Terça-feira, 13.07.10

Nomes de minuanos

 

Inverno

 

Quando eu me for, no meio da chuva fina,

Planta-me uma folha em si menor,

Num sol maior dissonante

De bergamotas descascadas na soleira

Do inverno da minha infância.

 


Devagar como quem aprende a soletrar

Murmuro os nomes de minuanos,

Ventos navegantes que me alçaram ao sul,

Primeiro desterro,

Circulando ao redor do mistério.

 


Nada será lembrado que não for verdadeiro,

Todas as pequenas mentiras e todos os enganos

Serão somados ao receituário de vacinas.

Quero cantigas antigas e rocks caseiros.

Palavras como pão com manteiga, café com leite.

 


Mas toda vez que vier a chuva fina, como hoje,

Te levo também, inverno ensaiando

O caminhozinho lilás, aquarela

De cais e nuvens desfiadas,

Te embarco junto com o mais sagrado.

 


E quando eu for, memória de cascas,

Linha circular, pó de umbigo, rirei,

À toa, vadia como as rotas que me levaram,

Encharcada de sal, náufrago avistando a terra

De uma primavera.

 


Isolde Bosak, 2010

 

 

 

 


Imagem: Gilberto Perin, Paris 2009

publicado por ardotempo às 17:29 | Comentar | Adicionar
Domingo, 20.06.10

Poema

 

 

Além do Equador

 

 

Mariana Ianelli

 

 

 

No soco do vento

Desencontraram-se.

 

Selvas e rios

Entre dois pontos de um mapa,

Eles perderam contato

Mas não perdiam a saúde

De acreditar

Que nem todos os países

Foram já cartografados.

 

Em terra queimada de sal

Se queimavam.

Arrendavam o tempo

E com sua paga 

Mantinham viva uma língua

Que aos outros nada comunicava,

Um país movediço 

Que prendia no estrangeiro

Seus tentáculos.

 

O quanto pode suportar 

Um homem

Uma vez extorquido, seqüestrado,

Eles podiam 

No meio de estranhos

Com um corpo amarrado à realidade.

 

Todo dia era um lapso, 

Um hábito 

Que não achava mais vontade,

A força se adelgaçando

Na dura queda de braço.

 

Mas não se dobravam,

Isso não podiam.

Faltava secar um país

E uma língua desaparecer

Debaixo de uns trapos –

Brutal e lentamente,

Como cabe ao ferro da coragem.

 

 

 

 

 

Mariana Ianelli - Treva Alvorada - Iluminuras, 2010

Imagem: Paul Klee - Pintura

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Sábado, 19.06.10

Colocar palavras

 

Extensão do Mito

 

Mariana Ianelli

 

 

 

Contam que ele desceu

Ao vale dos esquecidos

E cantou acima do suplício.

 

Que apaziguou o vento,

Estufou as vinhas,

De olhos fechados

Seduziu a serpente

Como se replantasse

O primeiro jardim.

 

Que foi odiado, despedaçado,

Lançado ao mar,

Para nunca mais

Uma voz se atrever à harmonia.

 

Mas não contam que uma mulher

Reuniu seus fragmentos

E encantou as mulheres da ilha,

Que assim Orfeu amou Eurídice, 

Finalmente em corpo e lira.

 

 

 

 

Mariana Ianelli - Treva Alvorada, Iluminuras - 2010

 

 

 

 

 

 

 

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Domingo, 13.06.10

Lançamento de Treva Alvorada - Livraria da Vila (São Paulo)

Poesia

 

 

Uma festa bonita com presença de muito público. Foi um notável sucesso o lançamento do sexto livro de poesias de Mariana Ianelii - Treva Alvorada, na Livraria da Vila (Alameda Lorena) em São Paulo, na noite de quinta-feira, dia 10 de junho.

Fotografia de Petronio Cinque

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Quarta-feira, 09.06.10

A poesia ganha

TREVA ALVORADA

 

 

© Mariana Ianelli - Treva Alvorada - Editora Iluminuras, 2010

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Terça-feira, 08.06.10

Poeta maior

 

Ferreira Gullar, poeta maior

 

A atribuição do Prémio Camões – no valor de cem mil euros (metade dos quais pagos por Portugal; metade pelo Brasil) – a um escritor cuja obra, no seu conjunto, contribua para o enriquecimento do património literário em português, gera todos os anos entusiasmos e incómodos na comunidade cultural lusófona. Independentemente dos méritos de quem ganha, há sempre a desconfiança de que os critérios do júri são mais da ordem da diplomacia – e do equilíbrio de forças dentro do espaço da língua comum – do que da literatura. A edição de 2010 não deverá ter escapado a esta tendência.

 

Na passada segunda-feira, antes do anúncio oficial feito pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, o júri – composto por dois brasileiros (António Carlos Secchin e Edla van Steen), dois portugueses (Helena Buescu e José Carlos Seabra Pereira), um moçambicano (Luís Carlos Patraquim) e uma são-tomense (Inocência Mata) – esteve reunido durante duas horas. À partida, era previsível que o vencedor fosse brasileiro ou português, uma vez que em 2009 o Camões foi para o poeta cabo-verdiano Arménio Vieira e a lógica rotativa (nunca admitida) do prémio implicava um regresso ao território das duas maiores potências da CPLP. Se os jurados brasileiros defenderam com empenho a causa de Ferreira Gullar, autor que Secchin, um dos “imortais” da Academia Brasileira de Letras, já tinha de resto proposto como candidato ao Nobel (em 2002), os representantes portugueses no júri tudo fizeram para que a distinguida fosse Hélia Correia. A decisão foi difícil e tomada por maioria, prevalecendo a ideia de uma maior urgência em premiar Gullar (n. 1930) do que a autora de Lillias Fraser, 19 anos mais nova. "Quase demos o prémio para a Hélia Correia e teria sido muito bom também, mas ela tem tempo", admitiu Edla van Steen no fim da conferência de imprensa em que foi lida a acta do júri, na qual se sublinha "a alta relevância estética da obra de Ferreira Gullar, em especial a poesia, incorporando com mestria tanto a nota pessoal do lirismo quanto a defesa de valores éticos universais".

 

 

 

 

Único editor de Ferreira Gullar em Portugal, Jorge Reis-Sá considera que a atribuição do prémio é “inteiramente justa”, até porque volta a distinguir a poesia brasileira, vinte anos exactos após o Camões atribuído a João Cabral de Melo Neto. Hoje a trabalhar no grupo Babel, Reis-Sá publicou em 2003, nas Edições Quasi (entretanto falidas), as mais de 500 páginas da Obra Poética completa de Gullar. Na altura, teve oportunidade de visitar o poeta na sua casa do Rio de Janeiro, na companhia de Eucanaã Ferraz, e recorda um homem “inteligentíssimo”, correcto e afável, “um gentleman”. Entretanto, a tiragem de mil exemplares da Obra Poética esgotou e Reis-Sá gostava muito de reeditá-la, embora não saiba se depois do prémio isso será possível. As Quasi publicaram ainda, em 2005, um outro livro de Gullar de que Reis-Sá se orgulha: Um Gato chamado Gatinho, volume de poemas infantis, “lindíssimos”, com ilustrações de Joana Quental. Alguns desses poemas foram cantados ao vivo por Adriana Calcanhotto, versão Partimpim, num concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

 

Além de poeta, Ferreira Gullar (pseudónimo de José Ribamar Ferreira) foi ou é também cronista, crítico de arte, dramaturgo, ensaísta, biógrafo, tradutor e guionista. Em 2008, o volume Poesia Completa, Teatro e Prosa (Nova Aguilar) reuniu uma produção literária de quase seis décadas em 1264 páginas – do seu livro de estreia (Um pouco acima do chão, 1949) às memórias do seu exílio (no tempo da ditadura militar), passando pelas várias fases da sua evolução como escritor, do experimentalismo ao neoconcretismo, da torrente visceral de Poema Sujo (1976), uma obra-prima que evoca a infância em São Luís do Maranhão, aos versos em que se comprometeu com as lutas sociais e políticas do seu tempo, nunca abdicando do rigor absoluto da linguagem.

No livro de ensaios Indagações de hoje (1989), Ferreira Gullar escreveu: «a palavra que forma o poema sempre foi, no meu entender, uma entidade viva, nascida do corpo, suja sabe-se lá de que insondáveis significados». E o ensaísta Ivan Junqueira, no prefácio à Obra Poética editada pelas Quasi, sintetizou: “Se examinarmos a poesia de Ferreira Gullar desde 1954 até agora à luz de sua tessitura estilística, chegaremos à conclusão de que poucos autores entre nós alcançaram tanta e tamanha coerência interna, tanta e tamanha fidelidade às suas origens de artista que se dispôs a transgredir as fronteiras do sistema da língua”.

 

A consagração do Prémio Camões foi precedida por outras distinções importantes no Brasil, como um Jabuti, em 2007, e o Prémio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, em 2005. No próximo mês de Setembro, quando completar 80 anos, Ferreira Gullar lançará um livro de poemas inédito, Em Alguma Parte Alguma (José Olympio), o primeiro desde Muitas Vozes (1999), volume onde se podem ler estes três versos que de certa forma resumem a sua arte poética: “Meu poema / é um tumulto, um alarido: / basta apurar o ouvido.

 

Publicado no blog Bibliotecário de Babel

 

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Terça-feira, 01.06.10

Prêmio ao grande poeta e à Poesia

Prêmio Camões para Ferreira Gullar

 

O poeta sensível (e crítico de arte lúcido e perspicaz), de postura corajosa e jamais subserviente a quaisquer interesses, merece muito esse prêmio.

Artista de dimensão maior e da solidão coerente com seu pensamento não concessivo, merece o reconhecimento, nossa confraternização e a nossa alegria.

Parabéns, Ferreira Gullar. (Obrigado Filipa e José Simões, pela saudação ao poeta.)

 

 

Considerado um dos maiores poetas brasileiros vivos, Ferreira Gullar acaba de ser distinguido com o Prémio Camões, o mais importante do universo literário lusófono. Do júri, que decidiu por maioria, fizeram parte Helena Buescu, José Carlos Seabra Pereira, Inocência Mata, Luís Carlos Patraquim, António Carlos Secchin e Edla van Steen. (Publicado no blog Bibliotécário de Babel, de José Mário Silva)

Imagem: Retrato do poeta Ferreira Gullar, por Mario Castello

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Domingo, 25.04.10

MANABERNARDESESCREVEUMPOEMA

Mana Bernardes

 

 

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Um poema

 

Josafá

 

 

Um trem some na noite,

Já não sabes 

O que nesta viagem 

Te aconteceu.

 

O olho cego de Deus

Ilumina os campos nevados,

A brancura de nada saber

Te faz bem.

 

Moves-te 

Num ventre de áspide,

Move-te a vontade de outrem.

Tua complacência viaja.

 

Tua complacência,

Uma fúria

Que o vagar das sombras

Enterneceu. 

 

Não há tua história,

Tua estrela no peito, teus bens.

Há um rosto fixo e mudo.

Teu nome é ninguém.

 

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli (Inédito) - Treva Alvorada - Iluminuras, 2010

 

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Terça-feira, 20.04.10

Palavra - Poema inédito de Mariana Ianelli

 

Palavra

 

 

Quantos dias nessa guerra
Não foi contra a minha vontade 
Guerrear
- E arremetia, me devastava,
Secretamente amanhava a terra
Com o excelente desempenho
Do meu ódio.
                                                                                                              
E também isto passou.
O demoníaco da ingratidão,
Metade de uma obra queimada,
Passou esse gasto modo de dizer
Maldito seja
Que só a mim escandalizava.
                                                                                                              
Era um presente que me pesava  
Mais que os anos, 
Não ter a quem confiar 
Minha parte humana, 
Dada à embriaguez e ao desastre, 
E uma sombra que me buscava 
Feito um cão, 
A insônia da minha perplexidade,
Aquele em que eu jamais reparava,
Meu fiel anjo da morte.
                                                                                                                    
Quanto tempo me demorei
Nessa palavra.
Incensando a casa vazia
Eu rogava por um dia
Tão distante das armas e do medo
Que já não me turvasse 
Um resquício,
Um gesto de sepultamento,
E o silêncio que me tomasse
Agora sem ressentimento
Fosse o testemunho 
De uma renascença.
                                                                                                  
Havia um olho selvagem
Em tudo que eu pensasse.
Um pássaro 
O amor que eu concebia
Depois devorava.
Por horror ao mundo devorava.
E me gabava de pensar
Que em mim guardada 
Uma fidelidade
Entre tantas já corrompidas
Perdoaria meu coração descompassado.
                                                                                                                
Eu me desatentei, eu me ressenti
Dos lugares desaparecidos
Da minha história.
Por esquecimento vagava no vento,
O remanescente 
Do império de um tempo
Que em seu declínio se contenta 
E se absolve.
                                                                                                                 
E se a mim mesmo me assistisse
O corpo todo se encolhendo 
Num espasmo, resistindo,
Com meu abandono me desavindo
Eu confessaria –
A rebeldia inútil da vida 
Me comove.
                                                                                                                    
Coberto de poeira
Irmão dos rochedos
Caído de joelhos por cansaço
Como se nada mais me desequilibrasse
Falaria por mim um estremecimento,
Minha nascente, 
Uma rubra sinceridade –
Ainda me falta um presságio 
De revoada.
                                                                                                           
Ares de madrugada
Toquem meus ombros, meus pés,
Seja um rosto limpo,
Sem febre e sem vexame,
O rosto que vier,
Oráculo do meu passado.
                                                                                                                 
Agora eu me calo, eu vejo
Onde falham as despedidas:
Há uma tarde e uma manhã
Entre o descampado 
E o primeiro filho.
                                                                                                                                                 
Na noite alta 
Faço o meu acampamento,
Ao longe escuto 
O som do guizo dos que partem,
Tenho imensa tarefa pela frente.
Semeador de pouca fala,
Vou deitando os meus mortos
Onde incendeia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                  
© Mariana Ianelli - Iluminuras, 2010

Poema inédito da poeta Mariana Ianelli,
que antecipa a estréia de seu sexto livro
de poesia, Treva Alvorada que será lançado no Brasil,
pela Editora Iluminuras, em junho de 2010.
                                                                  

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Quinta-feira, 18.03.10

O livro de Maria Carpi

A palavra encarnada e repartida 

 
Mariana Ianelli - Resenha sobre o livro Abraão e a Encarnação do Verbo,
de Maria Carpi 
 
Abraão e a Encarnação do Verbo
Maria Carpi
Age Editora
120 páginas
 
Iniciar uma reflexão poética invocando clareza e humildade não é tarefa que hoje se possa dizer costumeira entre poetas, sobretudo no que se refere à humildade. Considerar, além disso, que a palavra seja sagrada, talvez chegue mesmo a provocar desconforto em alguns. Pois é a partir desta fé, e desta fidelidade, que Maria Carpi apresenta os fundamentos de sua arte poética em Abraão e a Encarnação do Verbo.
 
De origem italiana por parte de pai, Maria ainda guarda de sua infância em Guaporé as memórias de uma plantação de vinhedos e a imagem da mãe, com seu avental branco, preparando o pão. Quanto à paternidade de espírito, Maria se declara cristã-israelita, “essencialmente filha de Abraão e da Encarnação do Verbo”. Tem-se aí os pilares da história e da obra de uma poeta que, ao entremear a escritura da vida com as Escrituras Sagradas, fez de sua visão de mundo uma “metáfora viva”, o aprendizado do corpo e do sangue de Cristo desde o pão e o vinho da casa de infância.
 
Em seu livro, Maria Carpi evoca os autores que admira, como Martin Buber e Simone Weil, para juntar-se a eles na experiência de uma reflexão sobre o sagrado tão digna de interesse quanto se esperaria de uma contribuição no campo das reflexões científicas ou filosóficas. “E quem somos, por mais brilhante nossa capacidade de raciocinar, para arredar do mundo o espaço do mistério?”, questiona a poeta, para quem “o invisível não é uma abstração, mas uma concreção”. Deve-se a esta “ausência ardente” de Deus o princípio de toda criação humana. Com a queda do homem para a mortalidade, resta-lhe a virtude de ser fecundo, de continuar o “poema da criação” e dar fruto na palavra. A poesia cumpre aqui, tal como na vida, o caminho do regresso, de um crescente despertar da atenção, a capacidade de um sopro criador que “devolve o alento originário” e faz recordar ao homem sua morada. 
 
Se na liturgia os divinos mistérios são celebrados por meio dos sacramentos, na poesia o Inominável se deixa vislumbrar através do véu do simbólico. Essa aproximação do ato poético e do ato litúrgico, vale lembrar, também era cara à poeta italiana Cristina Campo, que via em ambos a presença daquele “esplendor gratuito, delicado desperdício, mais necessário do que útil”, um esplendor que remontaria ao gesto de Maria Madalena lançando o vaso de nardo sobre o corpo de Jesus. Afinada com essa gratuidade amorosa na raiz da poesia e da liturgia cristã, Maria Carpi reconhece que “toda criação é um ato que transborda”, assim como “toda graça é sem causa provável”.
 
Inspirada pela narrativa bíblica, a poeta vai do Antigo ao Novo Testamento, refazendo nesse percurso de leitura o caminho do exílio à terra da promessa. Assim, a Graça e a Paixão se encontram na exigência da vinda de Cristo contida nas palavras de Abraão a Isaac: “Deus proverá ele mesmo o cordeiro”. Por uma enunciação poética, Abraão precipita a Encarnação do Verbo. E quando “Deus desentranha-se de Deus para entranhar-se Filho do Homem”, dá-se o escândalo, o grande desconforto de um sagrado que tem corpo, que precisa ser amado, acolhido e respeitado no corpo do próximo, “justamente aquele do qual nos desviamos”.
 
Esta percepção de uma realidade sagrada entre os homens, e não acima deles, de um dever imediato para com o próximo, e não para com um Deus transcendente, incomoda pelo que de laborioso exige, porque perturba a inércia, delata o egoísmo e responsabiliza a todos por aquele que sofre, aquele que está ao alcance dos olhos e das mãos, e que aparece como um intruso, ainda que seja um irmão. Pois na “prontidão somos poucos”, diz Maria Carpi, somos poucos na disponibilidade da doação sem reservas, no “milagre do pão repartido”. E a poesia, por este mesmo critério de um pão que se reparte, requer uma entrega sem subterfúgios nem limites, um abrir-se ao desconhecido de tal modo que se possa acolher o outro, ser o outro, e desta semelhança entranhada desponte “a rosa do convívio”. Para esse encontro, Maria Carpi se prepara em silêncio. À maneira de uma semente, seu poema se vai desdobrando em oferta, até dizer: “extrema compaixão / extenuada, corpo a corpo / em sequidão, é de repente, / de ponta a ponta, estar maduro” (do 34º Canto de As Sombras da Vinha).
 
 
Mas o amor do poeta, assim como a vizinhança do outro, nem sempre é bem-vindo. Isto porque “somos também filhos da mesquinhez”, e, sobretudo, porque “há um pudor inexplicável, doentio, em dizer a palavra interdita: eu te amo na obra que não é minha”. Há aqueles que quando lêem não comparecem, nem compartilham. E ainda aqueles que escrevem não para retribuir, mas para renegar a vida. Abraão e a Encarnação do Verbo contempla também esse vazio, esse território infértil que coexiste com a literatura, a banalização do sagrado par a par com uma religião pessoal, os sete ais das bem-aventuranças. Nada falta, portanto, aos fundamentos de uma arte poética, com toda uma ética, uma estética e uma mundividência reconhecíveis no testemunho de uma vida. Doação, comunhão e apetência para o bem e para o belo atuam nesse livro duas vezes: como fé e como obra. Trata-se da palavra encarnada, do sagrado tornado visível na escada que sobra intacta, apontando para o céu, no meio dos jardins de uma casa demolida. Aos olhos da poeta, essa é a escada de Jacob.
 
Precioso, ao final do livro, o relevo dado às mulheres da Bíblia, desde Rute, Ester e Judite, até as irmãs de Lázaro, que já marcavam presença nos versos de Os cantares da Semente: “Marta sustenta, Maria consente / e aquele, irmão das duas, posto / à prova, é sepultado, semente”. Pois é assim que, em sua história de filha, mãe e avó, em seu trabalho de Defensora Pública e em sua rotina de ocupações domésticas não separadas do espírito, a poeta Maria Carpi convoca para sua vida as figuras emblemáticas de Marta e Maria, ação e contemplação jungidas pela fraternidade, para que um único dom se aprimore em seu mais alto grau de exercício: o dom de ver a dignidade nas coisas cotidianas tanto quanto na palavra que as designa. Entre as muitas razões para celebrar Abraão e a Encarnação do Verbo, por ora basta destacar a corajosa tarefa que a autora ali assume, de recuperar para a palavra esta dimensão sagrada, tantas vezes já depreciada ou esquecida, da qual provém uma poética dos sentidos, fonte da linguagem e da experiência criadora, sem dúvida, mas, antes disso, uma virtude simplesmente humana de se arriscar à vida e ao convívio.   
 
Mariana Ianelli
publicado por ardotempo às 00:42 | Comentar | Adicionar
Domingo, 28.02.10

A poeta entre as árvores

Mariana Ianelli

 

 

 

 

Petrônio Cinque - Retrato de Mariana Ianelli - Fotografia (São Paulo SP Brasil), 2010

publicado por ardotempo às 02:22 | Comentar | Adicionar

Poema de Mariana Ianelli

 
 
Canto do Estrangeiro 
 
 
Mariana Ianelli
 
 
Viria como um rei
Se fosse por vontade tua.
 
Tão remoto no tempo
Da tua vida
Que nem te tocasse.
 
Viria com a alvorada,
Quase miragem debuxada
De uma ave 
Sobrevoando a tua história.
 
Sem te possuir
Nem te pertencer, 
Para o teu prazer um aceno
O mais natural 
Seria o meu sinal no longe,
Isento de paixões
E cheio de glória:
 
Nada semelhante
À paz que sucede as guerras
No regresso de um Ulisses 
Vagabundo,
Exausto de triunfo, como eu
Que penetro o teu mundo
Envolto em sombra
E para sempre me despeço
Ao desfiar a púrpura
Que a espera pôs 
Nas tuas pálpebras.
 
 
 
 
© Mariana Ianelli - Treva Alvorada - Iluminuras, 2010
publicado por ardotempo às 02:11 | Comentar | Adicionar
Domingo, 25.10.09

Poema (Mariana Ianelli / Inédito)

Vibrações
 
  
O prazer que te dão as chuvas
Porque derrubam sem chance de luta
As árvores centenárias, os muros, 
Um templo com sua esfarrapada figura,
Um pouco é sonho, um pouco insulto
Da tua resistência ao rés do absurdo
Viver quarenta noites no dilúvio
Atado a uma cama, o corpo no escuro
Ao abrigo de uma mente lúcida.
 
O que ainda vibra nesse homem
Se ele nada mais quer, nada pode,
- Demasiada realidade exposta -
Como aceitar que no sono suporte
O lodo se intrometendo pelas bordas,
Perguntam por dentro os que estão à tua volta
E não veem a enguia se movendo,
Se esquivando, ludibriando o tempo, 

Quinze côvados abaixo das tuas pálpebras.

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli - Iluminuras, 2009

Imagem: Páteo dos Leões - Alhambra, Granada  (Espanha)

publicado por ardotempo às 13:14 | Comentar | Adicionar
Sábado, 17.10.09

Bibliotecário de Babel

 

 

José Mário Silva é excelente escritor e poeta. Além disso, é respeitado crítico literário do Expresso de Lisboa, colaborador permanente da revista Ler e editor do blog Bibliotecário de Babel, blog que vale pelo menos uma visita diária. Autor do livro de contos Efeito Borboleta e outras histórias; e do livro de poesias Luz Indecisa, ambos editados e disponíveis apenas em Portugal, por enquanto.

 

Veja o blog Bibliotecário de Babel

publicado por ardotempo às 21:54 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 07.10.09

"O que sonha por aqueles que já não sonham..."

Entrevista de Mariana Ianelli - TV Cultura São Paulo

 

 

 

Veja o vídeo:

 

 http://www.tvcultura.com.br/nossalingua/player.php?id=4446

 

Veja o site da TV Cultura - Programa Nossa Língua

publicado por ardotempo às 17:02 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 19.06.09

Lusa Memória

Lisboa
 
Nada minha bela
me levará para longe
nem mouro, nem caravela
aqui estou na linha d'água
desejo e vela.
 
 
© Isolde Bosak - Lusa Memória
publicado por ardotempo às 15:16 | Comentar | Adicionar
Quarta-feira, 17.06.09

Perfil

Mariana Ianelli
 
Escritora, poeta e jornalista cultural. 29 anos. Cinco livros publicados, pela Editora Iluminuras de São Paulo. Participação em outros livros, como CARTAS, de Ignácio de Loyola Brandão (Iluminuras). Inúmeros textos e poemas publicados em periódicos de expressão nacional como as revistas BRAVO, APLAUSO e CULT; e jornais como FOLHA de S.PAULO (MAIS e Ilustrada), O ESTADO de SÃO PAULO e CAROS AMIGOS.
 
Participacão como convidada-palestrante na 12ª Jornada Literária Internacional de Passo Fundo RS - 2007
 
Livros publicados:
Trajetória de Antes (1999) - Poesia - Editora Iluminuras
Apresentação: Ignácio de Loyola Brandão
Duas Chagas (2001) - Poesia - Editora Iluminuras
Apresentação: José Mindlin
Passagens (2003) - Poesia - Editora Iluminuras
Apresentação: Nelly Novaes Coelho
Fazer Silêncio (2005) - Poesia - Editora Iluminuras
Apresentação: Fabricio Carpinejar e José Castello
Almádena (2007) - Poesia - Editora Iluminuras
Apresentação: Marco Lucchesi e Antonio Carlos Secchin
Treva Alvorada - Poesia - Editora Iluminuras
- próximo lançamento
Ianelli (2005) - Biografia 
Apresentação: Emanoel Araújo
 
Jovem talento da melhor expressão da nova produção intelectual brasileira, de grande disciplina e de extensa produção singular, já convidada à participação no Printemps de Poétes, em Rennes, pela Université de Rennes 2, em 2000.
 
Prêmio Bunge (anterior Prêmio Moinho Santista) - Poeta Contemporânea Brasileira (Categoria Juventude/Literatura) 2008
Finalista do Prêmio Portugal Telecom 2008
Finalista do Prêmio Prime BRAVO 2007
 
Atividades de formação e integração de jovens estudantes secundários de Escolas Públicas, por convite da prefeitura de São Paulo, em 2005 e 2006, em leituras de textos e poemas, seminários e palestras.
Trata-se de uma jovem personalidade de destaque na vida intelectual paulista e brasileira, no decorrer dos últimosdez anos  (de 1999 a 2009), com site de Personalidade no Universo Online desde 2000.
Seu mérito fundamental decorre não somente de sua profícua produção intelectual como escritora, de altíssima qualidade e profunda seriedade, com reconhecimento nacional e internacional entre seus pares, mas também e principalmente, pelo seu exemplo de sua dedicação profissional, de sua disciplina pessoal e de distinção na criatividade intelectual, o que permite ensejar a qualidade expressiva do pensamento jovem brasileiro a outros jovens de sua contemporaneidade.
 

 

publicado por ardotempo às 14:15 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 12.06.09

Mariana Ianelli - Um poema

 

 

És o senhor de um continente livre

Onde os teus amores não pretendem nada

Porque a miragem da carne não existe mais.

Na tua postura delgada e muda

Uma essência ora se ilumina,

Ora te faz prosseguir ao acaso,

Mas o temor do exílio já não ecoa dentro em ti

Sua velha litania desesperançada.

Pouquíssimos conseguiriam contemplar

Os mistérios que a tua religião emana

Sem te julgarem um homem enfeitiçado.

Tu sabes facilmente de onde extrair o que te falta.

Enquanto te achas perdido, ao invés,

Estás muito bem guardado em tua alma.

 

 

Mariana Ianelli

 

© Mariana Ianelli - Passagens, 2003, ed. Iluminuras

publicado por ardotempo às 21:34 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 08.05.09

Livro e xilogravuras

Artista, escritora e poeta

 

Lançamento de livro e exposição de xilogravuras da artista Isolde Bosak

 

 

publicado por ardotempo às 13:08 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Terça-feira, 05.05.09

Corrente de poesia

Benedetti
 
José Saramago
 
O susto foi grande, Mario Benedetti estava no hospital e o seu estado era considerado grave. Ángel González foi-se-nos quase sem aviso, numa fria madrugada de Janeiro. Que agora fosse a vida de Benedetti a estar em perigo lá no seu distante Montevidéu era algo que a preocupação aqui despertada não se resignava a aceitar. E, contudo, nada podíamos fazer.
 
Enviar telegramas, à antiga usança? Mandar recados por algum amigo? Rezar uma oração pelo seu pronto restabelecimento, se com isso não fôssemos provocar a ira laica de Mario?
 
Pilar encontrou a solução. Que era em verdade Mario Benedetti, que havia sido ele em toda a sua  vida, muito mais que as múltiplas profissões exercidas? Poeta. Então arranquemos os seus poemas à imobilidade da página e façamos com eles uma nuvem de palavras, de sons, de música, que atravesse o mar atlântico (as palavras, os sons, a música de Benedetti) e se detenha, como uma orquestra protectora, diante da janela que está proibido abrir, embalando-lhe o sono e fazendo-o sorrir ao despertar.
 
Aos médicos alguma coisa se ficou a dever, reconheçamo-lo, mas nós, todos os que ao redor do mundo demos a nossa contribuição pessoal, juntando poemas de Benedetti aos poemas de Benedetti, tivemos também a nossa parte no trabalho. Mario Benedetti está melhor. Leiamos então um poema dele.
 
Hasta Mañana
 
Voy a cerrar los ojos en voz baja voy a meterme a tientas en el sueño.
 
En este instante el odio no trabaja
para la muerte, que es su pobre dueño la voluntad suspende su 
latido y yo me siento lejos, tan pequeño que a Dios invoco,
pero no le pido nada, con tal de compartir apenas este universo
que hemos conseguido por las malas y a veces por las buenas.

¿Por qué el mundo soñado no es el mismo que este mundo de muerte 
a manos llenas?

Mi pesadilla es siempre el optimismo:
me duermo débil, sueño que soy fuerte, pero el futuro aguarda.
Es un abismo.

No me lo digan cuando me despierte.
 
 
Mario Benedetti
 
 
Publicado no Blog O Caderno de Saramago
 

 

 

publicado por ardotempo às 12:34 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Terça-feira, 21.04.09

Dois Poemas

Descendência
 
Mariana Ianelli
 
Sou o poema tresmalhado
Que um lobo traz à boca
Como prêmio 
De um passeio ao campo.
 
Vive em mim
O irmão mais velho 
Debruçado sobre o chão
Cavando, cavando com as unhas.
 
Aqui uma cidade se levanta,
Força e música,
Já a prostituta distribui
Os seus encantos.
 
Uma primeira espada
Deslizando
E há o deserto em mim,
Que seca todo pranto.
 
Morre aqui eternamente
O ladrão do fogo,
Morre Abel, a cada verso
A terra faz ouvir seu sangue.
 
O animal que há milênios
Me carrega
Tem a marca
Da educação pela sombra.
 
© Mariana Ianelli - Publicado no Rascunho
 
 
 
Extensão do Mito
 
Mariana Ianelli
 
Contam que ele desceu
Ao vale dos esquecidos
E cantou acima do suplício.
 
Que apaziguou o vento,
Estufou as vinhas,
De olhos fechados
Seduziu a serpente
Como se replantasse
O primeiro jardim.
 
Que foi odiado, despedaçado,
Lançado ao mar,
Para nunca mais
Uma voz se atrever à harmonia.
 
Mas não contam que uma mulher
Reuniu seus fragmentos
E encantou as mulheres da ilha,
Que assim Orfeu amou Eurídice, 
Finalmente em corpo e lira.
 
© Mariana Ianelli - Publicado no Rascunho
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publicado por ardotempo às 00:48 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 29.01.09

A vida bate

Ferreira Gullar

 

Não se trata do poema do homem 

e sua vida

- a mentida, a ferida, a consentida

vida já ganha e já perdida e ganha 

outra vez.

 

Não se trata do poema e sim da fome

de vida,

             o sôfrego pulsar entre constelações

e embrulhos, entre engulhos.

 

                                                     Alguns viajam, vão

a Nova York, a Santiago

do Chile. Outros ficam

mesmo na Rua de Alfândega, detrás 

de balcões e guichês.

 

                                       Todos te buscam, facho

de vida, escuro e claro,

               que é mais que a água na grama

               que o banho no mar, que o beijo

               na boca, mais 

               que a paixão na cama.

 

Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns

               te acham e te perdem.

              Outros te acham e não te reconhecem

e há os que se perdem por te achar,

                                                                 ó desatino,

ó verdade, ó fome

                                de vida!

 

                O amor é difícil

mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.

 

                E estamos na cidade

sob as nuvens e entre as águas azuis.

                A cidade. Vista do alto

ela é fabril e imaginária, se entrega inteira

               como se estivesse pronta.

 

               Vista do alto,

com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade

é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém. 

 

               Mas vista

               de perto,

revela seu túrbido presente, sua

               carnadura de pânico: as

               pessoas que vão e vêm

               que entram e saem, que passam

sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro

               sangue urbano

               movido a juros.

 

São pessoas que passam sem falar

               e estão cheias de vozes

               e ruínas. És Antônio?

És Francisco? És Mariana?

 

               Onde escondeste o verde

clarão dos dias? Onde

               escondeste a vida

que em teu olhar se apaga mal se acende?

               E passamos 

carregados de flores sufocadas.

 

                Mas dentro, no coração

                eu sei,

                            a vida bate, Subterraneamente,

a vida bate.

 

                 Em Caracas, no Harlem, em Nova Dellhi,

                 sob as penas da lei, 

                 em teu pulso,

                                         a vida bate.

    

E é essa clandestina esperança

misturada ao sal do mar

                 que me sustenta

                 esta tarde

debruçada à janela de meu quarto em Ipanema

                 na América Latina.

 

 

 

© Ferreira Gullar - A Vida Bate, 1999

publicado por ardotempo às 10:35 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 18.07.08

Mariana Ianelli - Inédito

 

 

 

 


 

 

 

© Mariana Ianelli - Iluminuras, 2008 

publicado por ardotempo às 15:21 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Sexta-feira, 11.07.08

O poeta eletrizou no seu show

Encontros com o Professor

 

 

O Professor é Ruy Carlos Ostermann, o sofisticado, sóbrio e culto jornalista-entrevistador que rege com mestria o seu palco. A platéia lotada no Studio Clio vê a performance do twister e poeta Fabricio Carpinejar. Ele fala de tudo nesta noite de quinta-feira: de poesia, dos filhos, do pai poeta, da mãe poeta, da psicanálise, dos afetos, da memória, das palavras, dos amigos, das namoradas antigas, do casamento, das gaffes, do tamanho do seu carro, do ato de escrever, da alegria, da melancolia, de perfumes, de uniformes, das ausências e da recordação de seu primeiro livro editado...

Uma noite animada e espetacular. Termina com música e aplausos.

 

Encontros com o Professor - Fotos de Carlos Carvalho

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publicado por ardotempo às 04:23 | Comentar | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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