaguarão

 

 



Para apreender a vida do personagem principal de seu novo livro, o escritor Aldyr Garcia Schlee contou com tempo de praticamente uma vida inteira.


Don Frutos, romance que Schlee discute com Cláudio Moreno às 17h30min de hoje no Santander Cultural e que autografa às 20h30min na Praça de Autógrafos, é mais do que uma reinvenção dos últimos meses de vida do caudilho uruguaio Fructuoso Rivera. É o ponto final de um interesse de 45 anos.


Quando tive a ideia de fazer esse livro pela primeira vez, meu filho que hoje já fez 50 anos tinha apenas cinco – rememora o escritor.


A gênese do romance remonta à época em que Schlee, então um jovem professor de Relações Internacionais na Universidade Federal de Pelotas, começou a fazer uma pesquisa sobre as intervenções do imperialismo ibérico nas guerras de fronteira sul-americanas. No decorrer desse levantamento foi que Schlee topou com documentos comprovando uma história que já ouvira contada de boca a boca em sua cidade natal, Jaguarão: fora lá que o caudilho e político uruguaio José Fructuoso Rivera (1784 – 1854), primeiro presidente institucional do Uruguai, havia morrido. (NE: Na realidade, Rivera morreu no Uruguai, nas proximidades de Melo, a caminho de Montevidéu, depois de permancer praticamente um ano em Jaguarão, por razões de saúde e de estratégia política, conforme está narrado no livro Don Frutos).


Foi apenas no início dos anos 2000, com a ajuda de um pesquisador uruguaio, Amilcar Brum, que Schlee conseguiu se dedicar à pesquisa necessária para criar o romance – a obra está pronta desde 2007, mas suas mais de 500 páginas assustaram mais de uma editora à qual o livro foi submetido.


Uma das editoras me enviou um parecer dizendo que o livro era muito bom, mas que o custo-benefício não aconselhava a publicação – diz Schlee.

 

 

 

Carlos André Moreira - Publicado em Zero Hora

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Terça-feira, 02.11.10

Efeito Borboleta - 56ª Feira do Livro de Porto Alegre

 

CONVITE:


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Conto de José Mário Silva


IC-19

 


Há muitas coisas no mundo que não compreendo. Mas o que me atormenta mesmo, palavra de honra, é não entender por que carga de água existem engarrafamentos. É um mistério inexplicável, um enigma. As filas de automóveis formam-se, crescem, esticam-se por quilómetros e quilómetros, mas quando uma pessoa chega ao sítio onde era suposto haver um estrangulamento, um desastre, qualquer coisa de grave, verifica com espanto que não há nada de anormal e que o trânsito até flui com facilidade.

 

Confesso que este fenómeno não só me deixa perplexo como profundamente irritado. Já que um homem esperou não sei quanto tempo fechado num carro, com os nervos em franja e a paciência a ferver, ao menos que fosse por uma razão forte, um acidente com vários automóveis amachucados, com pessoas feridas na berma e muitas ambulâncias e bombeiros e macas, uma coisa em grande, digna de ser mostrada no telejornal das oito. Mas quase nunca há razão forte nenhuma. Na melhor das hipóteses, estão dois homens de gravata a discutir por causa de um farolim partido. Ou então é uma senhora que deixou o carro ir abaixo e não consegue pô-lo a funcionar por causa dos nervos e das buzinadelas. São sempre coisas destas, coisas menores. Nunca nada que justifique tantas horas com o pé na embraiagem, tantas horas num pára-arranca que nos mói o juízo.

 

No outro dia, lá no emprego, o Antunes tentou explicar-me o mistério. O Antunes é um tipo assim para o esquisito. Tem perto de dois metros de altura, quase outro tanto de lado e raramente toma banho. Há quem lhe chame o urso, mais pelo cheiro do que pela envergadura. Além disso, é gago, passa a vida nos corredores a meter conversa e tem a mania de que é muito inteligente. A meio da manhã, quando saí para beber café, estava ele a falar com o Fernandes sobre o El Niño e a dinâmica imprevisível dos furacões. Quando voltei, a vítima era a Micaela, encostada à parede a ouvir histórias sobre um tal Mandelbrot, matemático ou coisa parecida, um tipo de certeza ainda mais esquisito do que o Antunes. Ele a dar-lhe com o Mandelbrot e a Micaela, coitada, a perguntar: "Mandelquê?"

 

"Man-Man-Mandelbrot", exclamou o Antunes. Com a minha aproximação, a Micaela pôs-se a milhas, enquanto o urso me pregava uma violenta palmada nas costas e dizia "nem de pro-pro-propósito". Era mesmo comigo que queria falar, garantiu-me, porque já descobrira a solução para a minha dúvida existencial. Referia-se, é claro, à história dos engarrafamentos, que eu mencionara uns dias antes, nem sei bem porquê. Segundo ele, o tal Mandelbrot tinha a ver com uma coisa chamada fractais e com uma outra coisa chamada teoria do caos.

 

"Num sistema, pequenas alterações nas condições iniciais podem provocar grandes alterações nas condições finais", disse o Antunes, orgulhoso da sua sabedoria. E eu a esbugalhar os olhos, a dizer "troca lá isso por miúdos". E ele a especificar que "basta um carro abrandar o ritmo, uma coisa de nada, para que esse abrandamento se propague e amplie na sucessão de carros que vêm atrás, provocando um abrandamento generalizado que vai ao ponto de criar uma paragem do fluxo automóvel; ou seja, o engarrafamento".

 

O Antunes é um sabichão mas não me consola. Porque a verdade é que estou parado no IC-19, com milhares de automóveis à minha frente e meia-hora para chegar ao emprego. Saber se a culpa foi de um acidente ou de um abrandamento generalizado é igual ao litro. O que interessa são os factos e os factos dizem-me que estou preso dentro do meu próprio carro, com o motor em ponto morto e a pequena árvore desodorizante a baloiçar, a baloiçar, a baloiçar, pendurada no espelho retrovisor. Estou preso eu e estão presos milhares de outros como eu, que também picam o ponto às nove, que também ganham uma miséria, que também vivem em apartamentos no Cacém e em Queluz, apartamentos T1 com manchas de humidade nas paredes e vista para outros prédios, outros como eu que também pegam no carro todos os dias a pensar "isto não é vida", outros como eu que também desconheciam a origem misteriosa dos engarrafamentos e talvez ainda desconheçam, porque apesar de tudo gajos como o Antunes contam-se pelos dedos.Olho para o relógio digital do meu Opel Corsa e percebo que vou chegar atrasado, mais uma vez. O relógio pisca 08:40, 08:40, 08:40, como antes o despertador piscou 07:30, 07:30, 07:30.

 

É uma violência, acordar com o som estridente do buzzer e aqueles algarismos vermelhos a dizerem-me que não posso fechar outra vez os olhos, que tenho de saltar da cama, atravessar a cozinha descalço, acender o esquentador, enfrentar um rosto em ruínas no espelho da casa de banho, espalhar o creme da barba, fazer um slalom gigante com a lâmina de barbear, ter cuidado para não deixar pêlos no lavatório (caso contrário a Irene aproveitará logo para vir com os seus remoques), entrar para o duche rápido, sair do duche, vestir roupa lavada, acordar a Irene, engolir à pressa um prato de corn flakes, pentear o cabelo com um nadinha de gel, ajeitar o nó da gravata no espelho do hall de entrada, descer no elevador com a vizinha do sexto direito que trabalha num escritório das Amoreiras, beber um café na pastelaria da esquina e chegar ao carro convicto de que hoje vai ser diferente, de que hoje não haverá trânsito nenhum, embora saiba que no IC-19 já está a ser montado o inferno do costume.

 

O inferno, sim senhor, o inferno. Sem labaredas e sem demónios, mas inferno. Aliás, o castigo que nos reserva o outro mundo, a nós pecadores, deve ser isto: um engarrafamento infinito, eterno. O relógio agora pisca 08:50, 08:50, 08:50 e ainda estamos a uns quilómetros de Lisboa. O inferno, sim senhor. E por falar nisso espreito os outros condenados, os meus companheiros de infortúnio. No automóvel em frente, um homem de meia-idade, careca, estendeu o jornal desportivo sobre o volante e lê as últimas sobre o seu clube. No carro ao lado, um casal de trombas. Estiveram de certeza a discutir quem teve mais culpa no atraso, agora estão calados, ele a sintonizar o rádio e a esfregar os olhos, ela a fazer crochet, talvez uma camisolinha para o neto que há-de nascer daqui a uns meses. Atrás de mim, um yuppie de óculos espelhados a gritar, furioso, para um telemóvel.Passam dez minutos. Na fila ao lado, o casal de trombas avança. O carro que vem logo atrás apita. É o Antunes. Apita, gesticula, baixa o vidro. Eu também baixo o vidro e olho para o relógio: 09:04, 09:04, 09:05.

 

Ele grita: "Nunca mais lá chega-ga-gamos". Pois não, digo eu. "É uma cha-cha-chatice", torna ele. Pois é, respondo. E lá vamos nós, lado a lado, sorrindo um para o outro de vez em quando, encolhendo os ombros e abanando a cabeça, resignados aos abrandamentos generalizados que nos paralisam a vida, enquanto o tal Mandelbrot deve estar neste momento a fazer contas num quadro de ardósia, algures num instituto que fica, aposto, a cinco minutos a pé de sua casa.

 

 

 

 


© José Mário Silva - Efeito Borboleta e outras histórias - Edições ARdoTEmpo, 2010

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DON FRUTOS - 56ª Feira do Livro de Porto Alegre

 

CONVITE:

 


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DON FRUTOS - Trecho inédito do romance

 

Trecho de Don Frutos, de Aldyr Garcia Schlee (O casamento de Anita)


 

QUE FAZER, diante de um pedaço de papel como este?


–  Comandante Rivera, responda por Don Juan Antonio Lavalleja, do qual tem plenos poderes: deseja casar com esta mulher?

 

–  Sim.

 

Doña Ana Monterroso: deseja casar com este homem?

 

Sim.

 

Sendo estas as expressões de suas vontades de se terem por esposos por mútuo consentimento, e não havendo algo que possa impedir este matrimônio, em nome de Deus e da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, eu vos declaro marido e mulher.


Rasgar o papel? Olvidar? Recordar?


Pois o padre Oubiña ou era meio atolondrado ou estava confundido ou tinha bebido por demais... O cura, depois de ouvir o que lhe havia dito em nome de Lavalleja – que sim, que queria casar com Ana; depois, ainda perguntou a ela, simplesmente: deseja casar com este homem ? E ela: sim. E quem era este homem, o homem ali, ao lado dela? Era o homem com quem ela havia dito que desejava casar; era o homem que, afinal, pelo menos pela vontade manifesta dela mesma, o padre Oubiña declarava casado com Ana de Monterroso!


A gente toda está sempre tão habituada às arengas e prédicas, às palavras de sempre dos padres nas igrejas, que nem ouve nem se preocupa em saber o que  ficam dizendo e repetindo eles, seja num casamento, seja num batizado ou numa missa de defuntos...

 

De modo que ninguém se deu conta de com quem mesmo Ana de Monterroso disse que desejava casar...Bastou olhar para Felipe Duarte e Ramón Mansilla para entender que, como testigos, não haviam maliciado nada: estavam ausentes dali, apesar de por demais compenetrados e o mais ajaezados possível. Bastou ver uma luz meio que piscando, como que um lampejo de dúvida e de perplexidade, um brilho de nada nos olhos de Anita (quando ela disse sim), para notar como ela bem havia entendido tudo – mesmo que ninguém pudesse testificar aquilo; e como ela parecia bonita, que lindaça estava!...

 

Ana havia dito sim; e, no ato, havia entendido perfeitamente tudo. Se chegou a ter um instante de titubeio, foi, foi porque soube bem com quem, com que homem havia dito que desejava casar.


Numa solenidade de casamento há que agir com compostura e recato: as mãos cruzadas por diante, os olhos baixos, a cara séria e os pensamentos distantes. Mas ali, ali era demais: ia casando por outro, estava casando, e ao repente terminava como que casado com Ana; e ela se dava conta disso e era preciso fazer-lhe saber que, afinal, depois do sim, quedavam os dois mesmo que casados.

 

Tinha, afinal, cumprido com a representação delegada por Lavalleja. Permanecia ali, diante da noiva acompanhada apenas pela irmã – a mãe delas em total estado de demência, o pai já falecido; e sem a presença dos parentes do noivo, opostos ao enlace (na capela vazia, ninguém mais que o padre, o major, o capitão e dois negros saídos sabe lá de onde). O noivo Juan Antonio andaria pelas cercanias do arroio de la Calera, no cumprimento de ordens e de seus deveres de capitão de milícia, a reaproximar os artiguistas e a combater os portugueses.A noiva estava passada quase dez anos da idade de casar, bem como a irmã, Juana. Mas era uma mulher de presença forte, de porte altivo, a fisionomia aberta e a tez louçana. Ainda assim, quem a imaginaria, um dia, mandando em Lavalleja (“dá-te corte, Juan Antonio! não te quedes atrás!”)?

 

Quem imaginaria o que ela ia fazer, depois, daquele petiço cambota sem garbo e sem ânimo? Animo, ela sempre teria; como valor, valentia e intrepidez suficientes para incendiá-lo; e para defendê-lo: para lutar por ele, para se expor por ele, para sacrificarse por ele.Naquele instante, mirava Anita como a buscar adivinhar o que lhe passava pela cabeça; e, ao mesmo tempo, para tomar coragem suficiente e encontrar as palavras próprias para fazê-la ver o que então havia se passado. Ela estava com um vestido muito rodado – azul-claro, parece – de mangas compridas com fofos nos ombros; e dava para ver-lhe o que jamais esqueceria: a ponta dos sapatos, de camurça branca, lisos, com uns tufos de seda por cima.


Foi preciso esperar um pouco, porque, encerrada a cerimônia, Juana abraçou-se à irmã, chorando; e, havendo se sumido os negros, Anita esteve, ainda, a receber os cumprimentos do próprio cura e dos dois oficiais. Só aí foi possível chegar até ela, quedar-se de banda para saudá-la, e dizer-lhe:

 

Cumprimentos... Receba meus cumprimentos.

 

Gracias, senhor comandante.

 

Bueno... Mire, Anita...

 

Sim?

 

– Sabes de uma cousa?

 

Que cousa?

 

Que estou mui feliz de ver-te casada.

 

Ah! Gracias, muchas gracias por seu sentimento.

 

E mais, se me permite...

 

Mais quê?

 

O que já lhe digo...

 

Diga nomás...

 

Usté me desafia a dizer-lhe, porque é inteligente e vivida o suficiente para sabê-lo.

 

Saber quê, senhor comandante?

 

Disse-lhe, então, sorrindo:

 

Saber que o cura se atrapalhou; e à vez de perguntar-lhe se queria casar-se com Juan Antonio, perguntou se usté queria casar-se comigo.

 

Pobre padre Oubiña, estava tão nervoso...

 

É que usté respondeu que sim, que queria casar comigo...

 

Que cousa, comandante...

 

 

 

 

 

Imagem: ©Gilberto Perin - Edições ARdoTEmpo (Don Frutos, Aldyr Garcia Schlee - 2010)

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Sexta-feira, 29.10.10

Contos em Nova York

Livro publicado nos Estados Unidos

 

O livro The Brazilian Short Story in the LateTwentieth Century, de autoria de M. Angelica Lopes, professora emérita da South Carolina University, foi editado por The Edwin Mellen Press, em Nova York. É uma antologia dos 19 melhores contistas brasileiros do final do séc. XX, incluindo entre eles Ignácio de Loyola Brandão, Rubem Fonseca, Sergio Sant'anna, Marcia Denser, Sonia Coutinho, Domingos Pellegrini, Sergio Faraco e Aldyr Garcia Schlee.

 

O conto de Aldyr Garcia Schlee que integra a seleção é "Como uma Parábola", do livro "Contos de Sempre", de 1982. Na tradução de Henry Freemann, esse conto aparece acompanhado de um estudo e de ums anotação biobibliográfica, sob o título THE SPOILS OF LOVE AND WAR.

 

A autora M. Angélica Lopes é editora do Handbook of Latin American Studies da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

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Quarta-feira, 27.10.10

A televisão revelada em palavras

OS TELEVISIONÁRIOS - de Walmor Bergesch

 

 



O grande livro da televisão no sul do Brasil. Contado com graça e leveza por um de seus principais protagonistas, Walmor Bergesch. O autor esteve presente desde o início das atividades da primeira emissora e e mantém-se atuante no universo do meio eletrônico desde então, tendo passado por praticamente todas as principais emissoras do Rio Grande do Sul e algumas das grandes redes no País, com talento, brilho e reconhecimento. Viveu lances de decisões históricas importantes como foi o caso da implantação da TV em cores no País, a difusão das televisões por assinatura e cabo, além de ser o criador da TV Com e do Canal Rural. O livro traz o depoimento e a valiosa colaboração de diversos outros e outras protagonistas nesta grande saga em contínua evolução. No livro o autor relata como a televisão foi, como ela é atualmente e como será. Ilustrado com 300 imagens em cores. Contos e crônicas nas aberturas dos capítulos escritos por alguns do mais significativos autores brasileiros (Luis Fernando Verissimo, Ignácio de Loyola Brandão, Aldyr Garcia Schlee, Cláudia Tajes, Charles Kiefer, Fabricio Carpinejar, Sergius Gonzaga, Monique Revillion, entre outros). Capa de Gilberto Perin. Um livro essencial para os estudantes e professores de comunicação e jornalismo.


Lançamento na Feira do Livro de Porto Alegre - Dia 11 de novembro de 2010

Autógrafos - Palestra e conversa com o autor e convidados televisionários muito especiais.

 


Os Televisionários

400 páginas, ilustrado com 300 imagens em cores

História

ISBN nº 978-85-62984-01-3

Valor: R$ 50,00

PRONAC nº 08 6413

Edições ARdoTEmpo, 2010

 

publicado por ardotempo às 11:27 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Terça-feira, 26.10.10

O romance secreto

OS LIMITES DO IMPOSSÍVEL - de Aldyr Garcia Schlee

 

 



Os limites do impossível é um livro de contos, identificados na narrativa singular e no estilo personal de doze mulheres diferentes e idades diversas, todas elas de alguma maneira relacionadas com uma personagem masculina que galvaniza e define a estrutura da construção literária. Estes contos finamente polidos e essencialmente trabalhados interligam-se a tal ponto que geram uma espécie de “romance secreto”. Será isso mesmo, diretamente um romance integral, disfarçado pelo subtítulo de Contos Gardelianos, apenas porque o escritor teve a intenção de nos confundir um pouco? Doze relatos de mulheres, com denso carregamento poético e intenso prazer na sua leitura, que geram imaginações e fantasias na consciência dos leitores e resultam em conclusões surpreendentes que não estão escritas em nenhuma página do livro. Será essa a intervenção criativa dos próprios leitores sobre o texto de Aldyr Garcia Schlee. Este livro notável ( de contos ou romance, o leitor decide essa questão) resultou na indicação de Aldyr Garcia Schlee, como finalista ao Prêmio Fato Literário de 2010.

 

Feira do Livro de Porto Alegre - 03 de novembro de 2010

Com a presença e autógrafos do autor - Palestra e conversa com Cláudio Moreno.

 

Aldyr Garcia Schlee é finalista indicado ao Prêmio Fato Literário 2010

 

Os limites do impossível

Contos.

Capa de Mario Castello, em duas versões diferentes.

Edições ARdoTEmpo.

204 páginas.

ISBN nº 978-85-62984-00-6

Valor: R$ 30,00

Edições ARdoTEmpo, 2009

 

publicado por ardotempo às 17:41 | Comentar | Adicionar
Domingo, 24.10.10

Prêmio Fato Literário - 2010

3 perguntas para Aldyr Garcia Schlee


Entrevista de Daniel Feix


ZHOs Limites do Impossível – Contos Gardelianos é um romance. Você o vê assim ou prefere classificá-lo como um livro de contos? E em algum momento pensa em escrever um texto ficcional longo?


Aldyr Schlee – Chamei Os Limites do Impossível subsidiariamente de Contos Gardelianos porque como tais os imaginei e os construí; mas sempre percebendo que podia (e até devia) levar o leitor a admitir que a trama ficcional urdida em cada história imbricava-se na de outra história e na de outra e outra... De modo que, tendo a ver todas as histórias entre si, resultava tudo numa só. Sempre estive consciente de que não queria estruturar um romance convencional. Estava apenas no exercício de meu ofício, que é duro e sério – de dizer, redizer, desdizer, contradizer o que seja, sempre bem e da melhor maneira; mas é também ofício divertido – de fazer de conta, imaginar, admitir que tudo é verdade e que não se está mentindo nem inventando; e que é, enfim, um ofício mágico – de recriar o mundo, ordenar e desordenar vidas, interferir na realidade e irrealidade. A propósito: antes de Os Limites do Impossível, eu havia escrito um romance – que será lançado agora, na Feira. Ele se chama Don Frutos e é uma longa narrativa ficcional de 500 páginas a partir da vida de Don Fructuoso Rivera, caudilho pampeano e primeiro presidente constitucional do Uruguai, que passou os últimos meses de sua vida em Jaguarão (RS).


ZH A formação de artista gráfico o ajuda no processo de escrita, especialmente na construção de cenas literárias?


Schlee – Não exatamente: o cinema me ajuda mais. Sempre, entretanto, com a certeza de que o texto, como forma de concretização da criação literária, deve se impor entre a invenção do autor e a imaginação do leitor – entre aquilo que talvez pudesse ter sido e aquilo que bem poderia ser. Aí, sobressaindo a palavra: a palavra precisa ser posta a serviço do texto como mediadora entre o inventar e o imaginar, impondo-se e valorizando-se também pela sonoridade que oferece e pela imagem que ajuda a construir.


ZH Você se considera mais brasileiro, uruguaio ou gaúcho?


Schlee – Eu sou um brasileiro sul-rio-grandense que, como escritor fronteiriço, sente-se quase uruguaio. Aqui, sobre a fronteira uruguaio-brasileira, tenho a gostosa e permanente ilusão de estar com meus leitores e personagens dentro de um particularíssimo mundo ficcional – fiel a mim mesmo e a eles –, com a sempre renovada certeza de que assim posso melhor me dedicar honesta e autenticamente à execução de meu projeto literário.


Publicado em Zero Hora RS - Brasil (23. outubro. 2010)

publicado por ardotempo às 19:56 | Comentar | Adicionar

O grande romance

DON FRUTOS - de Aldyr Garcia Schlee

 

 


 

O romance DON FRUTOS de Aldyr Garcia Schlee é um dos livros mais aguardados do ano.

 

Brilhante, denso, barroco, belamente escrito em finissima imaginação e linguajar fronteiriço. Aborda os derradeiros meses de vida do caudilho uruguaio Don Fructuoso Rivera, estacionado por meses em solo brasileiro, em Jaguarão, em regresso à sua pátria depois de prisioneiro em duro exílio no Brasil, para assumir pela terceira vez o mandato de Presidente da República. São as memórias imaginadas pelo autor Aldyr Garcia Schlee, para o ancião ainda poderoso, já abalado pelas enfermidades da velhice, memórias em flash-back nas quais reconta a sua vida de herói pampeano, conquistador de territórios e corações femininos, um dos fundadores de uma república independente de seus colonizadores espanhóis e refratária à dominação de seus poderosos vizinhos territoriais. Um livro é fartamente documentado por cartas, recortes de impressos, panfletos e decretos governamentais, coletados em exaustivas pesquisas pelo próprio autor.

 

Lançamento na Feira do Livro de Porto Alegre - 03 de novembro de 2010

Com a presença e autógrafos do autor - Palestra e conversa com Cláudio Moreno.

 

Aldyr Garcia Schlee é finalista indicado ao Prêmio Fato Literário 2010

 

Don Frutos

Romance.

Capa de Gilberto Perin.

Ilustrações de época.

Edições ARdoTEmpo.

512 páginas.

ISBN nº 978-85-62984-06-8

Valor: R$ 60,00 -

Edições ARdoTEmpo, 2010

 

publicado por ardotempo às 19:03 | Comentar | Adicionar

Os contos de José Mário Silva

EFEITO BORBOLETA e outras histórias - de José Mário Silva

 

 



O livro de contos Efeito Borboleta nos traz um fascinante conjunto de histórias laboriosamente lapidadas pelo autor português José Mário Silva e compõem um interessante painel da literatura contemporânea em língua portuguesa. São contos de uma imaginação surpreendente, que nos premiam com uma linguagem concisa e atentamente precisa, oferecendo uma estranha atmosfera de realidade febril que nos sugere e revela a vida como ela é, ligeiramente deslocada e algo desfocada do ambicionado imaginário da perfeição comportamental, estática e conservadora. Nem todos os personagens são bondosos, nem todos serão apolíneos ou heróicos, nem sempre as atitudes se harmonizam com um mundo planejado e ordenado dentro de regras apaziguadoras. Neles, nesses contos de imaginação e construção borgesiana, concorre uma ação de estranhamento em que algo sempre aparenta estar ligeiramente fora da sintonia. A vida como ela é.

 

Lançamento na Feira do Livro de Porto Alegre - Dia 04 de novembro de 2010

com a presença e autógrafos de José Mário Silva, palestra e conversa com Luís Augusto Fischer

 

Efeito Borboleta e outra histórias.

Contos.

Apresentação de Mariana Ianelli

Capa de Mário Castello.

Edições ARdoTEmpo, a partir da edição original portuguesa da Editora Oficina do Livro.

128 páginas.

ISBN nº 978-85-62984-04-4

Valor: R$ 30,00 -

Edições ARdoTEmpo, 2010

 

 

 

publicado por ardotempo às 18:48 | Comentar | Adicionar
Sábado, 23.10.10

O romance de Elvis Presley

Função Elvis - Romance de Laure Limongi

 

 

 

 

 

O livro Função Elvis é um romance de Laure Limongi sobre a temática da criação e formação de um mito mediático.

 

Um romance que conta numa linguagem clara, dinâmica, hipnótica, pop, em frases curtas, em capítulos de apenas uma página, de precisão cirúrgica e contemporânea, a trajetória de construção minuciosa da imagem do ídolo universalizado pelo poder de difusão dos meios de comunicação. A criatura imaginária e idealizada, permanente, fora do indivíduo. Uma função. A ascenção e a não queda do mito. Elvis vive. Em milhares de clones multiplicados pelo mundo, em imagens recorrentes, em filmes, em fotografias, em impressões reproduzidas, em canções de rock e baladas, em souvenirs, em imãs de geladeira...Um livro empolgante e magnético, como esses mesmos imãs triviais, como o próprio ídolo, permanente em copyrights, que lhe motiva o tema. Mesmo que sejam peças “únicas” fabricadas na China em quantidades monumentais.

Imagens fotográficas de Gilberto Perin.


 

Função Elvis

Autora: Laure Limongi

Tradução de Jean-Michel Lartigue.

Capa e imagens fotográficas de Gilberto Perin.

Edições ARdoTEmpo, a partir da edição original francesa de Éditions Léo Scheer.

88 páginas.

ISBN nº 978-85-62984-07-5

Edições ARdoTempo, 2010

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Quinta-feira, 07.10.10

Para aquele que disse que ler livros é muito chato

Vargas Llosa: "El goce que produce la buena literatura es incomparable"

 

 



El flamante Premio Nobel de Literatura ha comparecido esta tarde por primera vez en rueda de prensa, en Nueva York, donde se encuentra dictando un curso sobre Borges. Con el rostro feliz, Mario Vargas Llosa ha asegurado que "este premio no solo reconoce al escritor, sino también a la maravillosa lengua española y a la literatura latinoamericana". Durante toda la jornada, el escritor hispanoperuano ha confesado que lograr el premio "ha sido una gran sorpresa". Incluso ha revelado que en un principio pensó que se trataba de una broma. El autor ha tenido una cariñosa mención a España, por el enorme apoyo a su literatura. "España se ha vuelto un país mío", ha manifestado. El escritor tampoco se ha olvidado de sus lectores.


"Ha sido una sorpresa total", ha revelado Vargas Llosa, que no cree que el Nobel cambie su forma de escribir, "lo que sí espero es que cambie mi vida diaria". Y ha continuado: "Yo pensaba que estos meses aquí, en Nueva York, iban a ser muy tranquilos; pero mira, en cambio, la Academia sueca todo lo cambia". "¡Será una locura, pero sobreviviré!", ha apostillado.


El Nobel hispanoperuano ha detallado cómo se enteró de la noticia: "La llamada pensé que era una broma; cuando me llamó el secretario general de la Academia Sueca. Y le dije a mi mujer 'si se trata de una broma mejor no llamemos a los hijos hasta que se confirme'. Eran las cinco y media de la mañana y estaba leyendo, releyendo un libro maravilloso que es El reino de este mundo, de Alejo Carpentier, un libro que recomiendo, maravillosamente escrito. Vi que se acercaba mi mujer con el teléfono en la mano y sentí angustia, porque las noticias suelen ser malas cuando llegan a esas horas. Era el secretario general de la Academia Sueca. Se cortó y volvió a llamar cinco minutos después. Me dijo que en 14 minutos iba a ser anunciado".


Mario Vargas Llosa ha protagonizado una larga comparecencia en la que no evitado ningún asunto. Entre los temas por los que se han interesado los periodistas ha estado, lógicamente, la literatura, pero también la política. "No puedes dejar la política fuera de la vida", ha apuntado. El autor ha subrayado que en "América Latina existe un consenso que permite que la democracia eche raíces en nuestros países", pero al tiempo ha advertido de que "la tentación autoritaria seduce a algunos".


"Hay que estimular la literatura en las nuevas generaciones", ha reclamado, porque "el goce que produce la buena literatura es incomparable".

 

Publicado em El País

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Quinta-feira, 30.09.10

Em novembro, no mesmo período, no mesmo lugar

José Mário Silva e Paul McCartney

 

 

No início de novembro, exatamente entre os dias 04 e 07 estarão circulando por Porto Alegre RS Brasil, o escritor português José Mário Silva e o músico vegetariano, o beatle Paul McCartney. Certamente eles percorrerão locais diversos na cidade (ou não) e um deles estará bem mais acessível para conversar com as pessoas, na Feira do Livro, nas ruas, em livrarias, em locais públicos abertos e gratuitos e será bastante fácil obter um autógrafo.

 

 

 

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Segunda-feira, 27.09.10

Camisa Brasileira - O livro

Vestiários


Em breve, o livro das imagens secretas do futebol.

 

 

 


Trata-se  de um livro de arte, de fotografias de autoria de Gilberto Perin, com o texto de  Aldyr Garcia Schlee – um majestoso ensaio fotográfico sobre um universo pouco conhecido acerca das atividades e do comportamento dos milhares de trabalhadores do futebol, os que jogam e os que os apóiam. Não é o do espaço dos astros televisivos do super-espetáculo regido pelo rico mercado dos clubes-empresas, dos formidáveis anunciantes, dos empresários e dos artistas a quem a fortuna sorriu. É outra gente, mais numerosa, mais frágil, para quem os dramas humanos estão evidenciados e que são capazes de nos emocionar e comover com  a sua humildade e de sua humanidade. É outro espaço, é outro o tempo, são grandes as carências, as limitações materiais – mas talvez seja mais genuína a paixão que o esporte, distanciado dos holofotes do negócio-futebol, desperte em torcedores desses times e clubes espalhados pelo Brasil inteiro.

 

 


Um livro que desvenda e revela com imagens e texto, um universo que ninguém mais vê.

 

 

 

 


Fotografias de Gilberto Perin

Texto de autoria de Aldyr Garcia Schlee

Edições ARdoTEmpo

 

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Sábado, 25.09.10

Contraponto e antídoto aos modismos contemporâneos

Retorno ao sagrado


Rachel Gutiérrez - Rio de Janeiro, RJ


Carlos Drummond de Andrade terminou sua famosa Elegia com os versos:

 

Amor, quem contaria?

E já não sei se é jogo, ou se poesia”.

 

Mariana Ianelli, cujo novo livro é, em grande parte, uma elegia para seu avô, o artista plástico Arcangelo Ianelli, encontrou em outros versos de Drummond a epígrafe: “Vazio de quanto amávamos,/ mais vasto é o céu. Povoações/ surgem do vácuo./ Habito alguma?”. E os 45 poemas que compõem Treva Alvorada estão distribuídos em nove “povoações” habitadas, sim, por densa e intensa poesia.

 

Aqui, se jogo há é o que começa no oximoro do título e na capa, que reproduz um quadro da fase abstrata do pintor, triunfo da cor que se expande no escuro que a emoldura. Depois, é o jogo do claro/escuro da vida e da morte, ou o da evocação de mitos longínquos em contraste com a noite, “que durou anos”, um longo percurso de agonia e despedida. Nos últimos versos do último poema, outro começo se anuncia: “E terei me esquecido/ E terei me recordado/ Na idade certa de dizer,/ Se tempo houvesse:/ Aqui não se morre mais”.

 

Circularidade de uma experiência espiritual tão próxima de East Coker, segundo poema dos Quartets, do cristão T. S. Eliot, que termina com “In my end is my beginning”, quanto do misticismo tibetano, que diz, num provérbio, “todo mundo morre, mas ninguém está morto”. Poesia densa porque concentrada, onde as palavras são circundadas pelo silêncio do não dito, como o finito é envolto de infinito e a vida, a nossa finitude, limitada pelo tempo imensurável do passado e do futuro. Poesia intensa porque especulativa, intelectiva, meditativa.

 

Na era do entretenimento, da mera diversão, quando se foge da morte, da solidão e da busca de sentido, quando a exposição do escatológico e a banalização da violência vem se perpetuando assustadoramente, a poesia corre o risco de tornar-se mero jogo, performance ou engenhosa e pouco séria construção. Ora, quando significativa, a poesia é feita de som, de sentido e de silêncio. Mas nosso tempo é de estridências, de ruídos sem sentido e de ausência total de silêncio. Contrapondo-se a isso, Mariana Ianelli intitulou um de seus mais belos livros Fazer silêncio, onde encontramos nos versos do poema Legado (Obstinada chama dos antepassados,/ Capítulo um desta ficção de realidades), como em Perspectiva (Durou o instante de uma chama/ Mas ficou para a posteridade), e no primeiro dos Poemas para epitáfios, de outro livro, Passagens, (Porque o culto da alvorada persevera/ Tu não desaparecerás), prenúncios da temática principal de Treva alvorada.


Senhor das cores


Na primeira Povoação, o eu lírico da poeta ora encarna o eu do avô, artista múltiplo, que evoca outros tempos — “quando não havia ainda/ A necessária mortalidade das coisas,/ e (...) sobravam direções —, ora se distancia e observa consternado o intermitente definhar de um corpo (que) “ousa viver um dia”. Na segunda, e na terceira, onde a morte já espreita e “se mete/ Pelas frinchas, pelas guelras”, diz-se também que “em um minuto o passado elabora/ O museu do futuro”. Não podemos imaginar como foi a infância de Mariana Ianelli no convívio com esse avô senhor das cores e das formas, dos materiais mágicos da pintura e da escultura, mas sabemos que sua poesia é esculpida com palavras cuidadosas, pensativas, matéria e forma do trabalho de uma artista. “Quando canto,/ Sonho que flutuo sobre um pélago,/ Sonhar é o meu trabalho” (de Cântico). “Ser poeta significa estar na alegria”, diz Heidegger, em Approche de Höelderlin. Mesmo quando fala da morte, o poeta canta e aprendemos com Bachelard que o tempo da poesia é vertical, um mergulho para o alto, ou uma vertigem das profundezas. É no mistério das profundezas que são geradas as imagens e as metáforas. “Um sorvedouro/ Onde a paz dos contrários/ Treva alvorada./ Fecundado flutuas./ É a lei da graça”, como conclui o poema da sexta Povoação, que dá título ao livro.A evocação dos mitos torna mais compreensível o mistério da vida, o sentido da história, a condição do homem.

 

No 13.º Trabalho de Hércules, da oitava Povoação, “Eis o velho empreendedor,/ O indomado. (...) Mas a chaga do herói não se mostra”. E quando é lembrada a Origem dos Moabitas, na sétima Povoação: “Ele penetra/ Os recessos de um livro,/ Abre a fonte lacrada”. Como Loth, o patriarca dos Moabitas que, muito idoso engendrou uma nova descendência, o avô Ianelli a todos fecunda e deixa um duplo legado: uma herança e uma história, suas obras e um exemplo de vida consagrada à arte. História de ricas povoações do espaço. Arte é espaço ocupado, vida acrescentada, criação demiúrgica que se instaura no tempo. No mito também há jogo de vida e morte, só o morto tem a vida completa, fábula contada, história. “A gente morre é para provar que viveu”, disse Guimarães Rosa. E Mariana, no penúltimo poema, Diante da paisagem: “Bendita vida, trigueira vida/ Pasmando o nada”. Pois “o mito é o nada que é tudo”, como entendeu Fernando Pessoa, aqui o nada da ausência, o vácuo, o “vazio de quanto amávamos” da epígrafe de Drummond.

 

 

 

Em A palavra, a poeta faz esta confidência:

 

Eu te procuro

Em tempos de rara cortesia”.

 

Tempos de Mariana Ianelli,

que assumiu matrilinearmente o sobrenome do avô:


O teu nome se descobre

Feito de estranhas vogais.


E logo adiante:


E o que era eterno se ausenta

Em tudo à espera

De uma nova eternidade.


A poesia de Mariana Ianelli contrapõe, aos modismos contemporâneos, às elaboradas assonâncias, profundas ressonâncias artísticas e culturais. Trata-se de um corajoso retorno ao sagrado e às essências da humana condição. E justamente por representar um contrapeso e um antídoto à nossa época é que a sua poesia é necessária. Daí sua extraordinária atualidade. Nesta homenagem ao avô, de quem segue o exemplo de dedicação integral ao próprio ofício, a poeta encerra o livro como a cor do quadro de Arcangelo Ianelli, que, em seu triunfo sobre a sombra, expressa a vitória da luz. 

Memorando


Não há grandes notícias.
Uma torre desapareceu,

O inverno expandiu-se

E a esperança ainda rói

O fundo de uma caixa

Procurando saída.
Com esculpido esmero

Vai se acabando uma família.
Um gesto qualquer se repete

No ensaio de ser abolido,

Remediar, abafar, corrigir,

Nada lembra o que antes foi só

Generosidade de coisa viva.
Não convém

O alvoroço dos pássaros,

A revanche da galhardia.

É inútil desafiar o pó

E, contudo, desafia-se.


 

© Mariana Ianelli - Treva Alvorada - Editora Iluminuras, São Paulo, 2010

Publicado em Rascunho (Curitiba PR Brasil)

publicado por ardotempo às 20:47 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 24.09.10

Música, livro, poemas, arte e autógrafos

Convite

 

A Edições ARdoTEmpo, o SESC-RS, as autoras Cleonice Bourscheid (poeta) e Anelise Scherer (artista) convidam para o belo Recital e para lançamento do livro AVE, FLOR em São Leopoldo RS, Brasil, durante a V Aldeia Capilé, com a presença e autógrafos das autoras.

 

 

 

 

publicado por ardotempo às 03:31 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 22.09.10

José Mário Silva - Efeito Borboleta

Efeito Borboleta e outras histórias - Contos

 

Autor: José Mário Silva

 

ISBN nº 978-85-62984-04-4

 

124 páginas

 

Capa: Mario Castello

 

Valor: R$ 30,00

 

 

 

 

 

Apresentação de Mariana Ianelli, sobre o livro Efeito Borboleta, contos de José Mário Silva:

 

Penso nos contos de José Mário Silva e logo me vem à memória o espelho mágico de M. C. Escher.

 

Há sempre uma dimensão inaudita em suas histórias, uma realidade da ordem do inefável, na qual diferentes mundos se visitam, regidos pela lógica do sonho. Seus personagens são incógnitas dentro de um grande esquema, um grande tabuleiro cosmológico, por assim dizer, em que todo e qualquer movimento “precipita a desistência ou o desastre”.


Um simples bater de asas na Amazônia pode provocar um tornado no Texas. Perplexo diante das infinitas variantes dessa hipótese, um homem teme executar um só gesto. Nesse conto que dá título ao livro, a perplexidade que se anuncia ainda é outra. Este homem pode ser ele mesmo a borboleta enredada na malha do conto, a letra de uma palavra fatal que se vai formando secretamente, enquanto o personagem, no epicentro da narrativa, ignora sua inexistência. Aqui o leitor reconhecerá, sem dúvida, os labirintos borgeanos, os intermináveis elos de uma cadeia, o sonho dentro do sonho, a concentração dos tempos em um único instante, o ponto do espaço que contém todos os espaços. Mas antes interessa lembrar, de Borges, aquela máxima que serve de postulado para todas as artes, a de que “não sabemos se o universo pertence ao gênero realista ou ao gênero fantástico”.

 

A partir daí, ascendemos da literatura, e de suas inevitáveis intersecções temáticas, a um imenso e extraordinário “sonho apócrifo” nos contos de José Mário.


Astros, números e letras se dispersam, se reordenam e assim gira o caleidoscópio a que chamamos, por espanto e maravilha, gênero fantástico. Nessa cópula de mundos, a lente de um microscópio oferece à vista do poeta a imagemdas galáxias. De fato, José Mário é um poeta, um sonhador de insondáveis matemáticas, um encantador do pensamentoque desperta, no espaço da narrativa, este terceiro olho capaz de entrever nas linhas de uma impressão digital uma “topografia do ser”.


A forma breve que aparentemente delimita as histórias de Efeito Borboleta é mais um expediente de prestidigitador, o espetáculo em ato da fração de um minuto em que um homem revê sua vida e pressagia o exorbitante. Há sombras, muitas sombras no livro, há uma “escuridão ardendo atrás de cada porta”, a iminência do caos atrás da ordem dos planos, inclusive o literário. Nada escapa ao colapso da banalidade. O absurdo, quando prorrompe no elemento mais sutil, põe o leitor diante de um acontecimento que lhe é tão sinistro quanto familiar, como um tsunami, um atentado terrorista, ou mais uma estrela emergindo no mundo das celebridades: o surreal de uma época, nossa época, típico de um quadro de Bosch.


Nas 38 Miniaturas, imagens de alta concentração poética que fecham o volume, está a síntese da criação mágicade José Mário. Tal como o “caçador noturno” de um dos textos, dali regressamos admirados, com “meia dúzia de estrelas à cintura”. Uma aventura e uma vertigem, Efeito Borboleta contém o índice de um livro infinito. Para cada história somos transportados, ou melhor, tragados, por aquela força de atração para além da física que sabemos ser o mais simples - e o mais desejável - prazer da boa leitura.


Mariana Ianelli - Escritora, poeta e jornalista

publicado por ardotempo às 12:59 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 16.09.10

A alta gastronomia brasileira existe?

O JANTAR - de Naira Scavone

 

O leque de interesses da pesquisadora Naira Scavone não é trivial. Sua trajetória profissional perpassa a psicologia, a educação, os estudos femininos e a gastronomia; e agora desemboca neste livro (cuja “mise en place” se iniciou em seu  mestrado em Educação na UFRGS e se estendeu por anos a frente de uma escola de gastronomia, em Porto Alegre), capaz de combinar harmoniosamente todos esses ingredientes.

 

 

O que Naira oferece é uma refeição completa, da entrada ao café, passando por dois pratos principais substanciais e pela sobremesa. Mas que não se engane o gourmet desatento: neste livro não se encontram receitas ou técnicas culinárias; a matéria-prima com que o jantar é preparado aqui é o campo da alta gastronomia no Brasil de hoje, analisado a partir de um sólido referencial teórico conceitual, tanto quanto de uma longa vivência pessoal em meio a chefs e entusiastas do bem-comer.

 

 

 

Assim, o que está em pauta são as relações de poder e de gênero dentro da cozinha profissional, o imaginário da alta gastronomia disseminado pelas revistas especializadas e a construção de uma idéia de nação por via de uma certa “gastronomia brasileira”, dentre outros temas.

 

Já não bastasse a originalidade temática e de abordagem – afora artigos acadêmicos esparsos, são ainda raras no Brasil as publicações com foco na análise sociológica de nossa própria alimentação -, o que torna este livro algo especial é a ousadia e a argúcia com que sua autora enfrentou a empreitada.  Ainda que feito só de palavras, o jantar servido aqui tem a combinação bem calibrada (e rara) de temperos capaz de atrair a toda a gama de interessados em gastronomia.

 

Patrícia Gomensoro

 

 

Fotografias: Mauro Holanda

© Naira Scavone - O Jantar - Edições ARdoTEmpo, 2010

publicado por ardotempo às 13:13 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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