Fantasmas

Conversa de fantasmas no museu

 


 

Na penumbra noturna do museu de Nova York, apenas as luzes pontuais de segurança testemunham o encontro das duas fantasmagorias. Silenciosamente alheias ao anterior rumor diurno dos sussurros e ao, agora inexistente ecoar dos passos estalados pelos saltos de sapatos dos visitantes nas salas expositivas, antes generosamente iluminadas e apinhadas de gente. No momento existe apenas o silêncio dos túmulos e o frescor da climatização do ambiente controlado. 

 

No cenário sombrio estão frente a frente, a escultura articulada em dobraduras metálicas, superfícies anguladas, refletindo em chapa nua de aço a pouca luminosidade, ocultando sombras profundas, sem nenhuma camada de pintura; e a pintura de grande formato, povoada de inscrições em dialetos urbanos, intensa estética da figuração das ruas dos guetos, em óleo de excelente qualidade de fatura sobre o tecido espesso da tela.
 
Frente a frente, igualmente, os fantasmas de L. e de B.
 
Uma reunião no não-tempo dos dois artistas de gerações, pensamentos e continentes diversos, que nunca tinham se encontrado antes.
 
Os dois fantasmas flutuam serenamente nas cercanias de suas obras de arte, gravitando em torno delas num balé sem música, enquanto se encaram com o tédio conformado da eternidade.
 
Sou L., venho do Brasil, morei durante algum tempo em Paris, morri em 1988, como talvez você até saiba. Sei também quem é você, o famoso pintor B., que morreu tão jovem, acidentalmente, em 88. Lamento muito”. L. apresenta-se com segurança.
 
L. falecera no Rio aos 68 anos, tinha sido uma artista significativa e corajosa junto aos movimentos artísticos da segunda metade do século 20 e suas propostas estimulantes estavam tendo reconhecimento nos grandes centros culturais contemporâneos de todo o mundo. Daí a presença de suas obras em vários museus e em certames nos pontos mais variados do planeta. 
 
L. que não fora de viajar muito, agora como fantasmagoria célebre estava indo a 
vários locais distantes. Chegara recentemente de Santiago do Chile, onde gostara bastante de um museu recém-inaugurado e de conversar com outros fantasmas de artistas que por lá circulavam.
 
É, foi bem lastimável mesmo. Naquela época tudo estava dando certo para mim. Foi chato, eu tinha muito o que fazer ainda e virar fantasma assim, tão rapidamente, não estava nos meus planos naquele instante.” responde B. com melancolia.
 
B. morrera de overdose de drogas com apenas 27 anos em 1988, em Nova York, no início de um estrelato fulgurante com a sua pintura, muito original, alegre, povoada de ícones e de textos, garatujas e graffitis, de construção dita “jazzística”, segundo os críticos mais entusiasmados. Tornara-se assim imediatamente um herói negativo, um daqueles que perderam algo, impedidos instantaneamente de realizar todo o seu potencial, mas que permanecem mitos. Idolatrados, como o guitarrista negro e o ator branco, também mortos prematuramente. 
 
B. tornara-se um fantasma mas não se percebera direito nessa nova condição.
 
Tentara em vão interferir no universo dos vivos e aos poucos entendera que podia circular livremente por onde estava a sua obra e até mesmo conversar com outros fantasmas que encontrasse vagando por ali, no espaço virtual, mas nunca poderia ser visto ou comunicar-se com o espaço da natureza tangível. 
 
Porque você ainda fazia a pintura?” dispara L. em sua voz de fumaça, curiosa.
 
Porque você já não pintava ou nem fazia mais as suas esculturas, tia?” retruca B., irônico e provocativo, da aristocracia de sua juventude truncada.
 
Eu já tinha superado a vaidade e o hedonismo, queria fazer com que todos se sentissem artistas, intensos, vivos, participativos… eu passei a ser uma não-artista, estava mais ocupada com outros conceitos, muito mais complexos.” responde L. na defensiva, atacando, na sua linguagem universal, um pouco em espanhol e um tanto mais em francês, algo um pouco estranho para uma mineira tão carioca.
 
B. que tinha sido nova-iorquino, era descendente de haitiano e portoriquenha, entendia bem o francês do pai e falava fluentemente o espanhol materno. Eram as suas línguas nas ruas juntamente com o inglês da grande metrópole.
 
Pode ser, tia… mas é paradoxal, nem todos são artistas, como nem todos podem ser médicos, ou dentistas ou até mesmo policiais, você não teria gostado, viva, de ser atendida por um não-médico, por um não-dentista num caso agudo, numa emergência…não é verdade?... Além disso, nos locais por onde circulo agora, que são os museus e as exposições onde estão as minhas pinturas, tenho encontrado de vez em quando, os seus trabalhos. Muito bons os seus Bichos, e percebo que as pessoas, que não são artistas, se surpreendem, gostam bastante e comentam isso entre si… em Berlim, em Paris, em Barcelona, aqui em Nova York …e ninguém fala que você é uma não-artista, falam que a obra é muito boa, elogiam muito…” completa B., suavemente.
 
Paradoxo é fazer pintura, quando se sabe que  a pintura já estava morta e enterrada há tanto tempo…, e não me chame mais de tia! Aliás, você saiu do jogo cedo demais, no mesmo ano que eu, mas sem viver a vida, integralmente…” responde L., com certa aspereza. 
 
Ahhh, tia… foi um brutal erro de cálculo! Mas os que compraram a minha pintura acertaram direitinho nos seus próprios cálculos, confiaram nos seus narizes…e resultaram satisfeitos e muito ricos”, diverte-se B. soltando uma gargalhada fantasmagórica. “Agora, paradoxo mesmo é dizer que a pintura e a Arte estão mortas, e testemunhar os museus cada vez mais cheios de gente interessada, aqui e em todos os lados dos oceanos…” completa B. ainda rindo de maneira sobrenatural.
 
Minino…!” escapa com algum sotaque mineiro a expressão da fantasmagoria internacional, “…nem todos puderam entender completamente o que fiz na continuidade, uma forma artística de expressão etérea, muito original, criada pelos sentidos dos próprios participantes, com as suas presenças, com o seu tato, com a percepção das texturas diversificadas, das temperaturas cambiantes dos objetos e dos ambientes, tudo aquilo que não se percebe habitualmente…isso também deve ser encarado como Arte”,  sentia-se uma certa inconformidade nas palavras exaltadas da fantasma.
 
Veja que as bienais de arte mais avançada em todo o mundo e as escolas de arte contemporânea nos melhores centros, acabaram com tudo isso, nesses lugares não existe mais a pintura, o desenho, a gravura e a escultura convencionais, ensinam-se e discutem-se outras coisas, tudo muito mais próximo ao jeito que eu fazia…não será esse um novo caminho, uma nova luz?” continua L. com severidade nos argumentos de sua esgrima. 
 
Pode ser, tia…pode ser, mas o que vejo concretamente é o interesse e o entusiasmo com que todos manipulam as suas esculturas, os Bichos, que se fazem tão bonitos quando essas pessoas redescobrem neles novas formas nos desdobramentos e nos planos que vão mudando pelos gestos, nas trocas das luzes e das sombras… a gente pode dizer que são esculturas, não é mesmo…?” comenta sorridente o fantasma mais jovem.
 
…e ainda existe o público, o grande público fora da academias, fora das escolas oficiais de arte, o que anda pelas ruas, o que constrói a cultura real nas cidades, o que coloca os objetos de arte nas suas casas e nos locais de convívio, o que viaja para ir aos museus, o público que verdadeiramente são todos eles, os que vêem, os que lêem, os que ainda se divertem, se emocionam e pensam sobre o que fazemos… ou melhor, fazíamos…” completa B. com algum sarcasmo.
 
O fantasma de L. fixa um olhar gelado e inquisidor sobre o fantasma de B.
 
Ficava dificil contestar quando se está frente a tantas afirmativas comprovadas, e ela era uma fantasmagoria sensível aos comentários também positivos e genuinamente surpreendidos do público acerca a pintura vigorosa de B. Ela não podia negar ou menosprezar isso. 
O público, aparentemente, gostava do que via, ela sabia que todos os dias vinha cada vez mais gente observar o seu próprio trabalho e também aquela pintura esquisita mas bem interessante, que ela julgava extemporânea, mas que reunia tanta gente à sua frente, durante alongados períodos de tempo. Vinha gente de todos os cantos do mundo, de todas as raças e etnias, interessados, que ficavam analisando o trabalho de ambos. Ora o de um, ora o do outro, com muita atenção. Acontecia invariavelmente assim, todos os dias.
 
L. continuava a considerar tudo aquilo um estranhamento e um paradoxo.
 
Pelo outro lado, o fantasma está pairando por ali bem mais leve, percebe-se até um sorriso sutil na fumaça azulada de B.
 
As duas névoas esvanescentes ficam se olhando através de suas próprias obras, agora em silêncio absoluto. Dentro de umas poucas horas, o museu estará novamente aberto, repleto de gente, algum alarido às vezes estridente de vozes, muitos sussurros e a paradoxal perpetuidade da presença daqueles dois artistas, consagrados pelo reconhecimento internacional, tangibilizada nas obras impecavelmente expostas e descritas com informações minuciosas nas etiquetas museográficas.

   


 

 

© Alfredo Aquino - Publicado pela revista GETULIO, São Paulo

publicado por ardotempo às 01:04 | Adicionar