Sexta-feira, 20.11.09

Apresentação de Livro: em Pelotas e Porto Alegre

 Os limites do impossível

 

 

A partir da idéia estarrecedora de que o nascimento de Carlos Gardel ocorreu em Tacuarembó, no Uruguai, fruto de incesto e estupro, os contos deste livro transitam por algumas versões do espantoso acontecimento.
 
Aqui se imagina e se inventa como tudo terá acontecido − de forma a alcançar uma realidade ficcional que se proponha verdadeira à percepção do leitor. Assim, qualquer semelhança entre os fatos narrados e algo que tenha realmente ocorrido ou deixado de ocorrer não será apenas mera coincidência: será a prova de que a realidade muitas vezes vai além dos recursos da ficção, alimentando-se do improvável e do inacreditável para chegar ao impossível − que nossa fantasia, geralmente, não consegue alcançar ou frequentar.
 
Aqui enfrentamos os limites do impossível.
 

Aqui, os limites do impossível são desafiados em cada uma das histórias de Clara, de Blanca, de Juana, de Cisa, de Felicia, de Rosaura, de Mulata-flor, de La Niña, de Manuela, de Constantina, de Berta, de La Madorell, mulheres de verdade ou de mentira cujas vidas ajudam a recompor a difusa memória do incrível e triste nascimento de Carlos Gardel em Tacuarembó. 

 

 

 

 

 
 

Apresentação: Instituto Simões Lopes Neto

Dia 05 de dezembro - 21h / Noite Branca (sábado)

Rua D. Pedro II, nº 810  - Pelotas RS

(53) 30 27 18 65

 

Apresentação: Palavraria

Data adiada para :             MARÇO DE 2010

Rua Vasco da Gama, nº 165 - Bom Fim - Porto Alegre RS

(51) 32 68 42 60

publicado por ardotempo às 11:41 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 13.11.09

Aldyr G. Schlee na Praça e na TV

Entrevista do escritor

 

 


 

 

Aldyr Garcia Schlee e Tatata Pimentel - entrevista concedida pelo autor à TV Com / RBS TV (Rede Globo), desde a 55ª Feira do Livro de Porto Alegre - Pavilhão de Autógrafos  (Porto Alegre RS Brasil), 2009

Fotografia: Luiz Carlos Vaz

publicado por ardotempo às 15:43 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 10.11.09

Autógrafos sob os jacarandás

Oportunidade rara 

 

 

Novo livro de Aldyr Garcia Schlee, com a presença do autor no Pavilhão de Autógrafos da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre

 

 

 

Os limites do impossível - Contos gardelianos

 

© Aldyr Garcia Schlee
Livro de contos - 204 páginas - 2009
Capas: imagens fotográficas de Mário Castello
ISBN nº 978-85-62984-00-6

 

Edições ARdoTEmpo 

Dia 10 de novembro 19h30 - terça feira - Pavilhão de Autógrafos

55ª Feira do livro de Porto Alegre - RS Brasil 

 

publicado por ardotempo às 18:49 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 06.11.09

10 de novembro - Os limites do impossível

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os limites do impossível - Contos gardelianos

© Aldyr Garcia Schlee
Livro de contos - 204 páginas - 2009
Capas: imagens fotográficas de Mário Castello
ISBN nº 978-85-62984-00-6

Edições ARdoTEmpo 

Dia 10 de novembro 19h30 - terça feira - Pavilhão de Autógrafos

55ª Feira do livro de Porto Alegre - RS Brasil 

 

 

publicado por ardotempo às 11:45 | Comentar | Adicionar
Sábado, 23.05.09

No, no puede ser!

No, no puede ser!
 
Tradutor de Mario Benedetti, o escritor Aldyr Garcia Schlee se despede emocionado do seu velho e querido amigo uruguaio
 
 
Morreu domingo, enquanto dormia, um dos últimos viúvos de Margaret Sullavan. A notícia de sua morte esperada, ainda assim, despedaça-nos, rasga-nos por dentro como a própria morte de Margareth Sullavan terá feito com ele.
 
Era um pequenino homem de bigode branco, ronronando sua asma brônquica entre um pigarro e outro, sempre discreto, austero e calado em seu canto, com os olhinhos úmidos e muito sugestivamente brilhantes. Quando eu nasci, ele tinha já 14 anos e estava deixando os estudos para trabalhar; só fui conhecê-lo pessoalmente quando principiava a ser admirado, reconhecido e venerado em seu país, onde fora vítima da intolerância, da injustiça, da censura e da perseguição política impostas pela ditadura militar que infelicitara o Uruguai a partir de 1973.
 
Mario Benedetti contava que em janeiro de 1960, estando com a esposa em Nova York e pretendendo ver num teatro do Village a peça Nossa Cidade, de Thornton Wilder, soube do porteiro que os ingressos estavam esgotados. “A esta hora o senhor pretende ingressos? Em que mundo vive?”, ¬ perguntou-lhe o porteiro. Mario, com seu bigode e sua modéstia, sentiu-se como o provinciano que era realmente, incapaz de enfrentar então ao menos uma escada rolante... Foi quando tilintou o telefone, ali no saguão do teatro. O porteiro atendeu em silêncio, logo se transfigurou; e disse quase soluçando: não! não pode ser, não pode ser!
 
Mario Benedetti, solidário sempre e em todas as circunstâncias, aproximou-se, tocou-lhe brevemente o braço, perguntou-lhe o que acontecia, se havia recebido alguma má notícia, se podia ajudar... Então o rapaz se voltou para ele e disse como se despertasse de um pesadelo:
 
- Morreu Margaret Sullavan!
 
- No, no puede ser - disse Benedetti para si mesmo e para ninguém mais, com o assombro e a tristeza de quem tomava consciência de que naquele instante desaparecia o último vestígio de sua já distante adolescência. E ele percebia que pela primeira vez em sua vida havia perdido um ente querido.
 
Ao justificar sua paixão por Margaret Sullavan, Benedetti reconhecia com a simplicidade de quem está trilhando o óbvio, que uma atriz de cinema não é exatamente uma mulher, é antes uma imagem. Como muitos de nós, reconhecia ele que havia se apaixonado pela imagem de Margaret Sullavan na adolescência, quando uma paixão dessas se torna definitiva. Fora a imagem daquela atriz que pela primeira vez habitara a sua e a nossa insônia e nos cortara a respiração, significando nosso primeiro ensaio de emoção, nosso primeiro arremedo de amor.
 
Quando procurei Mario Benedetti pela primeira vez, e precisava encontrá-lo para que me permitisse traduzir seu conto Sábado de Glória, ele estava na Espanha. Depois, quando finalmente nos encontramos, fiquei tão perturbado diante daquele homenzinho e de sua descomunal estatura moral, cívica e literária, que esqueci o nome do conto, o título do livro correspondente, tudo, e só me lembrei de Margaret Sullavan - a inesquecível atriz de cinema que me encantara, que encantara o escritor e que encantava ainda e também o infeliz narrador da tragédia familiar contada por Benedetti - que minha mulher lera chorando e que eu, chorando, traduzira para o português.
 
Em torno de Margareth Sullavan estivemos uma vez sentados numa mesa de La Popponita, onde se falava de cinema e quando não me animei a confessar-lhe que 20 anos antes costumava ler e tentara colecionar suas crônicas publicadas em La Mañana. Benedetti não dizia nada, não precisava dizer nada, admitindo e aprovando divertidamente com seu sorriso ladeado nosso entusiasmo com o cinema e nossas lembranças de filmes, atores e atrizes. A partir de Margareth Sullavan, nós nos perguntávamos sobre Gene Tierney, Ava Gardner e Rita Hayworth, sobre os melhores anos de nossas vidas, sobre tempos modernos, sobre a bela e a besta... De repente, eu me dei conta de que - posta a câmara em Mario Benedetti, como numa tomada cinematográfica - tudo o mais era acessório, era dispersão. E me calei. Não havia mais o que dizer.
 
Benedetti havia dosado com a emoção e o amor despertados pela imagem de Margaret Sullavan todo o conteúdo poético de sua prosa ficcional, feita da retomada e da recuperação dos grandes dramas e das pequenas tragédias do cotidiano urbano uruguaio. Embora fosse, por isso mesmo, um poeta, seus versos duros, reiterativos e panfletários, pouco deixavam transparecer a poesia, submetidos geralmente à clara proposição política e ideológica que os fazia inseparáveis das lutas sociais em que ele esteve envolvido.
 
Uma vez estivemos juntos numa mesa de debates, na Biblioteca Nacional; outra, na Intendência Municipal de Montevidéu. Em ambas as ocasiões, senti-me oprimido e deprimido, vendo que Mario Benedetti não estava à vontade: ele como que já não tinha o que dizer, já estava cansado; estava cansado de repetir o que esperavam que dissesse, já estava cansado de ouvir o que sempre diziam dele.
 
Fora um combatente das letras. Fora o primeiro e era o último sobrevivente da geração crítica de 1945 - que tivera a coragem de denunciar o pedantismo, a frivolidade, a hipocrisia e o conformismo dos cultores da “belas letras” no Uruguai desde o propalado reconhecimento do país como “a Suíça americana”. Ele voltara para Montevidéu os olhos do leitor uruguaio - habituado até então à nostalgia campeira de uma literatura “criolla” - e reconstruíra a partir da capital a sua urbanidade, ajudando a recompor e reafirmar a identidade uruguaia como a de um país montevideano.
 
Fora mais do que um combatente das letras. Fora um militante da justiça social e da dignidade humana, um defensor da vida e da alegria. Enfrentara a ditadura como um dos fundadores do Movimento 26 de Março, braço legal do Movimento de Libertação Nacional Tupamaros. Precisara exilar-se na Argentina para não sucumbir à fúria militar em seu próprio país; precisara fugir para o Peru a fim de escapar com vida da AAA, a Ação Anticomunista Argentina...
 
Fora o intérprete dos anseios, das contradições e das perplexidades dos escritores latino-americanos; fora galardoado com prêmios, títulos, insígnias internacionais, antes que lhe reconhecessem os méritos no próprio Uruguai - onde só em 2005 lhe deram o título de Doutor Honoris Causa da Universidade da República.
 
Certamente estava cansado de tudo isso.
 
Sempre fora um homem pequeno e modesto, com seu eterno bigode (e até cultivara um certo topete na testa cada vez mais ampla e alta). Sempre vivera dos sonhos e das emoções que alimentaram sua escritura da mesma forma como a confiança e a esperança que tinha em um mundo melhor, mais justo e mais feliz.
 
Era casado com uma extraordinária mulher chamada Luz Alegre, cujo nome bastava para justificar o quanto dela ele dependia como companheira e orientadora. E tinha ele mesmo um paradoxal e estranho nome quilométrico, só comparável à variedade e à quantidade de sua imorredoura obra literária: Mario Orlando Hamlet Hardy Brenno Benedetti Forugia.
 
A morte é definitivamente o fim. Mas, como se fora o começo de tudo, Mario Benedetti terminou velado na Sala dos Passos Perdidos do Palácio Legislativo Uruguaio; e enterrado no Panteão Nacional do Cemitério Central de Montevidéu.
 
Agora, o que adianta?
 
Fica o eco de nosso desconsolo e de nossa incredulidade ante a notícia de sua morte.
 
¡No, no puede ser!
 
© Aldyr Garcia Schlee - Escritor e tradutor
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Quinta-feira, 10.04.08

OS ALEMÃO - 3






Hier sprechen wir Brasilianischen


                 


O pai de meu pai viera para o Brasil num navio da Hamburg-Amerika Linie, em 1888, para instalar sobre um trapiche, às margens do arroio São Lourenço e a poucas quadras da Lagoa dos Patos, uma Exporthäusern für Kolonialprodukte, quem sabe um estaleiro, quem sabe uma empresa de navegação.

Imagino que trazia uma roupa preta e o cavanhaque aparado – como nos retratos em que o conheci – além de bastante dinheiro para ele mesmo buscar seu “lugar ao sol”, em vez de servir ao Kaiser e garantir a expansão colonial alemã.

Vovô morreu moço, aos 5l anos, depois de uma ponta de lápis lhe penetrar na virilha, numa queda, e apesar de ser levado às pressas para Pelotas, em busca de socorro.

Era o fim da I Guerra Mundial e ele deixava para cada filho um barco de carga e, para toda a gente, a lembrança de uma seriedade casmurra que só escondia, nos olhos líquidos, a risonha zombaria com que se revelava um alemão incapaz de plantar batatas, incapaz de usar tamancos, incapaz de dirigir uma wagenkollonen – mas capaz de tomar banho todos os dias (e que propalava com letra gótica em sua porta:

HIER SPRECHEN WIR BRASILIANISCHEN).

Vovó Anna havia anotado na última página de seu Gesangbuch (editado em Sttetin, em pomerano), o nome e a data de nascimento de cada filho. A letra é boa, mas a tinta está apagada. 

Leio: Karl Ern..... Leonard, 24/3/1893; Emil Klaus Joa.... , 28/7/1895; Wilhelm Konrad Joseph, 25/../1897; Gustav Ferdinand Otto, 2/../1899; August Friedrich Michael, 5/l/1907.

Esses cinco, quando estava terminando a I Guerra Mundial já eram
 
Carlos

Emílio
Guilherme
,
Gustavo
e
Augusto
, meu pai.
Tinham casado com brasileiras (dois deles com castelhanas de Jaguarão); tinham levado para a fronteira as primeiras indústrias, o comércio de exportação e importação, a prestação de serviços e as primeiras granjas de arroz; tinham vivido com gosto e arrebatamento cada instante de sua multíplice e fascinante aventura.


                  


Seus iates – o Portimão, o Protetor, o São Domingos, o Aníbal I, o Aníbal II (cuja âncora guardo amorosamente como relíquia e prova de um inacreditável e irrecobrável tempo de prodígios) – foram apenas começo e fim de tudo: foram rolos de fumaça se erguendo lentamente, e inexoravelmente se perdendo no ar – no retrato de vovô com seu cachimbo de porcelana e seu transcendente intento bávaro de Shiffen mit Dampf; ou lá longe, na última curva do rio atravessado pela ponte cinzenta e pelos trens insaciáveis. 

Seus iates navegaram por toda a região da Lagoa dos Patos e da Lagoa Mirim, arribando a portos estabelecidos ou estabelecendo atracadouros novos, cada qual com suas cargas de ilusões e seu mestre, seu motorista, seu marinheiro, seu moço de convés e seu cozinheiro, exatamente como haviam feito no Rio dos Sinos, no Jacui, no Caí, no Taquari, os barcos de outros alemães – Blauth, Becker, Michaelsen, Schilling, Arnt. Mas tudo acabou como um sonho que se desvanece.


                     



– continua                                              Os Alemão - Sequência  01  02  03  04

© Aldyr Garcia Schlee
Imagens ©Coleção Azevedo Moura e AGS
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OS ALEMÃO - 2




 


Os velhos levados presos por não falarem português


D
epois das férias, retornei a Jaguarão, onde havia nascido, onde estudava e onde morava com minha vó materna, a um passo do Uruguai. Não sei se cheguei a ter vontade de contar tudo, tudo o que eu tinha visto e feito; mas, por qualquer razão que na época não poderia adivinhar, acabei guardando tristemente comigo, em dificultoso segredo, cada alegria, cada descoberta, cada novidade de Santa Cruz.

                                  

Talvez achasse que não acreditariam em mim, talvez não quisesse me intrometer em assunto de gente grande.  De modo que nunca revelei nada, mesmo que fosse sobre as bolachinhas de mil formas, os bichinhos de marzipã e a ávore de Natal enfeitada com maçãs de verdade; eu nunca confessei palavra sobre os velhos levados presos rua afora ou os cânticos natalinos ou o bolo de chocolate de vovó Anna – eu, que ninguém sabia que havia viajado num  automóvel sobre trilhos, dormido em acolchoados  de pena de ganso e morado dentro de uma fábrica de balas!...

Em Jaguarão, os dois primeiros alemães que apareceram foram um fotógrafo e um dentista, prático licenciado. Depois, com seus barcos a vapor, com seus ternos elegantes e com suas manias de grandeza que acendiam de inveja os fazendeiros locais, chegaram meu pai e seus irmãos, trazendo rio acima cimento e ferro para a grande ponte, trilhos e dormentes para a ferrovia; as quais haveriam de unir Brasil e Uruguai e de marcar o início do longo e agoniado declínio da navegação fluvial e lacustre.


                


Eu ainda não era nascido, mas me lembro bem, porque está num conto meu.

Desde que chegaram os homens, desde que se abriram as picadas, desde que vieram os dormentes e trilhos as coisas foram mudando demais. Eram gentes de pêlo variado, de modos estranhos, de toda a laia e para todo o gasto; eram medidas e escavações, picaretas e pás, campo rasgado e mato derrubado; eram toras pesadas enchendo os iates, eram aquelas talas de ferro luzindo e depois enferrujando, enferrujando...


               


Foi o verão mais quente que já se teve; e foi o dia mais quente de todos os verões, aquele 1º de janeiro de l93l da inauguração da ponte: as pessoas debruçadas na amurada, olhando o rio bem de cima; a água limpa da estiagem passando em desordenados redemoinhos; embaixo, barcos enfeitados, as chatas, os iates que haviam carregado ferro e cimento, cimento e ferro, cimento e ferro, meses a fio, para a construção; e, bem embaixo, na sombra sob as alfândegas, o mormaço, a umidade, o entulho, o cheiro de bosta fresca...


                 



– continua                                                  Os Alemão - Sequência  01  02  03  04

© Aldyr Garcia Schlee
Imagens ©Coleção Azevedo Moura e AGS
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Quarta-feira, 09.04.08

OS ALEMÃO - 1




 

Aldyr Garcia Schlee


Stille Nacht, Heilige Nacht!


                        
            
N
a véspera do Natal de 1943, voltei a Santa Cruz do Sul numa viagem inesquecível: primeiro, de avião até Porto Alegre; depois, de trem até Ramiz Galvão – e, por fim, num carro-de-linha Ford Modelo T que varou a escuridão e o silêncio da noite sobre trilhos iluminados de vertiginosa magia, como para me deixar gloriosamente diante da árvore em torno da qual se cantava o Tannenbaum.

Stille Nacht, Heilige Nacht! 

O pinheirinho estava enfeitado com maçãs!


Vovó Anna era gorda, tinha uma grande cama com acolchoados de pena de ganso e fizera bolachinhas de mil formas – estrelas, corações, anjos, flores, sereias – além de bichinhos de marzipã – pássaros, ovelhas, galos, patos, cachorros...

Eu estava com nove anos, deslumbrado diante das maçãs de verdade na árvore de mentira, e ainda a sentir o inacreditável trepidar do fordeco sobre os trilhos brilhantes. Aquele dia fora tão fantástico, tão surpreendente e extraordinário, que tudo acontecia além do pretendido e esperado, além do que eu julgara possível e desejado em meus sonhos infantis de dirigíveis e aeroplanos, de soldados e bandidos, de comboios varrendo as telas do cinema, sem qualquer inimaginável automóvel sobre trilhos.

De modo que naquele dia eu não tinha ainda idade, eu não tivera ao menos tempo, eu não teria nem mesmo querer para descobrir algo além dos cânticos natalinos, das maçãs e da árvore, dos acolchoados de penas, dos bichinhos de marzipã, das sereias, das flores, dos anjos, dos corações e das estrelas – e do bolo de chocolate sobre o qual vovó havia escrito Sacher.

Meu pai, minha mãe, meus irmãos, minha avó, nós morávamos numa fábrica de balas, na Avenida Independência, nº 100. Era uma maravilha de perfumes e de cores, os caramelos assim enormes em grossos rolos se afinando se afinando plac plac plac cortados cortadinhos cortadinhos se amontoando se amontoando montões de caramelos montões de caramelos coloridos... Até que um dia eu vi; eu estava sentado feliz diante de casa com minhas bolachinhas, minhas balas e meus sonhos, quando eu vi; eu vi pelo meio da rua soldados da Brigada, eu vi os soldados levando por diante quatro ou cinco velhos, eu vi os velhos presos a uma corda, um atrás do outro.

Não me lembro da cara daqueles velhos, de seus olhares perdidos, de seus gestos de desamparo, de seus chinelos vacilantes. Nem me lembro se corri para dentro, se chorei de susto e se me explicaram por que se prendia a gente, porque se arrastava a gente pela rua.

Só me lembro que naquele dia, deitado com meus sonhos, minhas balas e minhas bolachinhas nos acolchoados de penas de ganso de vovó Anna, eu me abracei fortemente nela, bem apertado, soluçando e tremendo muito, tremendo de medo, engasgado de medo.


                                             


– continua                                                   Os Alemão - Sequência  01  02  03  04

© Aldyr Garcia Schlee
Imagens ©Coleção Azevedo Moura
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Aldyr Schlee escreve

Aldyr Schlee, o grande escritor do Sul, das Américas, de vivências incomuns e densas histórias pessoais, enviou um texto esplêndido, uma espécie de relato emotivo biográfico que dá conta das histórias de uns alemães imigrantes que construíram suas vidas, suas famílias e uma legenda de boa memória, pelas lagoas extensas e nas descampadas fronteiras meridionais, as mais afastadas das grandes metrópoles brasileiras.



Um texto em 4 capítulos postados no blog ARdoTempo sob o título de

                 

                             
 
                                 "Pela manhã, têm-se ouro na boca"                                               
publicado por ardotempo às 20:53 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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