Sábado, 18.07.09

A paleta mineral

As cores da terra

 
José Saramago
 
As mãos, quando trabalham a terra, confundem-se com ela. Há pintores que se acercam à superfície do suporte com as mãos manchadas das cores da terra. Há pintores que não podem nem nunca quereriam esquecer as cores da terra quando se preparam para pintar um rosto, um corpo despido, o brilho de um cristal, ou nada mais que duas rosas brancas numa jarra. A luz também existe para esses pintores, mas apreendem-na como se ela lhes tivesse subido do interior da terra obscura.
 
Ao distribuí-la na tela, ou no papel, ou numa parede, o que eles fazem aparecer são os tons surdos e quentes dos barros, os negrumes do húmus, o pardo das raízes, o sangue do almagre. Pintam o humano e a sua contingência com as cores da terra porque essas é que são as cores fundamentais, não as outras.
 
De um retrato que tenha sido pintado pelas cores da terra (como os pintava Cézanne) nunca se diga que está parecido, diga-se, sim, que é idêntico, idêntico ao original, idêntico na sua última substância: neste caso, a maior ou menor semelhança que seja capaz de oferecer-nos será o que menos deva importar. Uma figura pintada com as cores da terra terá sempre no rosto a inteireza áspera do sílex, nos cabelos os redemoinhos que o vento desenha e move nas searas, e as mãos aparecer-nos-ão como se tivessem acabado de erguer do chão os seus frutos mais profundos. As cores, todas as cores, as da terra e as do ar, sempre procuraram as formas de que precisavam para serem percebidas mais além da sua primeira manifestação. As cores foram sempre o que desafiou ou conteve o ímpeto contraditório que se encontra implícito nas formas, campo eterno de um conflito entre as agitações caóticas da rebeldia e as passividades da submissão ao costume.
 
Tudo isto será certamente menos perceptível nas pinturas que, havendo-se proposto como miméticas transposições do “real” aparente, aspiram, acima de tudo, a ser “reconhecidas”, “identificadas”, “classificadas”, porém, essas, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser presas da acção desgastadora de um olhar que pouco a pouco as vai “neutralizando”. Pelo contrário, ao defender-se de formas facilmente identificáveis com as representações comuns da realidade circundante, a arte abstracta, quer directa, quer de opção tendencial, “resguarda” e “liberta”, em princípio, a independência relativa da cor, não a “estrangula” no aperto constringente de configurações mais ou menos previsíveis ou de modelos social e consensualmente correctos.
 
Não foi por mera casualidade que utilizei a palavra “tendencial” como característica de uma certa prática pictórica que, apesar de instalada sem equívocos naquilo que, generalizando demasiado, chamamos arte abstracta, se recusa a cortar completamente as pontes com o mundo dos signos e dos símbolos, quer arquetípicos, quer modernos.
 
Ela brotou espontaneamente no meu espírito enquanto contemplava, de olhos deslumbrados e tomado por uma emoção poucas vezes experimentada antes, as pinturas murais com que Jesús Mateo cobria as paredes frias da igreja de San Juan Bautista de Alarcón. Era Jesús Mateo um pintor abstracto “tendencialmente” realista? Ou, pelo contrário, um pintor realista “tendencialmente” abstracto?
 
E essas pontes de ligação a que acima fiz referência seriam somente praticáveis para comunicar a arte “abstracta”com os signos e os símbolos gerados nas diversas indagações de que a realidade tem sido objecto, ou existiriam igualmente para comunicar a arte “realista” com um universo de abstracções em contínua expansão? Pensei então que Jesús Mateo, ao mesmo tempo que se havia libertado das ataduras condicionadoras de um realismo estrito para se entregar a um trabalho sobre formas também elas “tendencialmente” livres, embora em meu entender acatando sempre a lógica cromática, havia logrado, graças à introdução inteligente e criteriosamente medida de signos e símbolos sem custo identificáveis, fundir em uma expressão única, e quase diria uníssona, como um coro a plenas vozes simultâneas, como um políptico perspectivamente reunido em um só ponto de fuga, as enormes paredes que subiam do chão arrastando consigo toda as cores surdas da terra para ir ao encontro das cores luminosas do ar. Perante o ciclópico assombro, conceitos como abstraccionismo e realismo perdem algo do seu significado autónomo corrente, tornam-se mão esquerda e mão direita modelando em harmonia o mesmo barro.
 
Não sei se a igreja de San Juan Bautista de Alarcón virá a ser olhada como a Capela Sixtina do nosso tempo, mas sei, tanto por ciência que creio certa como por intuição divinatória, que o pintor Jesús Mateo nasceu da mesma árvore genealógica que deu os seus melhores frutos em Hyeronimus Bosch e Brugel, o Velho.
 
Tal como eles, Jesús Mateo explicou o homem. Pelo visível e pelo invisível.
 
© José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago
 
 
Auto-retrato, de João Fahrion - Pintura, óleo sobre placa de madeira (Detalhe)
publicado por ardotempo às 17:59 | Comentar | Adicionar
Domingo, 05.07.09

Atenção às aparências

Aparências
 
José Saramago
 
Suponho que no princípio dos princípios, antes de havermos inventado a fala, que é, como sabemos, a suprema criadora de incertezas, não nos atormentaria nenhuma dúvida séria sobre quem éramos e sobre a nossa relação pessoal e colectiva com o lugar em que nos encontrávamos. O mundo, obviamente, só podia ser o que os nossos olhos viam em cada momento, e também, como informação complementar não menos importante, aquilo que os restantes sentidos – o ouvido, o tacto, o olfacto, o gosto – conseguissem perceber dele. Nessa hora inicial, o mundo foi pura aparência e pura superfície. A matéria era simplesmente áspera ou lisa, amarga ou doce, azeda ou insípida, sonora ou silenciosa, com cheiro ou sem cheiro.
 
Todas as coisas eram o que pareciam ser pelo único motivo de que não havia qualquer razão para que parecessem e fossem outra coisa. Naquelas antiquíssimas eras não nos passava pela cabeça que a matéria fosse “porosa”. Hoje, porém, embora sabedores de que desde o último dos vírus até ao universo, não somos mais do que organizações de átomos e que no interior deles, além da massa que lhes é própria, ainda sobra espaço para o vácuo (o compacto absoluto não existe, tudo é penetrável), continuamos, tal como o haviam feito os nossos antepassados das cavernas, a apreender, identificar e reconhecer o mundo segundo a aparência com que se nos apresenta. Imagino que o espírito filosófico e o espírito científico, coincidentes na sua origem, deverão ter-se manifestado no dia em que alguém teve a intuição de que essa aparência, ao mesmo tempo que imagem exterior capturável pela consciência e por ela utilizada, podia ser, também, uma ilusão dos sentidos. Se bem que habitualmente mais referida ao mundo moral que ao mundo físico, é conhecida a expressão popular em que aquela intuição veio a plasmar-se: “As aparências iludem.” Ou enganam, que vem a dar no mesmo.
 
© José Saramago - Publicado em O Caderno de Saramago
publicado por ardotempo às 14:11 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 02.07.09

Palavras de Saramago

Palavras
 
“Não pode haver conferência de imprensa sem palavras, em geral muitas, algumas vezes demasiadas. Pilar insiste em recomendar-me que dê respostas breves, fórmulas sintéticas capazes de concentrar longos discursos que ali estariam fora de lugar. Tem razão, mas a minha natureza é outra. Penso que cada palavra necessita sempre pelo menos outra que a ajude a explicar-se. A coisa chegou a um ponto tal que, de há tempos a esta parte, passei a antecipar-me às perguntas que supostamente me farão, procedimento facilitado pelo conhecimento prévio que venho acumulando sobre o tipo de assuntos que aos jornalistas mais costumam interessar. O divertido do caso está na liberdade que assumo ao iniciar uma exposição dessas. Sem ter de preocupar-me com os enquadramentos temáticos que cada pergunta específica necessariamente estabeleceria, embora não fosse essa a sua intenção declarada, lanço a primeira palavra, e a segunda, e a terceira, como pássaros a que foi aberta a porta da gaiola, sem saber muito bem, ou não o sabendo de todo, aonde eles me levarão.
 
Falar torna-se então numa aventura, comunicar converte-se na busca metódica de um caminho que leve a quem estiver escutando, tendo sempre presente que nenhuma comunicação é definitiva e instantânea, que muitas vezes é preciso voltar atrás para aclarar o que só sumariamente foi enunciado. Mas o mais interessante em tudo isto é descobrir que o discurso, em lugar de se limitar a iluminar e dar visibilidade ao que eu próprio julgava saber acerca do meu trabalho, acaba invariavelmente por revelar o oculto, o apenas intuído ou pressentido, e que de repente se torna numa evidência insofismável em que sou o primeiro a surpreender-me, como alguém que estava no escuro e acabou de abrir os olhos para uma súbita luz. Enfim, vou aprendendo com as palavras que digo. Eis uma boa conclusão, talvez a melhor, para este discurso. Finalmente breve.”
 
José Saramago
 
(in O Caderno, de José Saramago, Caminho, 2009)
 
Publicado no blog Bibliotecário de Babel
publicado por ardotempo às 02:50 | Comentar | Adicionar
Domingo, 28.06.09

O impasse das aparências

Formação 
 
José Saramago
 
Não ignoro que a principal incumbência assinada ao ensino em geral, e em especial ao universitário, é a formação. A universidade prepara o aluno para a vida, transmite-lhe os saberes adequados ao exercício cabal de uma profissão escolhida no conjunto de necessidades manifestada pela sociedade, escolha essa que se alguma vez foi guiada pelos imperativos da vocação, é com mais frequência resultante dos progressos científicos e tecnológicos, e também de interessadas demandas empresariais. Em qualquer caso, a universidade terá sempre motivos para pensar que cumpriu o seu papel ao entregar à sociedade jovens preparados para receberem e integrarem no seu acervo de conhecimentos as lições que ainda lhe faltam, isto é, as da experiência, madre de todas as coisas humanas.
 
Ora, se a universidade, como era seu dever, formou, e se a chamada formação contínua fará o resto, a pergunta é inevitável: “Onde está o problema?” O problema está em que me limitei a falar da formação necessária ao desempenho de uma profissão, deixando de lado outra formação, a do indivíduo, da pessoa, do cidadão, essa trindade terrestre, três em um corpo só.
 
É tempo de tocar o delicado assunto. Qualquer acção formativa pressupõe, naturalmente, um objecto e um objectivo. O objecto é a pessoa a quem se pretende formar, o objectivo está na natureza e na finalidade da formação. Uma formação literária, por exemplo, não apresentará mais dúvidas que as que resultarem dos métodos de ensino e da maior ou menor capacidade de recepção do educando. A questão, porém, mudará radicalmente de figura sempre que se trate de formar pessoas, sempre que se pretenda incutir no que designei por “objecto”, não apenas as matérias disciplinares que constituem o curso, mas um complexo de valores éticos e relacionais teóricos e práticos indispensáveis à actividade profissional. No entanto, formar pessoas não é, por si só, um aval tranquilizador. Uma educação que propugnasse ideias de superioridade racial ou biológica estaria a perverter a própria noção de valor, pondo o negativo no lugar do positivo, substituindo os ideais solidários do respeito humano pela intolerância e pela xenofobia. Não faltam exemplos na história antiga e recente da humanidade.
 
Aonde pretendo chegar com este arrazoado? À universidade. E também à democracia. À universidade porque ela deverá ser tanto uma instituição dispensadora de conhecimentos como o lugar por excelência de formação do cidadão, da pessoa educada nos valores da solidariedade humana e do respeito pela paz, educada para a liberdade e para a crítica, para o debate responsável das ideias. Argumentar-se-á que uma parte importante dessa tarefa pertence à família como célula básica da sociedade, porém, como sabemos, a instituição familiar atravessa uma crise de identidade que a tornou impotente perante as transformações de todo o tipo que caracterizam a nossa época. A família, salvo excepções, tende a adormecer a consciência, ao passo que a universidade, sendo lugar de pluralidades e encontros, reúne todas as condições para suscitar uma aprendizagem prática e efectiva dos mais amplos valores democráticos, principiando pelo que me parece fundamental: o questionamento da própria democracia. Há que procurar o modo de reinventá-la, de arrancá-la ao imobilismo da rotina e da descrença, bem ajudadas, uma e outra, pelos poderes económico e político a quem convém manter a decorativa fachada do edifício democrático, mas que nos têm impedido de verificar se por trás dela algo subsiste ainda.
 
Em minha opinião, o que resta é, quase sempre, usado muito mais para armar de eficácia as mentiras que para defender as verdades. O que chamamos democracia começa a assemelhar-se tristemente ao pano solene que cobre a urna onde já está apodrecendo o cadáver. Reinventemos, pois, a democracia antes que seja demasiado tarde. E que a universidade nos ajude. Quererá ela? Poderá ela?
 
 
 
 
José Saramago - Publicado no Caderno de Saramago
Fotografia de Mário Castello - Congresso - Fotografia (Brasília DF Brasil), 2005
publicado por ardotempo às 20:38 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 24.06.09

Indignado sempre...contra a tortura, contra os torturadores

 
 
Sabato
 
José Saramago
 
Quase cem anos, noventa e oito exactos, são os que hoje está cumprindo Ernesto Sabato, cujo nome escutei pela primeira vez no velho Café Chiado, em Lisboa, aí pelos remotos anos 50. Pronunciou-o um amigo que inclinava os seus gostos literários para as então mal conhecidas literaturas sul-americanas, ao passo que nós, os outros membros da tertúlia que ali nos reunia ao fim da tarde, pendíamos, quase todos, para a doce e então ainda imortal França, salvo algum excêntrico que se gabava de conhecer de cor e salteado o que nos Estados Unidos se escrevia. A esse amigo, que acabei por perder no caminho, devo a incipiente curiosidade que me levou a nomes como Julio Cortázar, Borges, Bioy Casares, Astúrias, Rómulo Gallegos, Carlos Fuentes, e tantos outros que se me atropelam na memória quando os convoco. E havia Sabato. Por um qualquer fenómeno acústico associei as três rápidas sílabas a um súbito golpe de punhal. Conhecido como é o significado desta palavra italiana, a associação haverá de parecer o que há de mais incongruente, mas as verdades são para se dizerem, e esta é uma delas.
 
El túnel tinha sido publicado em 1948, mas eu não o havia lido. Nessa altura, com os meus inocentes 26 anos, ainda seria muito o pão e o sal que teria de comer antes de descobrir o caminho marítimo que haveria de conduzir-me a Buenos Aires… Foi aquele meu inesquecível companheiro de mesa de café quem me proporcionou a leitura do romance. Logo às primeiras páginas percebi até que ponto havia saído exacta a ousada associação de ideias que me havia levado de um apelido a um punhal.
 
As leituras seguintes que fiz de Sabato, quer dos romances, quer dos ensaios, só viriam confirmar aquela minha intuição inicial, a de que me encontrava perante um autor trágico e eminentemente lúcido que, além de ser capaz de abrir caminho pelos corredores labirínticos do espírito dos leitores, não lhes consentia, nem por um só instante, que desviassem os olhos dos mais obscuros recantos do ser. Leitura por isso difícil? Talvez, mas leitura fascinante entre todas. A amálgama de surrealismo, existencialismo e psicanálise que constitui o suporte “doutrinário” das ficções do autor de Sobre héroes y tumbas, não nos deveria fazer esquecer que este auto-proclamado “inimigo” da razão que se chama Ernesto Sabato é à falível e humilde razão humana que acabará por apelar quando os seus próprios olhos se enfrentarem a esse outro apocalipse que foi a sangrenta repressão sofrida pelo povo argentino. Romances que se reportam a épocas historicamente determinadas e a lugares objectivamente definidos, El túnel, Sobre héroes y tumbas, Abbadón el exterminador não fazem ouvir somente o grito de uma consciência afligida pela sua própria impotência e a visão profética de uma sibila a quem o futuro aterra, também nos avisam de que, tal como Goya (mais conhecido como pintor que como filósofo…) já havia deixado constância na famosa gravura dos Caprichos: foi sempre do sono da razão que nasceu, cresceu e prosperou a inumana genealogia dos monstros.
 
Querido Ernesto, é entre o temor e o tremor que decorrem as nossas vidas, e a tua não podia ser excepção. Mas talvez não se encontre nos dias de hoje uma situação tão dramática como a tua, a de alguém que, sendo tão humano, se nega a absolver a sua própria espécie, alguém que a si próprio não perdoará nunca a sua condição de homem. Nem todos te agradecerão a violência. Eu peço-te que não a desarmes. Cem anos, quase. Estou certo de que ao século que acabou se virá a chamar também o século de Sabato, como o de Kafka ou o de Proust.
 
 
© José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago

 "El sueño de la razón produce monstruos" - Francisco Goya y Lucientes (Los Caprichos) 1799

publicado por ardotempo às 02:14 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 11.06.09

Retratos Notáveis - 32

Infinito

 

 

 

Fotografia: Retrato de José Saramago (Lanzarote, Ilhas Canárias - Espanha) - 2009

Fotógrafo: Daniel Mordzinski

 

publicado por ardotempo às 18:11 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 29.05.09

A greve cândida (e impossível)

Armas
 
José Saramago
 
O negócio das armas, sujeito à legalidade mais ou menos flexível de cada país ou de simples e descarado contrabando, não está em crise. Quer dizer, a tão falada e sofrida crise que vem destroçando física e moralmente a população do planeta não toca a todos. Por toda a parte, aqui, além, os sem trabalho contam-se por milhões, todos os dias milhares de empresas declaram-se em falência e fecham as portas, mas não consta que um único operário de uma fábrica de armamento tenha sido despedido.
 
Trabalhar numa fábrica de armas é um seguro de vida. Já sabemos que os exércitos precisam de armar-se, substituir por armas novas e mais mortíferas (disso se trata) os antigos arsenais que fizeram a sua época mas já não satisfazem as necessidades da vida moderna. Parece portanto evidente que os governos dos países exportadores deveriam controlar severamente a produção e a comercialização das armas que fabricam. Simplesmente, uns não o fazem e outros olham para o lado. Falo de governos porque é difícil crer que, a exemplo das instalações industriais mais ou menos ocultas que abastecem o narcotráfico, existam no mundo fábricas clandestinas de armamento.
 
Logo, não há uma pistola que, por assim dizer, não vá tacitamente certificada pelo respectivo, ainda que invisível, selo oficial. Quando num continente como o sul-americano, por exemplo, se calcula que há mais de 80 milhões de armas, é impossível não pensar na cumplicidade mal disfarçada dos governos, tanto dos exportadores como dos importadores. Que a culpa, pelo menos em parte, é do contrabando em grande escala, diz-se, esquecendo que para fazer contrabando de algo é condição sine qua non que esse algo exista. O nada não é contrabandeável.
 
Toda a vida tenho estado à espera de ver uma greve de braços caídos numa fábrica de armamento, inutilmente esperei, porque tal prodígio nunca aconteceu nem acontecerá. E era essa a minha pobre e única esperança de que a humanidade ainda fosse capaz de mudar de caminho, de rumo, de destino.
 
 
 
 
José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago
publicado por ardotempo às 23:11 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 25.05.09

Universidade Senior - Uma idéia de gênio

Porquê no Brasil não poderia existir uma?
 
Mayores
 
José Saramago
 
Em português diríamos pessoas de idade. Num caso e no outro trata-se de eufemismos para fugir à aborrecida palavra “velhos”, que podendo e devendo ser tomada como uma afirmação vital (“Vivi e estou vivo”), é, com demasiada frequência, lançada à cara do idoso como uma espécie de desqualificação moral.
 
E, contudo, pelo menos no meu país, usava-se (usa-se ainda?) uma resposta definitiva, fulminante, dessas que tapam a boca ao interlocutor: “Velhos são os trapos”, respondiam os velhos do meu tempo a quem se atrevesse a chamar-lhes velhos. E continuavam com o seu trabalho, sem dar mais atenção às vozes do mundo. Velhos seriam, claro, mas não inúteis, não incapazes de meter a sovela no lugar certo do sapato ou de guiar a relha do arado com que andasse lavrando. A vida tinha uma coisa má: era dura. E tinha uma coisa boa: era simples.
 
Hoje continua a ser dura, mas perdeu a simplicidade. Talvez tenha sido esta percepção, formulada assim ou doutra maneira, que fez nascer a ideia de criar uma universidade para pessoas de idade em Castilla-La Mancha, essa que precisamente se chama Universidad para Mayores e de que tenho a honra de ser patrono. Pessoas a quem a idade obrigou a deixar o seu trabalho, que fazer com elas? Outras em quem a idade fez nascer curiosidades que até então não se haviam experimentado, que fazer com elas?
 
A resposta não tardou: criar uma universidade para as gerações de cabelos brancos e rugas na cara., um lugar onde pudessem estudar e descobrir mundos do conhecimento ocultos ou mal sabidos. Cada uma dessas pessoas, cada uma dessas mulheres, cada um desses homens, pode dizer quando abre um livro ou escreve a resposta a um questionário: “Não me rendi”. Nesse momento uma aura de juventude rediviva perpassa-lhes no rosto, em espírito é como se estivessem sentados ao lado dos netos, ou foram eles que se vieram sentar ao lado dos seus maiores. O conhecimento une cada um consigo mesmo e todos com todos.
 
 
Qualquer idade é boa para aprender. Muito do que sei aprendi-o já na idade madura e hoje, com 86 anos, continuo a aprender com o mesmo apetite. Não frequento a Universidade para Mayores Castilla-La Mancha (lá irei um dia), mas partilho a alegria (diria mesmo a felicidade) dos que lá estudam, esses a quem me dirijo com estas palavras simples: Queridos Colegas.
 

José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago 

Fotografia de Mário Castelo

tags: ,
publicado por ardotempo às 04:15 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 19.05.09

Poetas... fazem falta

Poetas e poesia
 
José Saramago
 
Não será com todos nem será sempre, mas às vezes acontece o que estamos vendo nestes dias: que, por ter morrido um poeta aparecem, em todo o mundo, leitores de poesia que se declaram devotos de Mario Benedetti e que precisam de um poema que expresse o seu desconsolo e talvez também para recordar um passado em que a poesia teve lugar permanente, quando hoje é a economia que nos impede de dormir.
 
Assim, vemos que de repente se estabelece um tráfico de poesia que deve ter deixado perplexos os medidores oficiais, porque de um continente a outro saltam mensagens estranhas, de factura original, linha curtas que parecem dizer mais do que à primeira vista se crê. Os decifradores de códigos não têm mãos a medir, há demasiados enigmas para decifrar, demasiados abraços e demasiada música acompanhando sentimentos que são demasiados: o mundo não poderia suportar muitos dias desta intensidade emocional, mas tão-pouco, sem a poesia que hoje se expressa, seríamos inteiramente humanos. E isto, em poucas linhas, é o que está sucedendo: morreu Mario Benedetti em Montevideo e o planeta tornou-se pequeno para albergar a emoção das pessoas. De súbito os livros abriram-se e começaram a expandir-se em versos, versos de despedida, versos de militância, versos de amor, as constantes da vida de Benedetti, junto à sua pátria, aos seus amigos, ao futebol e alguns boliches de trago largo e noites mais largas ainda.
 
Morreu Benedetti, esse poeta que soube fazer-nos viver os nossos momentos mais íntimos e as nossas raivas menos ocultas. Se com os seus poemas saímos à rua – lado a lado somos muito mais que dois –, se lendo “Geografias”, por exemplo, aprendemos a amar um país pequeno e um continente grande, agora, segundo as cartas que chegam à Fundação José Saramago, recuperaram-se momentos de amor que deram sentido a tempos passados, e quem sabe se presentes. Isso também o devemos a Benedetti, ao poeta que ao morrer fez de nós herdeiros da bagagem de uma vida fora do comum.
 
Tania y Mario: la libertad*
 
No es verdad que el mundo está todo descubierto. El mundo no es sólo la geografía con sus valles y montañas, sus ríos y sus lagos, sus planicies, los grandes mares, las ciudades y las calles, los desiertos que ven pasar el tiempo, el tiempo que nos ve pasar a todos.
 
El mundo es también las voces humanas, ese milagro de la palabra que se repite todos los días, como un corona de sonidos viajando en el espacio. Muchas de esas voces cantan, algunas cantan verdaderamente. La primera vez que oí cantar a Tania Libertad tuve la revelación de las alturas de la emoción a que puede llevarnos una voz desnuda, sola delante del mundo, sin ningún instrumento que la acompañara. Tania cantaba a capella “La paloma” de Rafael Alberti, y cada nota acariciaba una cuerda de mi sensibilidad hasta el deslumbramiento.
 
Ahora Tania Libertad canta a Mario Benedetti, ese gran poeta a quien tan bien le sentaría el nombre de Mario Libertad
 
Son dos voces humanas, profundamente humanas, que la música de la poesía y la poesía de la música han reunido. De él la palabras, de ella la voz.
 
Oyéndolas estamos más cerca del mundo, más cerca de la libertad, más cerca de nosotros mismos.
 
 
 
 
 
Publicado no blog O Caderno de Saramago
publicado por ardotempo às 23:32 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 18.05.09

A tristeza do engraçado

Carlitos
 
José Saramago
 
Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, “The Pilgrim”, que, retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Charlot nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa.
 
Os meus ídolos nessa época eram dois cómicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada. Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cómico, mas um trágico.
 
Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas clássicas do actor trágico. E há mais.
 
 
O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula. Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrisse assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo.
 
O caso é que, uma vez que foi decidido que Chaplin é um actor cómico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.
 
José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago
publicado por ardotempo às 04:43 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 05.05.09

Corrente de poesia

Benedetti
 
José Saramago
 
O susto foi grande, Mario Benedetti estava no hospital e o seu estado era considerado grave. Ángel González foi-se-nos quase sem aviso, numa fria madrugada de Janeiro. Que agora fosse a vida de Benedetti a estar em perigo lá no seu distante Montevidéu era algo que a preocupação aqui despertada não se resignava a aceitar. E, contudo, nada podíamos fazer.
 
Enviar telegramas, à antiga usança? Mandar recados por algum amigo? Rezar uma oração pelo seu pronto restabelecimento, se com isso não fôssemos provocar a ira laica de Mario?
 
Pilar encontrou a solução. Que era em verdade Mario Benedetti, que havia sido ele em toda a sua  vida, muito mais que as múltiplas profissões exercidas? Poeta. Então arranquemos os seus poemas à imobilidade da página e façamos com eles uma nuvem de palavras, de sons, de música, que atravesse o mar atlântico (as palavras, os sons, a música de Benedetti) e se detenha, como uma orquestra protectora, diante da janela que está proibido abrir, embalando-lhe o sono e fazendo-o sorrir ao despertar.
 
Aos médicos alguma coisa se ficou a dever, reconheçamo-lo, mas nós, todos os que ao redor do mundo demos a nossa contribuição pessoal, juntando poemas de Benedetti aos poemas de Benedetti, tivemos também a nossa parte no trabalho. Mario Benedetti está melhor. Leiamos então um poema dele.
 
Hasta Mañana
 
Voy a cerrar los ojos en voz baja voy a meterme a tientas en el sueño.
 
En este instante el odio no trabaja
para la muerte, que es su pobre dueño la voluntad suspende su 
latido y yo me siento lejos, tan pequeño que a Dios invoco,
pero no le pido nada, con tal de compartir apenas este universo
que hemos conseguido por las malas y a veces por las buenas.

¿Por qué el mundo soñado no es el mismo que este mundo de muerte 
a manos llenas?

Mi pesadilla es siempre el optimismo:
me duermo débil, sueño que soy fuerte, pero el futuro aguarda.
Es un abismo.

No me lo digan cuando me despierte.
 
 
Mario Benedetti
 
 
Publicado no Blog O Caderno de Saramago
 

 

 

publicado por ardotempo às 12:34 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Sexta-feira, 24.04.09

Um poema, por José Saramago

Ergo uma rosa

 

 

 

 

Veja o vídeo em que José Saramago diz seu poema Ergo uma rosa, conjuntamente à interpretação em dança de Maria Pagés - desde Lanzarote, Espanha - 2009

 

José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago

publicado por ardotempo às 22:46 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 23.04.09

Memória fundida nas memórias

Da impossibilidade deste retrato
 
José Saramago
 
Este texto foi prólogo do catálogo de uma exposição de retratos de Fernando Pessoa na Fundação Calouste Gulbenkian no princípio dos anos 80, creio que em 85. Por me parecer que não viria fazer má figura neste blogue, aqui o trago.
 
Que retrato de si mesmo pintaria Fernando Pessoa se, em vez de poeta, tivesse sido pintor, e de retratos? Colocado de frente para o espelho, ou de meio perfil, obliquando o olhar a três quartos, como quem, de si mesmo escondido, se espreita, que rosto escolheria e por quanto tempo? O seu, diferente segundo as idades, assemelhando a cada uma das fotografias que dele conhecemos, ou também o das imagens não fixadas, sucessivas entre o nascimento e a morte, todas as tardes, noites e manhãs, começando no Largo de S. Carlos e acabando no Hospital de S. Luís? O de um Álvaro de Campos, engenheiro naval formado em Glasgow? O de Alberto Caeiro, sem profissão nem educação, morto de tuberculose na flor da idade?
 
 
 
 
O de Ricardo Reis, médico expatriado de quem se perdeu o rasto, apesar de algumas notícias recentes obviamente apócrifas? O de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na baixa lisboeta? Ou um outro qualquer, o Guedes, o Mora, aqueles tantas vezes invocados, inúmeros, certos, prováveis e possíveis? Representar-se-ia de chapéu na cabeça? De perna traçada? De cigarro apertado entre os dedos? De óculos? De gabardina vestida ou sobre os ombros? Usaria um disfarce, por exemplo, apagando o bigode e descobrindo a pele subjacente, de súbito nua, de súbito fria? Cercar-se-ia de símbolos, de cifras da cabala, de signos horoscópicos, de gaivotas no Tejo, de cais de pedra, de corvos traduzidos do inglês, de cavalos azuis e jockeys amarelos, de premonitórios túmulos? Ou, ao contrário destas eloquências, ficaria sentado diante do cavalete, da tela branca, incapaz de levantar um braço para atacá-la ou dela se defender, à espera de um outro pintor que ali fosse tentar o impossível retrato? De quem? De qual?
 
 
De uma pessoa que se chamou Fernando Pessoa começa a ter justificação o que de Camões já se sabe. Dez mil figurações, desenhadas, pintadas, modeladas, esculpidas, acabaram por tornar invisível Luís Vaz, o que dele ainda permanece é o que sobra: uma pálpebra caída, uma barba, uma coroa de louros. É fácil de ver que Fernando Pessoa também vai a caminho da invisibilidade, e, tendo em conta a ocorrente multiplicação das suas imagens, provocada por apetites sobreexcitados de representação e facilitadas por um domínio generalizado das técnicas, o homem dos heterónimos, já voluntariamente confundido nas criaturas que produziu, entrará no negro absoluto em muito menos tempo que o outro de uma cara só, mas de vozes também não poucas.
 
Acaso será esse, quem sabe, o perfeito destino dos poetas, perderem a substância de um contorno, de um olhar gasto, de um vinco na pele, e dissolverem-se no espaço, no tempo, sumidos entre as linhas do que conseguiram escrever, se do rosto sem feições nem limites ainda alguma coisa vem intrometer-se, está garantido o dia em que mesmo esse pouco será definitivamente lançado fora. O poeta não será mais que memória fundida nas memórias, para que um adolescente possa dizer-nos que tem em si todos os sonhos do mundo, como se ter sonhos e declará-lo fosse primeira invenção sua. Há razões para pensar que a língua é, toda ela, obra de poesia.
 

 
 
Entretanto, o pintor vai pintando o retrato de Fernando Pessoa. Está no princípio, não se sabe ainda que rosto escolheu, o que se pode ver é uma levíssima pincelada de verde, se calhar vai sair daqui um cão dessa cor para pôr em conjunção com um jockey amarelo e um cavalo azul, salvo se o verde for apenas o resultado físico e químico de estar o jockey em cima do cavalo, como é sua profissão e gosto. Mas a grande dúvida do pintor não tem que ver com as cores que há-de empregar, essa dificuldade resolveram-na os impressionistas de uma vez para sempre, só os homens antigos, os de antes, não sabiam que em cada cor as cores estão todas: a grande dúvida do pintor é se há-de ter uma atitude reverente ou irreverente, se pintará esta virgem como S. Lucas pintou a outra, de joelhos, ou se tratará este homem como um triste coitado que realmente foi ridículo a todas as criadas de hotel e escreveu cartas de amor ridículas, e se, assim autorizado pelo próprio, poderá rir-se dele pintando-o.
 
 A pincelada verde, por enquanto, é somente a perna do jockey amarelo posta do lado de cá do cavalo azul. Enquanto o maestro não sacudir a batuta, a música não romperá lânguida e triste, nem o homem da loja começará a sorrir entre as memórias da infância do pintor. Há uma espécie de ambiguidade inocente nesta perna verde, capaz de se transformar em verde cão. O pintor deixa-se conduzir pela associação de ideias, para ele, perna e cão tornaram-se em meros heterónimos de verde: coisas bem mais inacreditáveis do que esta têm sido possíveis, não há que admirar. Ninguém sabe o que se passa na cabeça do pintor enquanto pinta. O retrato está feito, vai juntar-se às dez mil representações que o precederam.
 
 
É uma genuflexão devota, é uma risada de troça, tanto faz, cada uma destas cores, cada um destes traços, sobrepondo-se uns aos outros, aproximam o momento da invisibilidade, aquele negro absoluto que não reflectirá nenhuma luz, sequer a luz fulgurante do sol, que faria então à breve cintilação de um olhar, em frente a apagar-se tão cedo. Entre a reverência e a irreverência, num ponto indeterminável, estará, talvez, o homem que Fernando Pessoa foi. Talvez, porque também isso não é certo. Albert Camus não pensou duas vezes quando escreveu: “Se alguém quiser que o reconheçam, basta que diga quem é”. No geral dos casos, o mais longe a que chega quem a tal aventura ouse propor-se é dizer que nome lhe puseram no registo civil.
 
Fernando Pessoa, provavelmente, nem tanto. Já não lhe bastava ser ao mesmo tempo Caeiro e Reis, cumulativamente Campos e Soares. Agora que já não é poeta, mas pintor, e vai fazer o seu auto-retrato, que rosto pintará, com que nome assinará o quadro, no canto esquerdo dele, ou direito, porque toda a pintura é espelho, de quê, de quem, para quê? O braço levanta-se, enfim, a mão segura uma pequena haste de madeira, de longe diríamos que é um pincel, mas há motivos para suspeitar: nele não se transporta uma cor verde, ou azul, ou amarela, nenhuma cor se vê, nenhuma tinta. Este é o negro absoluto com que Fernando Pessoa, por suas próprias mãos, se tornará invisível.
 
 
Mas os pintores vão continuar pintando.
 
 
 
José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago
 
Geri Garcia - Série Memória do Padúl, 1935 - Desenhos em grafite, tinta china e aguadas sobre papel (Granada/ Padúl - Espanha), 1953
 
publicado por ardotempo às 01:22 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 20.04.09

O mercado da imagem

Exibicionismos
 
José Saramago
 
Palavras como discrição, reserva, recato, pudor ou modéstia ainda se encontram em qualquer dicionário. Temo, porém, que algumas delas venham a ter, mais cedo ou mais tarde, o triste destino da palavra esgártulo, por exemplo, varrida, como outras, do dicionário da Academia por uma manifesta e pertinaz falta de uso que havia feito dela um peso morto nas eruditas colunas. Eu próprio não me lembro de a ter dito alguma vez e muito menos tê-la escrito. Já a palavra reserva, embora vá a caminho de perder a acepção que me levou a incluí-la na lista acima, tem garantida uma vida longa por aquilo da reserva de bilhete ou de lugar sem os quais serviços fundamentais como os transportes aéreos simplesmente não funcionariam. E isto sem esquecer outra reserva, a mental, inventada pelos jesuítas como explicação última de terem dito primeiro uma coisa e feito depois a contrária, operação, aliás, que vingou e prosperou ao ponto de acabar por se difundir na sociedade humana como condição mesma de sobrevivência.
 
Não é minha intenção moralizar, além de que se o fizesse perderia o meu tempo e suspeito que alguns leitores. Bem sabemos que a carne é fraca e que ainda o é mais o espírito por muito que se costume gabar das suas supostas fortalezas, que o ser humano é o território por excelência de todas as tentações amáveis possíveis, tanto as naturais como as que veio inventando em séculos e milénios de práticas reiteradas. Bom proveito lhe faça. Que atire a primeira pedra quem nunca se deixou tentar. A coisa começou por desapertar-se a roupa, por usá-la mais leve e reduzida, também mais transparente, pondo à mostra um número cada vez maior de centímetros quadrados de pele até se chegar ao nudismo integral cultivado com franqueza absoluta em certas assinaladas praias. Nada de grave, porém. No fundo, há em tudo isto, como já escrevi noutro contexto, uma certa inocência. Adão e Eva também andavam nus e, contra o que a Bíblia diz, sabiam-no perfeitamente.
 
Ao pôr em funcionamento o vigente espectáculo universal que concentra e ao mesmo tempo dispersa as atenções do mundo, não parece que hájamos previsto que iríamos dar nascimento a uma sociedade de exibicionistas. A divisão entre actores e espectadores acabou, o espectador vai para ver e ouvir, mas também para ser visto e ouvido. O poder da televisão, por exemplo, alimenta-se em grande parte desta simbiose malsã, mormente nos chamados reality shows, onde o convidado, para isso pago e às vezes regiamente, vai pôr a descoberto as misérias da sua vida, as traições e as vilezas, as canalhices próprias e alheias, e, se necessário fôr ao espectáculo, as da família e dos seus próximos. Sem discrição nem reserva, sem recato nem pudor, sem modéstia. Não faltará quem diga que ainda bem que é assim, que devemos abandonar aquele ferro-velho vocabular, portas abertas ainda que a casa cheire mal, alguns, não duvidemos, irão mesmo ao extremo de afirmar que se trata de um benéfica efeito da democracia. Dizer tudo, com a condição de que o essencial fique escondido. Sem vergonha.
 
 
 
 
José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago
publicado por ardotempo às 21:55 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 15.04.09

Porquê a nós?

L’Aquila
 
José Saramago
 
Leio numa reportagem sobre o terramoto nos Abbruzzos que os sobreviventes, desesperados, impotentes, se perguntam por que foi que o destino os escolheu a eles e à sua terra para campo da tremenda catástrofe. É uma pergunta que nunca terá resposta, mas que invariavelmente fazemos quando a infelicidade nos veio bater à porta, como se em qualquer parte do universo existisse um responsável a quem pedir contas pelos males que nos sucedam. 
 
Muitas vezes não há tempo para mais que ver a morte diante, ou nem sequer para isso, quando uma bomba rebenta a dez passos ou o caiuco se desfaz em pedaços com a costa ali mesmo, ao alcance, quando a inundação arrasta casas e pontes como se de obstáculos insignificantes se tratasse, quando o alude ou o deslizamento de terras sepultam povoações inteiras. Perguntamos porquê a nós, porquê a mim, e não há resposta. 
 
Jacques Brel também tinha perguntado: “Pourquoi moi? Pourquoi maintenant?” - e morreu. É o destino, dizemos, e nele não está escrita a palavra ressurreição. É bom sabê-lo porque, em verdade, o mundo não está para ressurreições. Já basta o que basta.
 
 

 
 
© José Saramago - Publicado no Blog O Caderno de Saramago
 
tags:
publicado por ardotempo às 00:47 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 10.04.09

Barroco

Ler

 

José Saramago

 

Isto a que chamam o meu estilo assenta na grande admiração e respeito que tenho pela língua que foi falada em Portugal nos séculos XVI e XVII.

 

Abrimos os Sermões do Padre António Vieira e verificamos que há em tudo o que escreveu uma língua cheia de sabor e de ritmo, como se isso não fosse exterior à língua, mas lhe fosse intrínseco. Nós não sabemos ao certo como se falava na época, mas sabemos como se escrevia. A língua então era um fluxo ininterrupto.

 

Admitindo que possamos compará-la a um rio, sentimos que é como uma grande massa de água que desliza com peso, com brilho, com ritmo, mesmo que, por vezes, o seu curso seja interrompido por cataratas.

 

Chegam dias de férias, uma boa ocasião para entrar nesta água, nesta língua escrita pelo Padre Vieira. Não aconselho nada a ninguém, mas digo que vou mergulhar na melhor prosa e vou desaparecer estes dias. Alguém quer acompanhar-me?

 

 

José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago

publicado por ardotempo às 19:47 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 07.04.09

Catedrais

Outra leitura para a crise
 
José Saramago
 
A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
 
 
E agora, que temos? A crise.
 
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?
 
© José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago

 

publicado por ardotempo às 03:39 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Quarta-feira, 25.03.09

Antídoto

Lá vem lobo!
 
José Saramago
 
A história, em geral contada pelo avô da família, era infalível nos serões da província, não como simples divertimento dos inocentes infantes, mas como peça fundamental de um bom sistema educativo, precursora, de alguma forma, do juramento com que as testemunhas se comprometem, ou comprometiam, a dizer a verdade, toda a verdade e só a verdade. A dúvida que aí deixo resulta apenas do facto de não ser frequentador de tribunais, a minha curiosidade sobre as diversas manifestações da natureza humana não me incitou nunca a meter o nariz na vida alheia, mesmo tratando-se do maior criminoso do século. Feitios.
 
Ora, o que na história do avô se contava era que um pequeno pastor de ovelhas, talvez para entreter as suas solitárias horas no monte, decidiu um dia gritar que vinha o lobo, que vinha o lobo, em modo tal que a gente da aldeia, armada de chuços, cachaporras e algum bacamarte da penúltima guerra, saiu em tromba para defender as ovelhas e, de caminho, o zagal que as guardava. Afinal, não havia lobo, tinha fugido com os gritos, disse o moço.
 
Não era verdade, mas, como mentira, parecia bastante convincente. Satisfeito com o resultado da mistificação, o nosso pastor resolveu repetir a graça e, uma vez mais, a aldeia acudiu em peso. Nada, de lobo nem cheiro. À terceira vez, porém, ninguém moveu um pé da sua casa, estava visto que o zagal mentia com quantos dentes tinha na boca, que grite, já se cansará.
 
O lobo levou as ovelhas que quis, enquanto o moço, empoleirado numa árvore, assistia impotente ao desastre. Embora o tema de hoje não seja esse, vem a pêlo recordar as vezes que muitos de nós também gritámos que vinha o lobo. Foram muitos mais os que negavam que o lobo viesse, mas afinal veio e trazia uma palavra na coleira: crise.
 
Vamos a ver o que se passará depois da recente notícia de que são muitos, muitíssimos, os portugueses que decidiram aprender espanhol e tomam muito a sério a decisão. Temo, porém, que os patrioteiros do costume comecem a gritar por aí que vem o lobo. De acordo que alguma coisa vem, e essa é necessidade de aproximação dos povos da península, este de cá e os outros de lá. A História, quando quer, empurra muito.
 
 
José Saramago - Publicado em O Caderno de Saramago

 

tags:
publicado por ardotempo às 00:51 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 06.03.09

Olhe-Veja-Repare

Reparar outra vez

 
José Saramago
 
Numa conversa, ontem, com Luis Vázquez, amigo dos mais chegados e curador dos meus achaques, falámos do filme de Fernando Meirelles, agora estreado em Madrid, mas a que não pudemos assistir, Pilar e eu, como tencionávamos, porque um súbito resfriamento me obrigou a recolher à cama, ou a guardar o leito, como elegantemente se dizia em tempos não muito distantes.
 
A conversa tinha começado por girar à volta das reacções do público durante a exibição e no final dela, altamente positivas segundo Luis e outras testemunhas fidedignas e merecedoras de todo o crédito que nos fizeram chegar as suas impressões.
 
 
Passámos depois, naturalmente, a falar do livro e Luis pediu-me que examinássemos a epígrafe que o abre (“Se podes olhar, vê, se podes ver, repara”) porque, em sua opinião, a acção de ver é prevalecente em relação à acção de olhar e, portanto, a referência a esta poderia ser omitida sem prejuízo do sentido da frase. Não pude deixar de lhe dar razão, mas entendi que deveria haver outras razões a considerar, por exemplo, o facto de o processo da visão passar por três tempos, consequentes mas de alguma maneira autónomos, que se podem traduzir assim: pode-se olhar e não ver, pode-se ver e não reparar, consoante o grau de atenção que pusermos em cada uma destas acções. É conhecida a reacção da pessoa que, tendo consultado o seu relógio de pulso, torna a consultá-lo se, nesse mesmo momento, alguém lhe perguntar as horas.
 
Foi então que se fez luz na minha cabeça sobre a origem primeira da famosa epígrafe.
 
Quando eu era pequeno, a palavra reparar, supondo que já a conhecesse, não seria para mim um objecto de primeira necessidade até que um dia um tio meu (creio ter sido aquele Francisco Dinis de quem falei em As pequenas memórias) me chamou a atenção para uma certa maneira de olhar dos touros que quase sempre, comprovei-o depois, é acompanhada por uma certa maneira de erguer a cabeça. Meu tio dizia: “Ele olhou para ti, quando olhou para ti, viu-te, e agora é diferente, é outra coisa, está a reparar”.
 
Foi isto o que contei ao Luis, que imediatamente me deu razão, não tanto, suponho, porque eu o tivesse convencido, mas porque a memória o fez recordar uma situação semelhante.
 
Também um touro que o fitava, também aquele jeito de cabeça, também aquele olhar que não era simplesmente ver, mas reparar. Estávamos finalmente de acordo.
 
 
© José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago 

 

tags: ,
publicado por ardotempo às 12:55 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 24.02.09

Carta, de Saramago

Diz-se que o Carnaval é uma festa destinada a desaparecer. O que se vê , na realidade, é que o povo, sempre que se regojiza, faz carnaval. De modo que o carnavalesco, que é o especificamente popular de toda a festa, não mostra indícios de que vá se acabar. E desde o ponto de vista mais aristocrático, tampouco o Carnaval desaparece. Porque o essencial carnavalesco não é o de mascarar-se, e sim o de abolir-se a face. E não há ninguém tão bem resolvido com a sua própria face que não deseje estrear uma outra, num certo momento.” - Antonio Machado

 
Carta a Antonio Machado
 
José Saramago
 
Antonio Machado morreu hoje há setenta anos. No cemitério de Collioure, onde os seus restos repousam, um marco de correio recebe todos os dias cartas que lhe são escritas por pessoas dotadas de um infatigável amor que se negam a aceitar que o poeta de “Campos de Castilla” esteja morto. Têm razão, poucos estão tão vivos. Com o texto que se segue, escrito por ocasião do 50º aniversário da morte de Machado, e para o Congresso Internacional que teve lugar em Turim, organizado por Pablo Luis Ávila e Giancalo Depretis, tomo o meu modesto lugar na fila.
 
Uma carta mais para Antonio Machado.
 
Lembro-me, tão nitidamente como se fosse hoje, de um homem que se chamou Antonio Machado. Nesse tempo eu tinha catorze anos e ia à escola para aprender um ofício que de pouco me viria a servir. Havia guerra em Espanha. Aos combatentes de um lado deram-lhes o nome de vermelhos, ao passo que os do outro lado, pelas bondades que deles ouvia contar, deviam ter uma cor assim como do céu quando faz bom tempo.
 
O ditador do meu país gostava tanto desse exército azul que deu ordem aos jornais para publicarem as notícias de modo que fizessem crer aos ingénuos que os combates sempre terminavam com vitórias dos seus amigos. Eu tinha um mapa onde espetava bandeirinhas feitas com alfinetes e papel de seda. Era a linha da frente. Este facto prova que conhecia mesmo Antonio Machado, embora sem o ter lido, o que é desculpável se levarmos em conta a minha pouca idade. Um dia, ao perceber que andava a ser ludibriado pelos oficiais do exército português que tinham a seu cargo a censura à imprensa, atirei fora o mapa e as bandeiras. Deixei-me levar por uma atitude irreflectida, de impaciência juvenil, que Antonio Machado não merecia e de que hoje me arrependo.
 
Os anos foram passando. Em certa altura, não me lembro quando nem como, descobri que o tal homem era poeta, e tão feliz me senti que, sem nenhuns propósitos de vanglória futura, me pus a ler tudo quanto escreveu. Por essa mesma ocasião, soube que já tinha morrido, e, naturalmente, fui colocar uma bandeira em Collioure. É tempo, se não me engano, de espetar essa bandeira no coração de Espanha. Os ossos podem ficar onde estão.
 
© José Saramago - Publicado no Blog O Caderno de Saramago
publicado por ardotempo às 23:36 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Sábado, 24.01.09

Conversa sobre elefantes

José Saramago fala sobre seu novo livro

 

Veja o vídeo

A viagem do elefante

 

 

 

Fotografia de Nick Brandt

publicado por ardotempo às 13:12 | Comentar | Adicionar
Sábado, 20.12.08

Saramago e os editores

Editores

 

José Saramago

 

Voltaire não tinha agente literário. Não o teve ele nem nenhum escritor do seu tempo e de largos tempos mais. O agente literário simplesmente não existia. O negócio, se assim lhe quisermos chamar, funcionava com dois únicos interlocutores, o autor e o editor. O autor tinha a obra, o editor os meios para publicá-la, nenhum intermediário entre um e outro. Era o tempo da inocência.
 
Não quer isto dizer que o agente literário tenha sido e continue a ser a serpente tentadora nascida para perverter as harmonias de um paraíso que, verdadeiramente, nunca existiu. Porém, directa ou indirectamente, o agente literário foi o ovo posto por uma indústria editorial que havia passado a preocupar-se muito mais com um descobrimento em cadeia de best-sellers que com a publicação e a divulgação de obras de mérito. Os escritores, gente em geral ingénua que facilmente se deixa iludir pelo agente literário do tipo chacal ou tubarão, correm atrás de promessas de vultosos adiantamentos e de promoções planetárias como se disso dependesse a sua vida. E não é assim. Um adiantamento é simplesmente um pagamento por conta, e, quanto a promoções, todos temos a obrigação de saber, por experiência, que as realidades ficam quase sempre aquém das expectativas. 
 
Estas considerações não são mais que uma modesta glosa da excelente conferência pronunciada por Basílio Baltasar em finais de Novembro no México, com o título de “A desejada morte do editor”, na sequência de uma entrevista dada a “El País” pelo famoso agente literário Andrew Willie. Famoso, digo, embora nem sempre pelas melhores razões. Não me atreveria, nem seria este o lugar adequado, a resumir as pertinentes análises de Basilio Baltasar a partir da estulta declaração do dito Willie de que “O editor é nada, nada” e que me recorda as palavras de Roland Barthes quando anunciou a morte do autor…
 
Afinal, o autor não morreu, e o ressurgimento do editor amante do seu trabalho está nas mãos do editor, se assim o quiser. E também nas mãos dos escritores a quem vivamente recomendo a leitura da conferência de Basilio Baltasar, que deverá ser publicada, e um seu consequente debate.

 

 

 

José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago 

publicado por ardotempo às 13:27 | Comentar | Adicionar
Sábado, 29.11.08

A página infinita da internet

O blog de José Saramago

 

Acabamos de sair da conferência de imprensa de São Paulo, a colectiva, como dizem aqui.
 
Surpreende-me que vários jornalistas me tenham perguntado pela minha condição de blogueiro quando tínhamos atrás o anúncio de uma exposição estupenda, a que é organizada pela Fundação César Manrique no Instituto Tomie Ohtake, com os máximos representantes e patrocinadores, e com a apresentação de um novo livro à vista. Mas a muitos jornalistas interessava-lhes a minha decisão de escrever na “página infinita da Internet”.
 
Será que, aqui, melhor dito, nos assemelhamos todos? É isto o mais parecido com o poder dos cidadãos? Somos mais companheiros quando escrevemos na Internet? Não tenho respostas, apenas constato as perguntas. E gosto de estar escrevendo aqui agora. Não sei se é mais democrático, sei que me sinto igual ao jovem de cabelo alvoroçado e óculos de aro, que com os seus vinte e poucos anos, me questionava. Seguramente para um blog.
 
José Saramago 

tags: ,
publicado por ardotempo às 13:36 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

O Elefante cruzou o Atlântico

Novo livro de José Saramago

 

A Viagem do Elefante

 

 

De viagem, e não mais do que isso, trata o novo livro do Nobel da Literatura português. A data de lançamento do livro não será alheia ao facto de se comemorarem dez anos sobre o mês em que foi anunciado o nome de Saramago para o prémio, que se lembrou no passado mês de Outubro com numerosas reedições e promoções sobre as antigas edições do autor, nem à estreia nas salas portuguesas da adaptação ao cinema por Fernando Meirelles do Ensaio Sobre a Cegueira que acontece depois de amanhã. Não será, certamente, o livro alheio a isto mas a história é. E, como comecei logo por dizer, a história não é mais do que uma viagem. Uma longa, não tão longa assim, viagem.
 
E aqui, logo após uma pequena introdução ao livro ou ao autor ou ao motivo que me moveu a ler determinada obra, tenho por costume dedicar umas quantas linhas à curta sinopse do enredo. O que neste caso me está a causar celeuma é que as linhas serão ainda mais curtas do que o habitual, e daí este introdutório anormal, porque história tão simples é difícil de encontrar. Talvez por isso o próprio autor se recuse a qualificar A Viagem do Elefante como um romance, preferindo a designação mais modesta, ou não, de conto.
 
Algures pelo século XVI, e aqui começam as dúvidas, é isto um livro de características históricas ou não, digo-vos eu que não, não é, os factos verdadeiros, ou assim descritos pelos documentos que aos dias de hoje, não encheriam nem uma página, nas palavras do próprio Saramago, dizia eu que algures no século XVI, D. João III de Portugal decide presentear o seu primo Arquiduque Maximiliano da Áustria com um elefante indiano que estava há dois anos em Lisboa, vindo de Goa. Feitas as necessárias diligências burocráticas, elefante e restante comitiva, não esquecendo, é claro, o seu tratador, o cornaca Subhro, partem para Figueira de Castelo Rodrigo onde será entregue à comitiva austríaca que aí o iria receber. Em terrenos espanhóis, até Vallaidolid, uma escolta luso-austríaca acompanha o paquiderme à presença real para este ser entregue ao novo dono que estava, até aquela data, em Espanha.
 
Os portugueses voltam à pátria com a sensação de dever cumprido, e Subhro, que agora se chamará Fritz a mando do Arquiduque, tal como Salomão se passará a chamar Solimão, mais os Arquiduques e restante séquito atravessam a Europa em direcção à Viena de destino. Isto é o enredo e, como se vê, não é mais do que uma viagem de um elefante, como tão bem está descrito no título do livro.
 
Incrível é como um livro tão curto, em comparação com outros do mesmo autor, pode ter tanto para ser dito acerca dele. Há quem diga que este é o melhor Saramago dos últimos dez anos, por exemplo aqui, mas pessoalmente sinto-me incapaz de corroborar ou descartar tal afirmação pelo simples facto de que não li todos os livros que o autor escreveu na última década, ou para ser mais preciso, não li nenhum, o que é uma afirmação perigosa da minha parte dado a declarada admiração que nutro pelo senhor de oitenta e cinco anos de idade, mas, enfim, não sendo uma parte maioritária da obra, cinco livros dão-me a força suficiente para arriscar tal admiração.
 
Agora, mesmo não podendo dizer que este é o melhor dos últimos anos, posso dizer que este é um Saramago ao nível do seu melhor (Ensaio Sobre a Cegueira, O Ano da Morte de Ricardo Reis), onde o autor apresenta uma visão singular, bem mais leve e despreocupada, até despretenciosa se quiserem, sobre a vida numa metáfora simples, a viagem de um elefante, do que fez nos últimos tempos. Talvez este seja o livro indicado para calar os críticos que o acusam de escrever sempre a mesma coisa, este é um livro bem diferente do dos cegos, mantendo, no entanto, o discurso tão característico que me apaixonou.
 
 
A metáfora é simples e clara: a vida é um elefante em viagem desde Goa, onde nasceu, até Viena, onde há-de morrer. Na vida temos um cornaca que olha por nós e nos ensina coisas, temos um ou mais senhores com poder sobre nós, e temos a oportunidade de fazer milagres, dependendo da nossa vontade. A viagem é carregada de pessoas que a atravessam. Esta é, para mim, a interpretação não literal mais literal que se pode fazer com o livro amarelo. Não me aventuro em mais do que isto porque nem o adiantado da hora a que escrevo, nem a minha falta de capacidade para penetrar nos muitos recônditos que uma viagem elefantina pode ter, me deixam fazer mais do que isto.
 
Tal como a vida, uns passam e nem se nota que passaram, como as várias populações pelo caminho, outros serviram um propósito, como a tropa austríaca, outros partem e deixam saudades, como o capitão luso. É algo enervante neste livro, com a excepção do próprio elefante e de Subhro, o leitor não consegue criar laços com mais ninguém. Começa o rei por estar debaixo do olho que lê, não tarda o secretário a tomar o seu lugar e a tornar-se alvo da curiosidade do leitor, e quando nos apercebemos, já o capitão português está a desaparecer da trama sem mais voltar, o que é uma pena, diga-se em abono do sentimento, porque este homem era um verdadeiro justo e bom personagem que esvaziou a viagem quando dela saiu.
 
A nível estritamente literário, vou-me limitar aquilo onde me sinto mais à vontade, como se estritamente literário fosse alguma espécie de campo delimitado por linhas concretas, este livro é o que se esperaria de um dos maiores mestres da língua lusa. Nunca vi Saramago como um romancista puro, para mim a sua voz foi sempre mais própria de um senhor que conta histórias à lareira, ao anoitecer, para quem o quiser ouvir, e isso é uma característica que o próprio autor assume quando dispensa o fictício narrador de uma história para se assumir ele próprio como uma espécie de autor-narrador. Saramago distancia-se da norma de que alguém conta através de alguém uma história, ou seja, dispensa o narrador intermediário nas questões da narrativa, para ele mesmo contar directamente ao leitor a história de Salomão. Verdade que esta característica já se vinha notando desde sempre nos seus livros, mas está especialmente clara neste último.
 
Há um sem número de episódios que marcam a viagem, a do livro, agora, como já disse, refiro-me apenas ao livro e não a elações que dele tirei. O homem perdido no nevoeiro será talvez a mais importante, o homem que se salva graças ao grito de Salomão que mais ninguém foi capaz de ouvir só para depois desaparecer com um “Plof” (extracto desse episódio aqui). Há o milagre que não o foi em Pádua, há o milagre que foi-o sem o ser ao chegar a Veneza. E há personagens marcantes para além do pobre cornaca e do seu elefante, refiro-me em especial e com carinho declarado pelo cavaleiro português que lia romances de cavalaria e que se queria tornar num cavaleiro de romance. Azar o dele, porque isto, afinal, é um conto.
 
Alongo-me já, alongar-me-ia muito mais se me sentisse capaz de o fazer, não em resistência, mas em arte para tal. Este livro será alvo de muita atenção em futuro próximo por muita gente, não tenho dúvidas, tal como não tenho dúvidas que quase todos poderão dizer muito mais e muito mais acertadamente do que aquilo que eu disse.
 
A Viagem do Elefante dificilmente chegará ao patamar de importância para os seus leitores que o Ensaio Sobre a Cegueira chegou, não por ser um livro menor mas por ser um livro assumidamente menos marcante (a violência física e psicológica no ensaio marca bem mais facilmente que um divertido conto sobre uma viagem internacional de um paquiderme) e mais conformado, se assim se pode dizer, com a vida e as suas inevitabilidades. No entanto, A Viagem do Elefante está para a literatura portuguesa como um Stradivarius está para os violinos. É um livro practicamente perfeito. E inesquecível.
 
Publicado no Blog Livros(s)emCritério, por Tim James Booth
 
 
O lançamento mundial do novo romance de José Saramago, A Viagem do Elefante, acontecerá hoje 28.novembro em São Paulo (20h30 locais), no SESC de Pinheiros/Teatro Paulo Autran, com organização da Companhia das Letras, editora brasileira de José Saramago. A actriz Sandra Corveloni lerá trechos do livro. Depois de assistir ao lançamento, o Prémio Nobel da Literatura de 1998 assistirá, amanhã 29.novembro, à inauguração da mostra "José Saramago - A Consistência dos Sonhos", no Instituto Tomie Ohtake, onde a exposição que pôde ser vista no Palácio da Ajuda há uns meses ficará até 15 de Fevereiro de 2009.
 
Publicado no Bibliotecário de Babel , por José Mário Silva
publicado por ardotempo às 13:20 | Comentar | Ler Comentários (4) | Adicionar
Sexta-feira, 14.11.08

Receita

 

Receita para matar um homem
 
José Saramago
 
Tomam-se umas dezenas de quilos de carne, ossos e sangue, segundo os padrões adequados. Dispõem-se harmoniosamente em cabeça, tronco e membros, recheiam-se de vísceras e de uma rede de veias e nervos, tendo o cuidado de evitar erros de fabrico que dêem pretexto ao aparecimento de fenómenos teratológicos. A cor da pele não tem importância nenhuma.
 
Ao produto deste trabalho melindroso dá-se o nome de homem. Serve-se quente ou frio, conforme a latitude, a estação do ano, a idade e o temperamento. Quando se pretende lançar protótipos no mercado, infundem-se-lhes algumas qualidades que os vão distinguir do comum: coragem, inteligência, sensibilidade, carácter, amor da justiça, bondade activa, respeito pelo próximo e pelo distante. Os produtos de segunda escolha terão, em maior ou menos grau, um ou outro destes atributos positivos, a par dos opostos, em geral predominantes. Manda a modéstia não considerar viáveis os produtos integralmente positivos ou negativos. De qualquer modo, sabe-se que também nestes casos a cor da pele não tem importância nenhuma.
 
O homem, entretanto classificado por um rótulo pessoal que o distinguirá dos seus parceiros, saídos como ele da linha de montagem, é posto a viver num edifício a que se dá, por sua vez, o nome de Sociedade. Ocupará um dos andares desse edifício, mas raramente lhe será consentido subir a escada. Descer é permitido e por vezes facilitado. Nos andares do edifício há muitas moradas, designadas umas vezes por camadas sociais, outras vezes por profissões. A circulação faz-se por canais chamados hábito, costume e preconceito. É perigoso andar contra a corrente dos canais, embora certos homens o façam durante toda a sua vida. Esses homens, em cuja massa carnal estão fundidas as qualidades que roçam a perfeição, ou que por essas qualidades optaram deliberadamente, não se distinguem pela cor da pele. Há-os brancos e negros, amarelos e pardos. São poucos os acobreados por se tratar de uma série quase extinta.
 
O destino final do homem é, como se sabe desde o princípio do mundo, a morte. A morte, no seu momento preciso, é igual para todos. Não o que a precede imediatamente. Pode-se morrer com simplicidade, como quem adormece; pode-se morrer entre as tenazes de uma dessas doenças de que eufemisticamente se diz que “não perdoam”; pode-se morrer sob a tortura, num campo de concentração; pode-se morrer volatilizado no interior de um sol atómico; pode-se morrer ao volante de um Jaguar ou atropelado por ele; pode-se morrer de fome ou de indigestão; pode-se morrer também de um tiro de espingarda, ao fim da tarde, quando ainda hà luz de dia e não se acredita que a morte esteja perto. Mas a cor da pele não tem importância nenhuma.
 
Martin Luther King era um homem como qualquer de nós. Tinha as virtudes que sabemos, certamente alguns defeitos que não lhe diminuíam as virtudes. Tinha um trabalho a fazer – e fazia-o. Lutava contra as correntes do costume, do hábito e do preconceito, mergulhado nelas até ao pescoço. Até que veio o tiro de espingarda lembrar aos distraídos que nós somos que a cor da pele tem muita importância.
 
 
©José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago

 

publicado por ardotempo às 13:33 | Comentar | Adicionar
Terça-feira, 14.10.08

O universo de Jorge Amado, por Saramago

Uma certa inocência
 
José Saramago
 
Durante muitos anos Jorge Amado quis e soube ser a voz, o sentido e a alegria do Brasil. Poucas vezes um escritor terá conseguido tornar-se, tanto como ele, o espelho e o retrato de um povo inteiro. Uma parte importante do mundo leitor estrangeiro começou a conhecer o Brasil quando começou a ler Jorge Amado. E para muita gente foi uma surpresa descobrir nos livros de Jorge Amado, com a mais transparente das evidências, a complexa heterogeneidade, não só racial, mas cultural da sociedade brasileira.
 
A generalizada e estereotipada visão de que o Brasil seria reduzível à soma mecânica das populações brancas, negras, mulatas e índias, perspectiva essa que, em todo caso, já vinha sendo progressivamente corrigida, ainda de que de maneira desigual, pelas dinâmicas do desenvolvimento nos múltiplos sectores e actividades sociais do país, recebeu, com a obra de Jorge Amado, o mais solene e ao mesmo tempo aprazível desmentido.
 
Não ignorávamos a emigração portuguesa histórica nem, em diferente escala e em épocas diferentes, a alemã e a italiana, mas foi Jorge Amado quem veio pôr-nos diante dos olhos o pouco que sabíamos sobre a matéria. O leque étnico que refrescava a terra brasileira era muito mais rico e diversificado do que as percepções europeias, sempre contaminadas pelos hábitos selectivos do colonialismo, pretendiam dar a entender: afinal, havia também que contar com a multidão de turcos, sírios, libaneses e tutti quanti que, a partir do século XIX e durante o século XX, praticamente até aos tempos actuais, tinham deixado os seus países de origem para entregar-se, em corpo e alma, às seduções, mas também aos perigos, do eldorado brasileiro. E também para que Jorge Amado lhes abrisse de par em par as portas dos seus livros.
 
Tomo como exemplo do que venho dizendo um pequeno e delicioso livro cujo título - “A descoberta da América pelos turcos” - é capaz de mobilizar de imediato a atenção do mais apático dos leitores. Aí se vai contar, em princípio, a história de dois turcos, que não eram turcos, diz Jorge Amado, mas árabes, Raduan Murad e Jamil Bichara, que decidiram emigrar a América à conquista de dinheiro e mulheres.
 
Não tardou muito, porém, que a história, que parecia prometer unidade, se subdividisse em outras histórias em que entram dezenas de personagens, homens violentos, putanheiros e beberrões, mulheres tão sedentas de sexo como de felicidade doméstica, tudo isto no quadro distrital de Itabuna (Bahia), onde Jorge Amado (coincidência?) precisamente veio a nascer.
 
Esta picaresca brasileira não é menos violenta que a ibérica. Estamos em terra de jagunços, de roças de cacau que eram minas de ouro, de brigas resolvidas a golpes de facão, de coronéis que exercem sem lei um poder que ninguém é capaz de compreender como foi que lhes chegou, de prostíbulos onde as prostitutas são disputadas como as mais puras das esposas. Esta gente não pensa mais que em fornicar, acumular dinheiro, amantes e bebedeiras. São carne para o Juízo Final, para a condenação eterna. E contudo…
 
E, contudo, ao longo desta história turbulenta e de mau conselho, respira-se (perante o desconcerto do leitor) uma espécie de inocência, tão natural como o vento que sopra ou a água que corre, tão espontânea como a erva que nasceu depois da chuvada. Prodígio da arte de narrar, “A descoberta da América pelos turcos”, não obstante a sua brevidade quase esquemática e a sua aparente singeleza, merece ocupar um lugar ao lado dos grandes murais romanescos, como “Jubiabá”, ”A tenda dos milagres” ou “Terras do sem fim”. Diz-se que pelo dedo se conhece o gigante. Aí está, pois, o dedo do gigante, o dedo de Jorge Amado.
 
 
 
© José Saramago
Fotografia de Mário Castello
 
Publicado no Caderno de Saramago

 

publicado por ardotempo às 12:03 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 08.10.08

O espelho de Fernando Pessoa

Sobre Fernando Pessoa

 

José Saramago

 

Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio.

 

Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal.

 

Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa.

 

Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu.

 

Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três.

 

A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo.

 

Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama.

 

Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se.

 

Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto.

 

Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos. 

 

Publicado em  Caderno de Saramago -  Blog da Fundação José Saramago 

publicado por ardotempo às 01:57 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 03.10.08

Cegos norte-americanos contra Saramago

 

A cegueira e o cinema

 

A Federação Nacional de Cegos (NFB), a maior organização de cegos dos Estados Unidos, anunciou hoje mobilizações contra o filme Ensaio sobre a Cegueira em sua estréia por considerar que retrata os portadores de deficiência visual como depravados.

 O filme, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e que chegará aos cinemas americanos no dia 3 de outubro, é baseado no livro Ensaio sobre a Cegueira do escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998, e relata o caos que haveria na sociedade se todo o mundo ficasse cego de repente.

 A obra segue fielmente a trama de Saramago, que pretende gerar uma reflexão sobre os padrões de comportamento e a moral do ser humano, e como esses se modificariam se passassem por uma situação limite.

O enfoque desta história, no entanto, irritou a NFB às vésperas da estréia do longa-metragem nos Estados Unidos.

"Os cegos aparecem no filme como incompetentes, sujos, viciados e depravados. São incapazes de fazer as coisas mais simples, como se vestir, se lavar e encontrar o banheiro. A verdade é que as pessoas cegas normalmente fazem as mesmas coisas que as que podem ver", disse Marc Maurer, presidente da NFB em comunicado.

 O máximo representante desta federação disse que sua organização "condena e rejeita" o filme e convocou seus membros a protestar nas 75 salas onde o filme estreará na sexta-feira.

"Mostrar os cegos nas telas americanas um pouco melhor do que animais reforçará temores infundados e os estereótipos do grande público sobre a cegueira", indicou Maurer, para quem Ensaio sobre a cegueira ajudará a aumentar a taxa de desemprego entre os cegos, que atualmente afeta 70% dos portadores da deficiência.

Não é a primeira vez que a indústria do cinema utiliza a cegueira em seus roteiros, mas, para Maurer, desta vez sequer se trata de uma comédia, e sim de uma produção que gera "medo e repulsão".

Para a NFB, é um escândalo que a distribuidora Miramax, subsidiária do grupo Walt Disney, retrate os cegos desta forma e "inclusive explique que se trata de uma alegoria ou um comentário social".

A Miramax limitou-se a expressar sua tristeza com a mobilização convocada pela NFB e insistiu em comunicado que, durante a produção do filme, trabalhou-se para preservar a linha marcada pelo romance de Saramago, "uma parábola sobre o triunfo do espírito humano quando a civilização vem abaixo".

 

 

Publicado no UOL

 

A dúvida que permanece, além do politicamente correto e das repercussões que afetem o mercado de trabalho para os portadores de deficiências visuais, é sobre o efetivo percentual deste segmento de público que habitualmente esteja presente nas salas de cinema dos Estados Unidos. Aparentemente os exibidores já calcularam tudo, previamente.  

tags:
publicado por ardotempo às 12:14 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 29.09.08

O caderno de Saramago (01)

Claro como água

José Saramago

Como sempre sucedeu, e há-de suceder sempre, a questão central de qualquer tipo de organização social humana, da qual todas as outras decorrem e para a qual todas acabam por concorrer, é a questão do poder, e o problema teórico e prático com que nos enfrentamos é identificar quem o detém, averiguar como chegou a ele, verificar o uso que dele faz, os meios de que serve e os fins a que aponta. Se a democracia fosse, de facto, o que com autêntica ou fingida ingenuidade continuamos a dizer que é, o governo do povo pelo povo e para o povo, qualquer debate sobre a questão do poder perderia muito do seu sentido, uma vez que, residindo o poder no povo, era ao povo que competiria a administração dele, e, sendo o povo a administrar o poder, está claro que só o deveria fazer para seu próprio bem e para sua própria felicidade, pois a isso o estaria obrigando aquilo a que chamo, sem nenhuma pretensão de rigor conceptual, a lei da conservação da vida. Ora, só um espírito perverso, panglossiano até ao cinismo, ousaria apregoar a felicidade de um mundo que, pelo contrário, ninguém deveria pretender que o aceitemos tal qual é, só pelo facto de ser, supostamente, o melhor dos mundos possíveis. É a própria e concreta situação do mundo chamado democrático, que se é verdade serem os povos governados, verdade é também que não o são por si mesmos nem para si mesmos. Não é em democracia que vivemos, mas sim numa plutocracia que deixou de ser local e próxima para tornar-se universal e inacessível.

Por definição, o poder democrático terá de ser sempre provisório e conjuntural, dependerá da estabilidade do voto, da flutuação das ideologias ou dos interesses de classe, e, como tal, pode ser entendido como um barómetro orgânico que vai registando as variações da vontade política da sociedade. Mas, ontem como hoje, e hoje com uma amplitude cada vez maior, abundam os casos de mudanças políticas aparentemente radicais que tiveram como efeito radicais mudanças de governo, mas a que não se seguiram as mudanças económicas, culturais e sociais radicais que o resultado do sufrágio havia prometido. Dizer hoje governo “socialista”, ou “social-democrata”, ou “conservador”, ou “liberal”, e chamar-lhe poder, é pretender nomear algo que em realidade não está onde parece, mas em um outro inalcançável lugar – o do poder económico e financeiro cujos contornos podemos perceber em filigrana, mas que invariavelmente se nos escapa quando tentamos chegar-lhe mais perto e inevitavelmente contra-ataca se tivermos a veleidade de querer reduzir ou regular o seu domínio, subordinando-o ao interesse geral. Por outras e mais claras palavras, digo que os povos não elegeram os seus governos para que eles os “levassem” ao Mercado, mas que é o Mercado que condiciona por todos os modos os governos para que lhe “levem” os povos. E se falo assim do Mercado é porque é ele, hoje, e mais que nunca em cada dia que passa, o instrumento por excelência do autêntico, único e insofismável poder, o poder económico e financeiro mundial, esse que não é democrático porque não o elegeu o povo, que não é democrático porque não é regido pelo povo, que finalmente não é democrático porque não visa a felicidade do povo.

O nosso antepassado das cavernas diria: “É água”. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: “Sim, mas está contaminada”. 

Publicado no blog de José Saramago

tags: ,
publicado por ardotempo às 01:42 | Comentar | Adicionar
Segunda-feira, 15.09.08

A viagem do elefante

Novo livro de José Saramago. Chama-se A viagem do elefante.

Queridas amigas, queridos amigos,

"Escrevê-lo não foi um passeio ao campo: Saramago lançou-se a esta tarefa quando estava incubando uma doença que tardou meses a deixar-se identificar e que acabou por manifestar-se com uma virulência tal que nos fez temer pela sua vida. Ele próprio, no hospital, chegou a duvidar que pudesse terminar o livro. Não obstante, sete meses depois, Saramago, restabelecido e com novas energias, pôs o ponto final numa narração que a ele não lhe parece romance, mas conto, o qual descreve a viagem, ao mesmo tempo épica, prosaica e jovial, de um elefante asiático chamado Salomão, que, no século XVI, por alguns caprichos reais e absurdos desígnios teve de percorrer mais de metade da Europa.

A viagem do elefante é um livro coral onde as personagens entram, saem e se renovam de acordo com as peculiares exigências narrativas que o autor se impôs e lhes impôs. O elefante e o seu cornaca têm nome, como outras personagens que figuram nos manuais de história, embora apareçam também pessoas anónimas, gente com quem os membros da caravana se vão cruzando e com quem partilham perplexidades, esforços, ou a harmoniosa alegria de um tecto depois de tantas noites dormidas à intempérie.

Apesar de não se tratar de um livro volumoso, andará pelas 240 páginas, poderemos reconhecer nelas a imaginação de Saramago, a compaixão solidária, esse sentimento que, sendo expressado literariamente, é sobretudo humano. Ele atravessa toda a obra, distingue-a e significa-a. Encontraremos igualmente o humor que o escritor emprega para salvar-se a si mesmo e para que o leitor possa penetrar no labirinto de humanidades em conflito sem ter de abjurar da sua condição indagadora de humano e leitor. Como sempre, encontrar-nos-emos com a ironia, o sarcasmo, a beleza em estado puro, a responsabilidade de escrever, a felicidade de ter escrito.

Saramago oferece-nos um novo livro. Que não é um livro histórico, embora trate de algo que está na história, ou, para ser mais rigoroso, na pequena história, embora intervenham personagens que tiveram vida real e que agora voltam a ter nova ocasião ao pôr-se a conviver com outras procedentes da imaginação do escritor e, todos juntos, habitar as mesmas páginas, ainda que nem sempre as mesmas peripécias. Quando lerdes o livro sabereis a que me refiro. A viagem do elefante está pontuado de acordo com as regras de Saramago, os diálogos intercalam-se na narração, um todo que o leitor tem de organizar de acordo com a sua própria respiração. O leitor, esse ser fundamental que Saramago considera e respeita e a quem continuamente interpela, seja adiantando-lhe consequências de certos actos ou recordando-lhe outros, implicando-o no texto, porque escrever, como ler, não são acções inocentes, são tentativas para forçar a inteligência a ir um pouco mais longe, mais além de Viena, de Valladolid ou de Lisboa, mais além do que éramos ao acordar de manhã e encontrar-nos com mais um dia pela frente.

Queridas amigas, queridos amigos, com estas linhas apenas pretendi dar a notícia de que vamos ter um novo livro de Saramago para incorporar na nossa vida de leitores. Não vos decepcionará, pelo contrário, ireis lê-lo, estou certa, com a mesma emoção com que foi escrito e sobrevooa cada linha, cada palavra. Não é um livro mais, é o livro que estávamos esperando e que chegou a bom porto, o leitor. Salomão, o elefante, não teve tanta sorte, mas disso não falarei, aguardemos o Outono, e então sim: aí, em vários idiomas simultaneamente, poderemos comentar páginas, aventuras, desenlaces. Os materiais da ficção, que são também os da vida.

A todos, um abraço e felicidades."

 Pilar del Río /  Esposa de José Saramago - Blog da Fundação José Saramago

publicado por ardotempo às 01:24 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

Pesquisar

 

Fevereiro 2012

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
25
26
27
28
29

Posts recentes

Arquivos

tags

Links