Terça-feira, 30.11.10

Numa rua verde

 

 

Numa rua verde

 


Quem mora numa rua verde?

Quem mora assim, no espaço deste espectro?

Quem é que debruça sorrisos na sacada esverdeada?

Esgares em verde-água e, lampejos de olhar em verde-nada?

A rua é incondicionalmente verde.

Substancialmente verde

no meio,

justo,

um!

só!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Publicado em Lisboa, Portugal, por George Sand (blog Chez George Sand)

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Terça-feira, 28.09.10

LINHA TORTA

 

 

Poema em linha torta

 


De todos os lados armam-se de teorias

futuristas cansados

tecnologias que cantam

com a ingenuidade

forjada dos pilantras

ou com a estupidez assanhada

dos paspalhos.

 


Debatem o fim da lira por todos os lados

locupletam-se com artigos

em revistas indexadas

descolam um pouco de sexo

entre o furor inerme das

comunicações de 20 minutos

tempo mais que suficiente

para os que esqueceram

Garcilaso.

 


Anunciam eufóricos a descoberta

da interatividade

tão antiga

vejam só

quanto o bom Homero.

 


Alfabetizam-se com histórias

em quadrinhos

rebatizadas com novos

e lustrosos

nomes importados:

romances gráficos

orientais mangás,

alegam ser capazes de ler na tela

300 páginas,

mas não vencem uma quadra

de Quevedo.

 


Estão por toda a parte

e vão vencendo,

falam mais alto

amasiam-se

lubrificam-se à voz procaz

dos suplementos literários.

 


Arre!

estou farto

da maçada de lhes dar combate.

 


Pobre de quem ergue versos e é

classe média

(valha-me a complacência do IBGE),

pois antes poderia ser maldito,

decadentista

amigo de Braque.

 


Hoje,

renderei no máximo

uma monografia,

louvada não por sua coragem

mas por seguir à risca

as normas da ABNT.

 


Pedro Gonzaga

 

Publicado no blog Pedro Gonzaga

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Quinta-feira, 26.08.10

Poema

Flamingo

 

O que queres de mim

rosa alada carmim?

 

O que persegues nesta longa

e leve jornada?

 

Quem sois, bela criatura alada,

pássaro fiel ou flor desabrochada?

 

Bando de sóis no horizonte

Poesia feito asa.

 

 

 


Which wishes have you,

winged red rose?

 

What seeks you on this light

and long journey?

 

Who are you, winged creature,

faithful bird or blossom flower?

 

Flock of suns on horizon

Poetry in the shape of wing.

 

 

Poema de © Cleonice Bourscheid (Edições ARdoTEmpo, 2010)

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Sexta-feira, 23.07.10

músicaPOESIApintura

 

 

 

 

Alaúde

 


Tua música, tu, a musa,

Recolhe-me quarto vago,

Crescente o paraíso no meio do dia,

Tua espada brilha e nela me atravesso,

Alaúde.

 

Tenho pressa no passar da lâmina,

Ela que encoraja as preces

Antes do alvorecer,

onde te deixarei ir.


Enquanto príncipe, me tens,

Nas púrpuras entranhas

Onde semeias meu corpo.


Então, como quem parte,

Deito-me na chuva

Para que a primavera me tenha flor,

Para que o verão, colheita e sumo,

Vinho que permanence depois de terminar.

 

 

Isolde Bosak

Imagem: Pablo Picasso - Guitarra - Pintura -

Óleo e colagens sobre tela (Paris França), 1913


http://asvezesumpouco.blogspot.com/

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Domingo, 20.06.10

Poema

 

 

Além do Equador

 

 

Mariana Ianelli

 

 

 

No soco do vento

Desencontraram-se.

 

Selvas e rios

Entre dois pontos de um mapa,

Eles perderam contato

Mas não perdiam a saúde

De acreditar

Que nem todos os países

Foram já cartografados.

 

Em terra queimada de sal

Se queimavam.

Arrendavam o tempo

E com sua paga 

Mantinham viva uma língua

Que aos outros nada comunicava,

Um país movediço 

Que prendia no estrangeiro

Seus tentáculos.

 

O quanto pode suportar 

Um homem

Uma vez extorquido, seqüestrado,

Eles podiam 

No meio de estranhos

Com um corpo amarrado à realidade.

 

Todo dia era um lapso, 

Um hábito 

Que não achava mais vontade,

A força se adelgaçando

Na dura queda de braço.

 

Mas não se dobravam,

Isso não podiam.

Faltava secar um país

E uma língua desaparecer

Debaixo de uns trapos –

Brutal e lentamente,

Como cabe ao ferro da coragem.

 

 

 

 

 

Mariana Ianelli - Treva Alvorada - Iluminuras, 2010

Imagem: Paul Klee - Pintura

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Sábado, 19.06.10

Colocar palavras

 

Extensão do Mito

 

Mariana Ianelli

 

 

 

Contam que ele desceu

Ao vale dos esquecidos

E cantou acima do suplício.

 

Que apaziguou o vento,

Estufou as vinhas,

De olhos fechados

Seduziu a serpente

Como se replantasse

O primeiro jardim.

 

Que foi odiado, despedaçado,

Lançado ao mar,

Para nunca mais

Uma voz se atrever à harmonia.

 

Mas não contam que uma mulher

Reuniu seus fragmentos

E encantou as mulheres da ilha,

Que assim Orfeu amou Eurídice, 

Finalmente em corpo e lira.

 

 

 

 

Mariana Ianelli - Treva Alvorada, Iluminuras - 2010

 

 

 

 

 

 

 

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Domingo, 25.04.10

Um poema

 

Josafá

 

 

Um trem some na noite,

Já não sabes 

O que nesta viagem 

Te aconteceu.

 

O olho cego de Deus

Ilumina os campos nevados,

A brancura de nada saber

Te faz bem.

 

Moves-te 

Num ventre de áspide,

Move-te a vontade de outrem.

Tua complacência viaja.

 

Tua complacência,

Uma fúria

Que o vagar das sombras

Enterneceu. 

 

Não há tua história,

Tua estrela no peito, teus bens.

Há um rosto fixo e mudo.

Teu nome é ninguém.

 

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli (Inédito) - Treva Alvorada - Iluminuras, 2010

 

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Terça-feira, 20.04.10

Palavra - Poema inédito de Mariana Ianelli

 

Palavra

 

 

Quantos dias nessa guerra
Não foi contra a minha vontade 
Guerrear
- E arremetia, me devastava,
Secretamente amanhava a terra
Com o excelente desempenho
Do meu ódio.
                                                                                                              
E também isto passou.
O demoníaco da ingratidão,
Metade de uma obra queimada,
Passou esse gasto modo de dizer
Maldito seja
Que só a mim escandalizava.
                                                                                                              
Era um presente que me pesava  
Mais que os anos, 
Não ter a quem confiar 
Minha parte humana, 
Dada à embriaguez e ao desastre, 
E uma sombra que me buscava 
Feito um cão, 
A insônia da minha perplexidade,
Aquele em que eu jamais reparava,
Meu fiel anjo da morte.
                                                                                                                    
Quanto tempo me demorei
Nessa palavra.
Incensando a casa vazia
Eu rogava por um dia
Tão distante das armas e do medo
Que já não me turvasse 
Um resquício,
Um gesto de sepultamento,
E o silêncio que me tomasse
Agora sem ressentimento
Fosse o testemunho 
De uma renascença.
                                                                                                  
Havia um olho selvagem
Em tudo que eu pensasse.
Um pássaro 
O amor que eu concebia
Depois devorava.
Por horror ao mundo devorava.
E me gabava de pensar
Que em mim guardada 
Uma fidelidade
Entre tantas já corrompidas
Perdoaria meu coração descompassado.
                                                                                                                
Eu me desatentei, eu me ressenti
Dos lugares desaparecidos
Da minha história.
Por esquecimento vagava no vento,
O remanescente 
Do império de um tempo
Que em seu declínio se contenta 
E se absolve.
                                                                                                                 
E se a mim mesmo me assistisse
O corpo todo se encolhendo 
Num espasmo, resistindo,
Com meu abandono me desavindo
Eu confessaria –
A rebeldia inútil da vida 
Me comove.
                                                                                                                    
Coberto de poeira
Irmão dos rochedos
Caído de joelhos por cansaço
Como se nada mais me desequilibrasse
Falaria por mim um estremecimento,
Minha nascente, 
Uma rubra sinceridade –
Ainda me falta um presságio 
De revoada.
                                                                                                           
Ares de madrugada
Toquem meus ombros, meus pés,
Seja um rosto limpo,
Sem febre e sem vexame,
O rosto que vier,
Oráculo do meu passado.
                                                                                                                 
Agora eu me calo, eu vejo
Onde falham as despedidas:
Há uma tarde e uma manhã
Entre o descampado 
E o primeiro filho.
                                                                                                                                                 
Na noite alta 
Faço o meu acampamento,
Ao longe escuto 
O som do guizo dos que partem,
Tenho imensa tarefa pela frente.
Semeador de pouca fala,
Vou deitando os meus mortos
Onde incendeia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                  
© Mariana Ianelli - Iluminuras, 2010

Poema inédito da poeta Mariana Ianelli,
que antecipa a estréia de seu sexto livro
de poesia, Treva Alvorada que será lançado no Brasil,
pela Editora Iluminuras, em junho de 2010.
                                                                  

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Domingo, 28.02.10

Poema de Mariana Ianelli

 
 
Canto do Estrangeiro 
 
 
Mariana Ianelli
 
 
Viria como um rei
Se fosse por vontade tua.
 
Tão remoto no tempo
Da tua vida
Que nem te tocasse.
 
Viria com a alvorada,
Quase miragem debuxada
De uma ave 
Sobrevoando a tua história.
 
Sem te possuir
Nem te pertencer, 
Para o teu prazer um aceno
O mais natural 
Seria o meu sinal no longe,
Isento de paixões
E cheio de glória:
 
Nada semelhante
À paz que sucede as guerras
No regresso de um Ulisses 
Vagabundo,
Exausto de triunfo, como eu
Que penetro o teu mundo
Envolto em sombra
E para sempre me despeço
Ao desfiar a púrpura
Que a espera pôs 
Nas tuas pálpebras.
 
 
 
 
© Mariana Ianelli - Treva Alvorada - Iluminuras, 2010
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Sábado, 23.01.10

Efeito Borboleta - 2

 
 
 
 
Relatividade
 
 
 
Quando os canhões retumbam
lá em Rakke
muda-se a borboleta
para outra flor.
 
Ou visto a partir da perspectiva
da borboleta: Quando se muda
a borboleta para outra flor
retumbam os canhões em Rakke.
 
 
 
Ernst Orvil

 

 

 

 

 

 

 

Enviado por Mariana Ianelli

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Sexta-feira, 25.12.09

Desenho poema

Mana Bernardes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

© Mana Bernardes - Desenho-Poema -Tinta china sobre papel artesanal kozo, 2009

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Domingo, 13.12.09

P.O.E.M.A-X

 
 
X

Como um felix ronronando oxítonas
num amplexo levou-me à Luxor!
Expectorei perplexa...
Nem precisa explicar!

Depois, como antrax, me devorou!
Fiquei extática, com tal exótico de Rolex,
que excêntrico!

Meu córtex é um pouco católico...
mas...e o êxtase?

Perplexa ante o paradoxo
exerci a lex,
- sed lex, sed durex-
muiiiiito durex!

Com Tetrex e Tilex,
pedidos à Medex,
examimei as oxidações,
marinei bife em pirex,
apliquei sobre as extravagâncias...

Só Kleenex me consolou!
E botox!

Extraí látex do coração,
lágrimas extraditadas
me auxiliaram a não ser Chatotonix!

Por telex o expulsei,
vivo feliz com Obelix!
Extraordinariamente!
Apesar da fixação em X-Man

Madame X 

 

 

© Isolde Bosak, Lisboa, 2009

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Terça-feira, 08.12.09

O desenho-poema

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia - Desenho-poema de Mana Bernardes (Caligrafia a caneta de tinta china sobre papel artesanal kozo), 2009

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Terça-feira, 01.12.09

O mundo é o mar


E vejo-me fazendo a viagem de volta,
colocando ponteiro em bússola,
acordando para trás relógios e rotas,
tomando imagens de Nossa Senhora,
 
- Protegei os navegantes,
eles não sabem o que fazem -
das Indias, das especiarias, das tormentas.
 
O oceano calmo, o oceano ânimo,
e eu a respirar debaixo d'água,
e eu a voltar para a terra de onde nunca saí.
 
Que porto me acolherá?
Será noite, será norte?
Será a terra que divisava outra terra dividida,
metade tua, metade alheia?
 
E eu a soprar velas e eu a abanar lágrimas.
E a terra a se afastar e o mar a se apartar,
e o porto e o destino.
 
O mundo é o mar, e eu querendo voltar,
e eu querendo...
 
 
 
 
 
 
 
© Isolde Bosak, 2009
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Domingo, 08.11.09

O poema enterrado

Uma experiência-limite
 
Ferreira Gullar
 
Entre 1959 e 1961,, quando nasceu e eclodiu o movimento neoconcreto, tornei-me amigo de Hélio Oiticica, que eu tinha como uma espécie de irmão mais novo. Ele, aliás, era o mais moço do grupo e o último a se juntar a ele, tanto que não participou da primeira exposição neoconcreta, inaugurada em março de 1959, no MAM do Rio, nem assinou o manifesto, publicado naquela ocasião.
 
Mas Hélio, de todos, era o mais determinado a buscar novos caminhos de expressão, a levar adiante as propostas que surgiam do trabalho e da troca de ideias e de experiências. Ele estava convencido de que a arte neoconcreta abrira um território novo à criação artística. Esse era um tema frequente em nossas conversas, que, na verdade, se limitavam a algumas hipóteses sem resposta. A resposta não estava no discurso, mas no trabalho criador.
 
O incêndio, que recentemente destruiu grande parte de suas obras, chegou-me como uma notícia inverossímil pelo telefone, quando a repórter me falou da perda de mil obras, o que me pareceu exagero uma vez que, pela própria natureza de suas criações, dificilmente teria feito tantas. De qualquer modo, as perdas seriam muitas. Pois incluiriam telas, desenhos, relevos espaciais, instalações e todos os "Bólides" e "Parangolés", que estavam na sala onde ocorreu o incêndio.
 
Uma perda irreparável, no plano artístico, impossível de calcular, uma vez que ali se teria perdido grande parte da própria história do artista. Agora se sabe que boa parte das obras se salvou e outras serão recuperadas ou refeitas.
 
Ainda assim, foi um desastre lamentável que, atinge todas as pessoas amantes da arte, atinge-me particularmente pela ligação que mantive com ele, no momento mesmo em que inventava o seu próprio caminho. E, mais ainda, porque o incêndio ocorreu onde ocorreu, na casa da Gávea Pequena, onde foi construído, em 1960, o "Poema Enterrado".
 
Cabe dizer ao leitor, que talvez não o saiba, o que era esse poema. A coisa começou quando publiquei no Suplemento Dominical do "Jornal do Brasil" um poema concreto que, para se realizar de fato, obrigava o leitor a ler, seguidamente, a palavra "verde", que se repetia até explodir na palavra "erva". Só que o leitor, ao perceber a repetição, não fazia a leitura prevista, por desnecessária.
 
Esse fracasso me levou a inventar um poema escrito, palavra a palavra, no verso das páginas e a cortá-las, conforme a necessidade do poema. Nasceu, assim, o livro-poema, que me levou aos poemas espaciais (placa de madeira com um cubo colorido que ocultava uma palavra), que obrigavam o leitor mover as peças do poema.
 
Pois bem, depois de levá-lo a participar do poema, manuseando-o, usando a mão, decidi levá-lo a usar o corpo - e bolei o "Poema Enterrado": uma sala no subsolo, a que o leitor descia por uma escada e entrava no poema. Sua invenção foi no final de 1959, quando publiquei, no "SDJB", a planta do poema e sua descrição.
 
 
Hélio ligou-me empolgado e dizendo que ia obrigar o pai a construir o poema no quintal da nova casa da família, essa mesma casa, onde houve agora o incêndio. Pronto o poema, marcou-se a inauguração num domingo, mas, como chovera muito na véspera, ao abrirmos-lhe a porta, vimos que estava inundado, para desapontamento de todos nós.
 
Soube, muitos anos depois da morte do Hélio, que o poema havia sido reconstruído, mas não fui informado. Esse poema nasceu azarado: o MAM de São Paulo tentou construí-lo, no Ibirapuera, mas a comissão estadual de cultura o proibiu.
 
De qualquer modo, o incêndio de agora junta-se em minha mente à inundação do poema, numa relação estranha que sinto sem saber explicar. Tenho diante dos olhos, agora, o rosto tenso de Oiticica, sentado comigo a uma mesa do Zepelin, pouco depois de seu retorno de New York. Daí a poucos meses, ele é encontrado agonizando no pequeno apartamento em que passara a morar, em Ipanema.
 
Hélio e Lygia Clark levaram às últimas consequências a proposta básica do neoconcretismo, de acrescentar à experiência visual -que define a pintura, a gravura e a escultura- o relacionamento corporal com a obra. Essa participação do espectador conduz, no caso do Hélio Oiticica, à série de "Bólides", que são, a meu ver, o momento-limite de sua busca, antes dos "Parangolés" e outras obras, de difícil definição estética. Algumas das experiências dele e de Lygia Clark anteciparam certos caminhos que a arte tomaria, a partir dos anos 60 e 70. Daí o reconhecimento internacional de que gozam. Isso nos dá a medida do que se poderia ter perdido com o incêndio de outubro passado.
 
Ferreira Gullar 
publicado por ardotempo às 12:24 | Comentar | Adicionar
Domingo, 25.10.09

Poema (Mariana Ianelli / Inédito)

Vibrações
 
  
O prazer que te dão as chuvas
Porque derrubam sem chance de luta
As árvores centenárias, os muros, 
Um templo com sua esfarrapada figura,
Um pouco é sonho, um pouco insulto
Da tua resistência ao rés do absurdo
Viver quarenta noites no dilúvio
Atado a uma cama, o corpo no escuro
Ao abrigo de uma mente lúcida.
 
O que ainda vibra nesse homem
Se ele nada mais quer, nada pode,
- Demasiada realidade exposta -
Como aceitar que no sono suporte
O lodo se intrometendo pelas bordas,
Perguntam por dentro os que estão à tua volta
E não veem a enguia se movendo,
Se esquivando, ludibriando o tempo, 

Quinze côvados abaixo das tuas pálpebras.

 

 

 

 

 

 

© Mariana Ianelli - Iluminuras, 2009

Imagem: Páteo dos Leões - Alhambra, Granada  (Espanha)

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Sábado, 17.10.09

Mariana Ianelli - Poema Inédito

Poesia

 

 

13º TRABALHO DE HÉRCULES 

 
 
Eis o velho empreendedor,
O indomado.
 
De hora em hora lhe dão de comer,
Esquadrinham-lhe as intimidades.
 
Tudo o que sente são cores,
Nenhuma delas equivalente 
A entusiasmo.
 
- Ao menos Jó tivera a regalia
De sangrar, energia bastante 
Para empenhar no ódio 
E contaminar a ordem 
Com uma peste e um milagre –
 
Mas a chaga do herói não se mostra,
O toco da sua dignidade mutilada.
 
Sabe lá em que recinto arcano
Polemizam duas potestades,
Até quando estremecerão as artérias 
E quem vencerá essa aposta.
 
 
 
 
© Mariana Ianelli - Iluminuras, 2009 / (Inédito)
 
 
 
 
 
 
Imagem: Laocoonte e seus filhos - Conjunto escultórico grego - 42 a.C. / Atribuída por Plinio, o Velho a três escultores de Rodes; Agesandro, Almodoro e Polidoro / Encontrada por Felice de Fredi e Michelangelo Buonarroti nas ruínas das Termas de Tito, em Roma no ano 1506.

publicado por ardotempo às 23:04 | Comentar | Adicionar
Sexta-feira, 16.10.09

Ave, Flor - de Cleonice Bourscheid e Anelise Scherer

 

 

Amor-perfeito

 

 

Neste lugar imperfeito

Onde as pedras calam

E o ar é rarefeito

 

Nesta terra árida

Onde répteis rastejam

E o fruto é amargo

 

Nestes galhos secos

Onde as aves recolhem

Seus ninhos vazios

 

Aqui, bem-amado

Plantei um canteiro

De amor perfeito 

 

 

 

 

 

© Cleonice Bourscheid

© Anelise Scherer - Aquarela botânica / Amor-perfeito / Viola x cornuta

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Segunda-feira, 05.10.09

O rio, a cidade, o fio

 
 
 
 
Visão
 
Do mar calmo ao Tejo longe
- mais além as sete colinas-
Evoco  o sonho e a alma 
e o corpo abarca o desejo onde
tão intensamente enjeitado parto.
 
Nada prego, senão o paraíso.
 
Temo pelos gestos bruscos
e pelo momento que calo,
mesmo que o cais monte
doloridamente velas mínimas
 
Estrangeiro quando falo
nas tormentas e pontes,
naufrago em colo farto.
 
Senão pátria, que outro rio?
 
O cesto arde em fogo divino,
vime à deriva urdido,
cala outro ciclo de sal.
Desmancha-se o rito.
 
Ao olhar atrás o passado, o fio
precário que sustenta os hinos
nos ventos e marés tardias,
cantam feitos demais.
 
No cal e nos ditos canônicos
para sempre aquém do espírito,
para nunca além do cais.
 
E ainda assim volto
E ainda acinte quero
E ainda pátria, terra.
 
 
© Isolde Bosak
Imagem: Lisboa - © Gilberto Perin, 2009

 

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Sexta-feira, 19.06.09

Lusa Memória

Lisboa
 
Nada minha bela
me levará para longe
nem mouro, nem caravela
aqui estou na linha d'água
desejo e vela.
 
 
© Isolde Bosak - Lusa Memória
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Sexta-feira, 12.06.09

Mariana Ianelli - Um poema

 

 

És o senhor de um continente livre

Onde os teus amores não pretendem nada

Porque a miragem da carne não existe mais.

Na tua postura delgada e muda

Uma essência ora se ilumina,

Ora te faz prosseguir ao acaso,

Mas o temor do exílio já não ecoa dentro em ti

Sua velha litania desesperançada.

Pouquíssimos conseguiriam contemplar

Os mistérios que a tua religião emana

Sem te julgarem um homem enfeitiçado.

Tu sabes facilmente de onde extrair o que te falta.

Enquanto te achas perdido, ao invés,

Estás muito bem guardado em tua alma.

 

 

Mariana Ianelli

 

© Mariana Ianelli - Passagens, 2003, ed. Iluminuras

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Quarta-feira, 27.05.09

Poema para Ianelli

Arcangelo Ianelli
 
Somente a intenção infinitamente reproduzida
De superar as oscilações do tempo
Te levaria ao encontro das linhas retas, 
À hospitalidade mansa dos interiores
Habitados pelo repouso de uma certa época,
Às formas dançantes em seu mínimo desassossego,
E, finalmente, ao acontecimento daquele rosto de filha
Piedoso e profundo, melhor obra do teu imaginário.
 
E foste além na tua procura ordenada pela delicadeza
E pela regularidade na evolução das tuas fases,
Chegaste à vibração calorosa que passa do vermelho ao negro
Num princípio de abismo,
Ao horizonte pacífico da música tornada obscura.
 
Somente a ousadia de possuir outra compreensão da vida
Te ofereceu uma passagem sem volta
Ao lento desaparecimento dos limites.
 
 
 
 
© Mariana Ianelli
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Segunda-feira, 11.05.09

Mariana Ianelli e Siron Franco

Cartões postais de arte, da poeta e do artista
 
Será lançada no dia  05 de junho uma série inédita de poemas cartões postais de Mariana Ianelli e Siron Franco. São poemas especialmente escolhidos pela premiada poeta para essa edição de arte e um conjunto inédito de desenhos em cores realizados recentemente (2009) pelo grande artista brasileiro, editados e publicados em formato de cartões postais por ARdoTEmpo.
 
 
 
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Terça-feira, 05.05.09

Corrente de poesia

Benedetti
 
José Saramago
 
O susto foi grande, Mario Benedetti estava no hospital e o seu estado era considerado grave. Ángel González foi-se-nos quase sem aviso, numa fria madrugada de Janeiro. Que agora fosse a vida de Benedetti a estar em perigo lá no seu distante Montevidéu era algo que a preocupação aqui despertada não se resignava a aceitar. E, contudo, nada podíamos fazer.
 
Enviar telegramas, à antiga usança? Mandar recados por algum amigo? Rezar uma oração pelo seu pronto restabelecimento, se com isso não fôssemos provocar a ira laica de Mario?
 
Pilar encontrou a solução. Que era em verdade Mario Benedetti, que havia sido ele em toda a sua  vida, muito mais que as múltiplas profissões exercidas? Poeta. Então arranquemos os seus poemas à imobilidade da página e façamos com eles uma nuvem de palavras, de sons, de música, que atravesse o mar atlântico (as palavras, os sons, a música de Benedetti) e se detenha, como uma orquestra protectora, diante da janela que está proibido abrir, embalando-lhe o sono e fazendo-o sorrir ao despertar.
 
Aos médicos alguma coisa se ficou a dever, reconheçamo-lo, mas nós, todos os que ao redor do mundo demos a nossa contribuição pessoal, juntando poemas de Benedetti aos poemas de Benedetti, tivemos também a nossa parte no trabalho. Mario Benedetti está melhor. Leiamos então um poema dele.
 
Hasta Mañana
 
Voy a cerrar los ojos en voz baja voy a meterme a tientas en el sueño.
 
En este instante el odio no trabaja
para la muerte, que es su pobre dueño la voluntad suspende su 
latido y yo me siento lejos, tan pequeño que a Dios invoco,
pero no le pido nada, con tal de compartir apenas este universo
que hemos conseguido por las malas y a veces por las buenas.

¿Por qué el mundo soñado no es el mismo que este mundo de muerte 
a manos llenas?

Mi pesadilla es siempre el optimismo:
me duermo débil, sueño que soy fuerte, pero el futuro aguarda.
Es un abismo.

No me lo digan cuando me despierte.
 
 
Mario Benedetti
 
 
Publicado no Blog O Caderno de Saramago
 

 

 

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Domingo, 03.05.09

Poemas de Julio Cortázar

Julio Cortázar

 

La mosca

 

Te tendré que matar de nuevo.

 

Te maté tantas veces,

en Casablanca,

en Lima,

en Cristianía,

en Montparnasse,

en una estancia del partido de Lobos,

en el burdel,

en la cocina,

sobre un peine,

en la oficina,

en esta almohada

 

te tendré que matar de nuevo,

yo, con mi única vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lo que me gusta de tu cuerpo es el sexo.

Lo que me gusta de tu sexo es la boca.

Lo que me gusta de tu boca es la lengua.

Lo que me gusta de tu lengua es la palabra.

 

 

© Julio Cortázar - Papeles Inesperados, 2009

Publicado em El País 

publicado por ardotempo às 13:58 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar
Sexta-feira, 24.04.09

Um poema, por José Saramago

Ergo uma rosa

 

 

 

 

Veja o vídeo em que José Saramago diz seu poema Ergo uma rosa, conjuntamente à interpretação em dança de Maria Pagés - desde Lanzarote, Espanha - 2009

 

José Saramago - Publicado no blog O Caderno de Saramago

publicado por ardotempo às 22:46 | Comentar | Adicionar
Domingo, 15.03.09

A loura cabeça de Fonseca

Federico García Lorca

 

 

Som de negros em Cuba

 

Quando chegar a lua cheia

irei a Santiago de Cuba,

irei a Santiago

em um carro de água negra,

irei a Santiago.

Cantarão os tetos de palmeira.

Irei a Santiago.

E quando quiser ser medusa o plátano,

irei a Santiago.

Irei a Santiago

com a loura cabeça de Fonseca.

Irei a Santiago.

E com a cor rosada de Romeu e Julieta

irei a Santiago.

Mar de papel e prata de moedas.

Irei a Santiago.

Oh, Cuba! Oh, ritmo de sementes secas!

Irei a Santiago.

Oh, cintura quente e gota de madeira!

Irei a Santiago.

Harpa de troncos vivos. Caimão. Flor de tabaco.

Irei a Santiago.

Sempre disse que iria a Santiago 

em um carro de água negra.

Irei a Santiago.

Brisa e álcool nas rodas,

irei a Santiago.

Meu coral na treva,

irei a Santiago.

O mar afogado na areia,

irei a Santiago.

Calor branco, fruta morta.

Irei a Santiago.

Oh, bovino frescor de canaviais!

Oh, Cuba! Oh, curva de suspiro e barro!

Irei a Santiago.

 

 

Federico García Lorca - Poeta em Nova York, 1930

Tradução: William Agel de Melo, UnB, 1996

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publicado por ardotempo às 23:05 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 29.01.09

A vida bate

Ferreira Gullar

 

Não se trata do poema do homem 

e sua vida

- a mentida, a ferida, a consentida

vida já ganha e já perdida e ganha 

outra vez.

 

Não se trata do poema e sim da fome

de vida,

             o sôfrego pulsar entre constelações

e embrulhos, entre engulhos.

 

                                                     Alguns viajam, vão

a Nova York, a Santiago

do Chile. Outros ficam

mesmo na Rua de Alfândega, detrás 

de balcões e guichês.

 

                                       Todos te buscam, facho

de vida, escuro e claro,

               que é mais que a água na grama

               que o banho no mar, que o beijo

               na boca, mais 

               que a paixão na cama.

 

Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns

               te acham e te perdem.

              Outros te acham e não te reconhecem

e há os que se perdem por te achar,

                                                                 ó desatino,

ó verdade, ó fome

                                de vida!

 

                O amor é difícil

mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.

 

                E estamos na cidade

sob as nuvens e entre as águas azuis.

                A cidade. Vista do alto

ela é fabril e imaginária, se entrega inteira

               como se estivesse pronta.

 

               Vista do alto,

com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade

é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém. 

 

               Mas vista

               de perto,

revela seu túrbido presente, sua

               carnadura de pânico: as

               pessoas que vão e vêm

               que entram e saem, que passam

sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro

               sangue urbano

               movido a juros.

 

São pessoas que passam sem falar

               e estão cheias de vozes

               e ruínas. És Antônio?

És Francisco? És Mariana?

 

               Onde escondeste o verde

clarão dos dias? Onde

               escondeste a vida

que em teu olhar se apaga mal se acende?

               E passamos 

carregados de flores sufocadas.

 

                Mas dentro, no coração

                eu sei,

                            a vida bate, Subterraneamente,

a vida bate.

 

                 Em Caracas, no Harlem, em Nova Dellhi,

                 sob as penas da lei, 

                 em teu pulso,

                                         a vida bate.

    

E é essa clandestina esperança

misturada ao sal do mar

                 que me sustenta

                 esta tarde

debruçada à janela de meu quarto em Ipanema

                 na América Latina.

 

 

 

© Ferreira Gullar - A Vida Bate, 1999

publicado por ardotempo às 10:35 | Comentar | Adicionar
Sábado, 24.01.09

Lusa Memória - Isolde Bosak

Descoberta
 
 
 
 
 
 
 
Do alto desta vista cá
vou mais longe
pelo rio embarco
ganho o oceano
e cruzo
o arco de sagitário
e o cruzeiro
até o sul e mais
 
e se a memória de lá
o seu afogado tange
deixo tudo ao largo
resgato o mar liso e plano
de tanto uso
pego flecha e destinatário
abro velas que o vento trás
 
agora entendo navegar
e o que mais me constrange
é ter deixado o que abarco
desde aqui ao dano
tudo o que é luso
escrito em diário
de não ser dignatário
tendo voltado ao cais
 
 
© Isolde Bosak - Poema do livro Lusa Memória, 2009
publicado por ardotempo às 19:03 | Comentar | Adicionar
Quinta-feira, 15.01.09

Poema inédito de Mariana Ianelli

Quarta Infância

 
À sombra de um livro sagrado
Lembrou:
 
Foi no alto de um morro
Que sentiu
Pela primeira vez
Esse cheiro de curtume.
 
O olhar pastoso do boi,
O tempo trinchado, devorado.
 
Se bem extraído, pode um grito
Encher de festa uma paisagem,
Festa e regozijo.
 
Quem diria aquele menino
Pela última vez
Um homem de joelhos
E mãos engatadas nas costas.
 
Na prece invertida arrevessa:
Sagrada era a lama
Da cor do bronze.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
© Mariana Ianelli - Iluminuras, 2009
Fotografia de Misha Gordin, 2005
publicado por ardotempo às 12:59 | Comentar | Ler Comentários (1) | Adicionar

Editor: ardotempo / AA

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