"Desde Havana" - Yoani Sánchez

© Museu da Pessoa- Entrevista concedida por Yoani Sánchez , desde Havana, ao jornalista Mauro Malin do Museu da Pessoa (escute a íntegra em áudio, gravado em espanhol)

 

"CUBA ME DÓI" - Yoani Sánchez

 

Família humilde num bairro popular

 

Museu da PessoaFale-nos de seu nascimento, por favor.

Yoani Sánchez – Me chamo Yoani Sánchez, tenho 32 anos, nasci na cidade de Havana de uma família muito humilde. Meu pai se chama Willy e é ferroviário. Foi maquinista em estrada de ferro até a crise econômica dos anos 90, quando todo o sistema ferroviário em Cuba entrou em colapso, e agora ele conserta bicicletas. Minha mãe, Maria, também trabalha nos transportes, táxis. Tenho uma família pequena, com uma irmã um ano mais velha.

MP Os seus pais têm irmãos?

YS – Não. Minha família é muito pequena, porque meus avós são imigrantes da Espanha, das Ilhas Canárias e de Astúrias, chegaram a Cuba no início do século XX. Não tenho uma família grande em Cuba. Também não tenho contato com minha família na Espanha. Em Cuba, a família está muito espalhada e não temos contato.


Nasci num bairro de Havana que se chama Centro Havana. Um bairro que não é turístico, é um bairro muito popular. É a zona de Cuba com mais habitantes por quilômetro quadrado. E nesse bairro muito humilde, com uma mistura de marginalidade e gente do povo, cresci até os 15 anos.


Meus pais são pessoas muito jovens. Minha mãe nasceu em 1957, tem 51 anos. E meu pai tem 54 anos.

MPNasceram, portanto, já quase chegando o momento da mudança de regime em Cuba.

YS – Meus pais pertencem à geração das pessoas que eram muito crianças ou que nasceram depois do triunfo da revolução e, de alguma maneira, deram seus melhores anos, seu tempo e sua energia para a construção de um projeto social que nunca chegou a se concretizar tal como o haviam imaginado.


Sempre, desde pequena, gostei muito de literatura. Ler, procurar e colecionar livros. Foi um hobby que herdei de meu pai. Meu pai não tem uma formação universitária, mas é muito bom leitor.


Quando terminei o ensino médio, quis estudar jornalismo. Mas não foi possível. Então, fui para o Instituto Pedagógico e aí estudei dois anos para ser professora de espanhol e literatura. Mas a pedagogia não era meu mundo. Preferia a literatura. E assim, em 1995, mudei para outra especialidade, a de filologia hispânica.


Nesse momento tive meu filho, que agora tem 12 anos e se chama Teo. Me graduei na universidade em 2000, com uma tese chamada “Palabras bajo opressión – Un estudio sobre la literatura de la dictadura en Latino América”. Essa tese me trouxe muitos problemas na universidade e na minha subseqüente vida profissional.

Leitura, de pai para filha

MPQual foi sua escola primária?

YS – Eu estudei numa escola primária, regular, normal, que se chamava República Popular Chinesa, num bairro relativamente marginal. Mas fui feliz. No meu primário tive muitos amigos e bons professores. Depois passei a uma escola secundária que se chama Protesta (Protesto) de Baragua(á). O nome vem de uma data histórica importante da Guerra de Independência de Cuba. Depois fiz o pré-universitário numa escola chamada Romênia, num momento em que a Romênia já não era uma república socialista.

MPA escola deu a você uma base de alfabetização e de interesse pela leitura?

YS – O gosto pela leitura me vem fundamentalmente de meu pai. Na escola aprendi muitas coisas, mas creio que em geral a educação em Cuba é um pouco mais passiva. As pessoas tomam o conhecimento dos livros que o professor dá, mas tem muita importância a orientação que os pais dão em casa. E graças a meu pai, que me interessou muito no mundo na literatura, li muito em menina. Isso me ajudou também a passar longas horas de aborrecimento na infância. A literatura me ajudou a sair desse aborrecimento.

MPPor que seu pai gosta tanto de ler?

YS – Penso que meu pai gostava de ler também por uma questão de trabalho. Tinha que ficar muito tempo fora de casa, quando trabalhava na ferrovia, talvez longas horas esperando dentro da locomotiva para partir em viagem, e adotou a literatura como divertimento, como compensação para as horas de espera de sua profissão. E tinha uma boa coleção de livros em casa, sobretudo muitos clássicos. Minha literatura da infância não era uma literatura moderna. Era a literatura dos clássicos – Dostoiévski, Vitor Hugo, os clássicos gregos. E era uma época em que a produção de livros em Cuba era maciça. Imprimiam-se muitos exemplares de cada título e também se traziam muitos títulos impressos na União Soviética. Isso fazia com que o preço dos livros fosse acessível para qualquer pessoa. Não é mais assim. Agora os livros são bastante caros, e as pessoas talvez não comprem tantos livros como nos anos 70 e 80.

Adolescência com gosto de privação

MPComo foi sua adolescência?

YS – Tive uma adolescência feliz, tranqüila. Vivi em Havana, nessa época. Mas o fundamental de minha adolescência foram as aflições materiais, produto da crise econômica cubana. Em 1990 eu tinha 15 anos. Um ano antes havia caído o Muro de Berlim e uns meses depois se desmembrava a União Soviética. E isso marcou toda a minha geração. A mim, particularmente, porque me marcou muito materialmente.

 

Meu pai perdeu seu trabalho. O trabalho de minha mãe, que era vinculado ao transporte, também sofreu muito devido à questão do petróleo e da ausência de gasolina. Assim, recordo minha adolescência mesclada com as limitações materiais. Saber que não havia muitas coisas, justo no momento em que um adolescente quer começar a exibir a moda, a música, os penteados. As pessoas de minha geração passamos por momentos muito extremos de carestia e de ausência de produtos.

MP Você teve festa de 15 anos?

YS – Não tive. Em Cuba é uma tradição celebrar a festa de 15 anos, mas na época em que me coube, em 1990, a crise era tamanha, e meus pais não tinham recursos, me disseram que em outro momento se faria a festa, e nunca se fez. Para mim, pessoalmente, não foi um problema, porque as festas de 15 anos em Cuba normalmente são muito kitsch, as adolescentes fazem fotos com roupas, com unhas de plástico, muita maquiagem, e eu nunca gostei disso. Senti, na verdade, um alívio ao saber que não havia festa de 15 anos...


Mãe aos 20 anos, na faculdade

MPComo foi a sua faculdade?

YS – Foi um período ao mesmo tempo difícil e lindo. Aos 17 anos conheci aquele que até hoje é meu marido, o jornalista Reinaldo Escobar, e comecei na faculdade de pedagogia para ser professora de literatura, mas não gostei do método de estudo: pedagogia em excesso e muito pouco de espanhol e literatura. Então decidi mudar para a especialidade de filologia. E bem nesse momento fui mãe, o que complicou muito as coisas, porque a crise econômica em Cuba permanecia forte, eu tinha um bebê, e tive que fazer um pouco de mágica para poder estudar na universidade e criar meu filho.

MPEu queria que você falasse um pouco da maternidade.

YS – Sou uma mãe muito feliz com meu filho. Ele se chama Teo, é um garoto muito esperto, gosta muito de ler, como eu. Herdou o vício da leitura de sua mãe e de seu pai. Sempre encarei a maternidade com muita alegria. Mesmo nos momentos mais difíceis na universidade, quando estava totalmente em desvantagem em relação a meus colegas, que não tinham filhos, de todo modo eu era muito feliz por ser mãe. E agora estou muito mais feliz porque já tenho um filho de 12 anos com quem posso conversar, com quem posso entender-me perfeitamente. Agora que minhas amigas que esperaram tantos anos se decidiram a ser mães, já sou mãe de um filho adolescente. Tenho um filho muito lindo, que parece um taíno cubano – taíno é o nome dos indígenas cubanos que viviam aqui antes da chegada de Colombo...

MPOs taínos foram praticamente exterminados...

YS – Sim, mas sobraram alguns. Meu marido é descendente de índios cubanos e meu filho parece um taíno, é um taíno típico... muito taíno.

MP Onde ele estuda?

YS – No secundário. Em alguns dias vai terminar o sétimo grau e ainda não sabe que profissão quer seguir. Gosta muito de literatura, mas também de informática. Quem sabe termina sendo blogueiro, como sua mãe...


Para voltar a morar em Cuba, passaporte destruído

MP Fale de suas viagens dentro e fora de Cuba.

YS – Gosto muito de viajar dentro de Cuba, mas nós, cubanos, temos muitas limitações para viajar dentro do nosso país. Primeiro porque viajar dentro de Cuba implica longas filas para comprar passagem de ônibus, avião ou trem. O transporte em Cuba está atualmente num estado catastrófico e passou por anos muito difíceis. Por isso viajamos pouco dentro do nosso país, devido a todas essas limitações de transporte. De todo modo, tenho amigos no Oeste, em Pinar del Río, onde vou freqüentemente. Também gosto muito do Centro da Ilha, as montanhas de Escambray, acampei aí com amigos. Em geral, gosto muito da natureza do meu país, das pessoas.


Para fora de Cuba viajei em 2000, para a Alemanha. Tenho muitos amigos na Alemanha, porque sempre gostei da língua alemã, graças a minhas leituras de adolescência, quando li Thomas Mann, Hermann Hesse. Me veio daí muito prazer com o alemão e continuei estudando alemão. Isso fez com que eu tenha muitos amigos em países de língua alemã, como Alemanha, Suíça e Áustria.


Meus amigos, quando terminei a universidade, em 2000, me convidaram para um mês de férias na Alemanha. Foi uma viagem muito importante para minha vida. Estive também na França.

MP Em que cidades?

YS – Na Alemanha, muitas cidades. Berlim, Frankfurt, Hamburgo, Heidelberg. Na França, Paris.


Em 2002, a asfixia econômica em Cuba e também a sensação de asfixia pela falta de liberdade me levaram a emigrar para a Suíça, graças, igualmente, a amigos que me ajudaram nesse projeto. Lá vivi dois anos. No último ano, com meu filho, que pude levar comigo. Mas depois de dois anos, por problemas familiares, tive que regressar a Cuba.


Voltei em 2004 de uma maneira muito louca. Quando nós, cubanos, vivemos mais de onze meses fora do país, já não podemos voltar a residir em nosso próprio país. Por isso, em 2004, tive que entrar como turista em Cuba e destruir meu passaporte para poder ficar. É algo muito raro. Não conheço muitos casos em que se tenha feito algo similar. Normalmente os cubanos fazem ações desse tipo para emigrar, não para imigrar.


Mas não estou arrependida do que fiz. Aqui tenho meus amigos, minha pequena família e muitos projetos. Então, no momento, sou feliz aqui. Queria viajar em maio, à Espanha, para receber o Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo, mas não me deram a permissão para sair. Para viajar para fora de Cuba, nós, cubanos, necessitamos de uma carta que nos autoriza a viajar, e o governo cubano negou essa solicitação de viagem.

MP Seu marido viajou com você?

YS – Meu marido também viajou à Alemanha, mas não viajamos juntos.

MP Em que cidade da Suíça você ficou?

YS – Vivi dois anos em Zurique, que fica na parte alemã.

Universidade da tolerância
 
MP Você pode falar um pouco de sua filosofia de vida?

YS – Eu me considero uma pessoa feliz. Tenho uma família creio que muito harmônica. Não gosto muito dos paradigmas, isto é, na minha vida não tenho grandes paradigmas de pessoas importantes ou gente famosa. Ao contrário, sou permanentemente influenciada pelas pequenas pessoas – meus amigos, alguém que compõe uma canção, alguém que me conta algo na rua –, não a influência dos grandes nomes da história ou da literatura, mas a das pessoas anônimas. Essas me influenciam muito mais.


E tenho também algumas premissas na minha vida. Uma delas é cada dia avançar um pouco mais na tolerância. Creio que a sociedade cubana necessita que os indivíduos aprendam a tolerar a diferença, as opiniões que não são similares às suas. Estou nesse aprendizado. Estou agora na universidade da tolerância. É um longo caminho, longo caminho de respeitar o que diz o outro, e acho que falta muito para que me forme e tenha um diploma... (riso). Acho que pelo menos estou no caminho.


A filosofia da minha vida é sobretudo tratar de ser feliz cada dia, com harmonia, com tolerância. Rir. Rio muito. Minha família é muito importante para mim, mas também meu país.
Não me agradam os apáticos e os indolentes. Meu país me dói. Tudo que acontece me dói, e creio que esse é também o combustível para fazer meu blogue. Se nada me importasse, se eu me alienasse de minha realidade, não escreveria as coisas que escrevo. Eu as escrevo precisamente porque Cuba me importa. E me importa porque quero que meu filho e meus netos não tenham que emigrar para poder realizar seus sonhos, ou para realizar seus projetos profissionais e pessoais.


Nessa direção emprego minha energia. Em fazer de Cuba um país onde se possam realizar os sonhos.

Ideologia e política

MPO que você me diz de ideologia?

YS – Nunca militei numa organização política, nunca, e não creio ter uma direção, uma linha política clara. Isso é algo que a pós-modernidade trouxe, também. Antes, era muito fácil definir as pessoas, os processos, como de esquerda ou de direita. Hoje, já não está tão claro.


Acho que uma das características deste momento é que já não é tão fácil dizer se alguém é de esquerda ou de direita. Eu, pessoalmente, não defino politicamente a mim mesma. Creio ter muita tendência para a questão social, mas fundamentalmente me considero uma cidadã, que emite opiniões, que faz perguntas, que questiona ou reivindica. Mas eu mesma não me defino com uma coloração política.


De todo modo, os temas sociais, a questão das minorias, dos mais discriminados, me interessam sempre muito. Mas a direita e a esquerda já não estão tão claras, já não é tão fácil defini-las. Penso que sou tão pós-moderna como a situação atual.

MPE a política? Ideologia é uma coisa, filosofia é outra coisa. Mesmo sem ser militante, existe política na sua vida.

YS Em Cuba, ninguém pode se manter à margem da política. Respiramos política, comemos política. Por quê? Porque a sociedade cubana está muito politizada. Eu nunca pertenci a uma organização política, mas isso não significa que não tenha uma projeção política. Muito bem. Essa projeção política não implica ter uma posição alinhada com o governo, ou contra o governo. Eu me considero – e nisso me defino como um elétron livre – uma pessoa que é da sociedade civil, tratando de descrever como vive e tratando de conectar-se com outras pessoas da sociedade civil.


Claro, para o governo isso é oposição. Mas eu mesma não me defino como uma opositora.
O que acontece é que o espectro de classificação que o governo usa para as pessoas independentes, alternativas, cidadãos com voz própria, ou com critérios próprios, como eu, é muito esquemático. Tudo é branco ou preto. E, para o governo, as pessoas que não aplaudem são opositoras.


Penso que essa saturação política da sociedade cubana, sobretudo nos meios de imprensa, de informação, criou nas pessoas o efeito contrário. Criou apatia, desinteresse. Fez com que muitas pessoas se fechem numa bolha, em suas casas, e não queiram ter contato com o mundo exterior, de tão politizado que está.


Ainda que eu me sinta uma pessoa com muito envolvimento político – gosto de ler as notícias, estar a par do que acontece –, creio que também tenho minhas zonas pessoais onde a política não entra, onde me refugio desse mundo político que normalmente se torna tão incompreensível para o cidadão. E essas grandes zonas onde me refugio da política são a literatura, minha família, meu lar, meus hobbies – a botânica, a jardinagem –, e assim me desligo dessa realidade tão excessivamente politizada.

A mágica de botar comida na mesa

MPO tema agora é alimentos.

YP – Esse capítulo, em Cuba, repousa fundamentalmente sobre os ombros das mulheres. Depois de 50 anos de projeto de emancipação feminina, na realidade em Cuba continuamos tendo uma estrutura machista da família e da sociedade. Então, as mulheres cubanas têm que fazer cada dia muita mágica, são umas verdadeiras magas, para poder colocar um prato de comida para os filhos, para os maridos, para a família.


No meu caso particular não é assim, porque tenho um marido muito emancipado (riso). Fazemos juntos todas as coisas da casa. Mas muitas mulheres têm uma verdadeira dupla jornada de trabalho. Uma fora de casa, em sua profissão, e outra quando chegam em casa.
A questão da comida é, no momento, uma preocupação geral dos cubanos. Primeiro, porque a maioria dos alimentos necessários para sobreviver não tem um preço correspondente aos salários. Os salários são em pesos cubanos; a maioria dos produtos que se vendem é em pesos conversíveis [pesos conversíveis valem 27 vezes mais do que pesos cubanos]. Essa esquizofrenia econômica, essa contradição monetária faz com que, para as mulheres, seja uma verdadeira angústia diária achar o que colocar na mesa.


Eu não me considero uma pessoa consumista. A crise econômica dos 90 me fez saber que posso viver com muito pouco. Isso é importante. Porque me parece que essa mesma crise econômica criou em muitas outras pessoas um apetite voraz, uma falta de medida na hora de consumir. No meu caso particular, criou o efeito contrário: saber que necessito de muito pouco para sobreviver. Meu marido brinca comigo e diz que eu tenho “alma de faquir”, porque sou uma pessoa que, se tem comida, perfeito, se não tem, não importa, tenho outras coisas que também me dão gosto e me divertem, entretêm.


Mas acho que a angústia principal que passo a cada dia é alimentar meu filho. Acredito que isto gera muita tensão para as mães: ter um filho adolescente, que precisa alimentar-se, porque é magro e pequeno, e saber que materialmente não conseguimos lhe dar tudo de que necessita. De toda forma, como aprendi essa mágica, como todas as mulheres cubanas, quase todo dia posso resolver a questão alimentar com muita, muita criatividade, muita imaginação e muito tempo fazendo fila, muito tempo inventando, muito tempo preparando os alimentos.


Tênue fronteira da legalidade

 

MP Você nunca teve a tentação de fazer alguma coisa ilegal?

YSNós, cubanos, necessitamos cada dia fazer muitas coisas ilegais para sobreviver. Quase a cada minuto temos que transpor a linha entre a legalidade e a ilegalidade, para tudo. Porque em Cuba o mercado negro é muito importante para sobreviver. Sem o mercado negro, sem os produtos que nos são trazidos à porta de casa, sem os vendedores ilegais, muitas famílias estariam muito mal. Por isso acredito que faço, sim, coisas ilegais, como 99% dos cubanos têm que fazer para sobreviver.

MPVocê nunca teve vontade de ser, vamos dizer, mais rica do que seus vizinhos, ou com a vida melhor, fazendo permanentemente uma atividade ilegal?

YS – O que acontece é que em Cuba há muitas coisas proibidas. Por exemplo, talvez a maioria pense que fazer um blogue, escrever opiniões na internet, pode ser proibido. Portanto, pode ser que sim, que eu faça coisas proibidas e ilegais. Mas não me dedico a nenhuma atividade ilegal que fira minha consciência. Todas as vezes que passo a linha da ilegalidade é para sobreviver, para alimentar minha família. Não estou vinculada a nenhum tipo de negócio ilegal. Acho que me considero impedida de fazer essas coisas também por uma questão de educação e de ética.


De todo modo, na sociedade cubana todas as limitações legais e as proibições fomentam muito a ilegalidade. Por isso, de alguma maneira todos somos um pouco delinqüentes.

Estantes solidárias
 
MP E os alimentos para a mente? Quando eu estive em Havana, não tinha muito livro para comprar, era difícil.

YS – Eu tenho uma magnífica coleção de livros em casa, uma biblioteca muito boa. Em parte são livros meus que arrasto desde a infância e outros são livros de meu marido, que também foi acumulando muita literatura em toda a sua vida.


Mas paralelamente a isso há uma espécie de rede de distribuição de livros entre amigos. Decidi há anos que o mais importante para mim é ler os livros. E, uma vez lidos, já não me importa tanto conservá-los. Por isso leio os livros e os passo a outras pessoas.


E assim acontece com muita literatura que em Cuba não é vendida em lugar nenhum ou está proibida. Penso, por exemplo, nos romances de Milan Kundera, que jamais foram vendidos em Cuba. Penso nessa literatura de exilados cubanos pelo mundo, Cabrera Infante, Jesus Diaz, Eliseo Alberto Diego, que nunca se vendem nas livrarias cubanas – e posso ter um problema, ficar malvista se tiver um livro desses na mão e alguém me vir.


Mas graças aos amigos, a essa rede alternativa e subterrânea que muitas pessoas se dispõem a fazer, trocando livros, estou muito atualizada em matéria de literatura internacional. Funciona assim. Os alimentos para a alma também implicam transpor a linha da legalidade.

Informática abafou a lingüística

MP – O que diz da tecnologia? Você disse que montou seu próprio computador.

YS – A informática e a computação são hobbies meus há mais de 14 anos. É um hobby que pouco a pouco foi deslocando minha profissão de filóloga. Hoje me considero mais informática do que filóloga, porque passo mais tempo programando, desenhando páginas web, consertando códigos HTML do que fazendo um trabalho de lingüística.


Faz 14 anos, tive meu primeiro computador, montado com peças do mercado negro, e a partir de então eu, e muitos jovens como eu, soubemos substituir com peças do mercado negro, com invenções, com verdadeiros Frankensteins a ausência dessa tecnologia nas lojas e a impossibilidade material de ter acesso a um computador novo, legal, com nota de compra.
Isso caminhou assim até mais um menos dois meses atrás, quando o governo de Raúl Castro autorizou a venda de computadores legalmente.


Graças a essa inventiva, a essa criatividade, e à ousadia que nós, cubanos, temos para fabricar engenhos tecnológicos, pude desenvolver essa segunda profissão, que é a informática.

Anonimato e protagonismo

 

MP Fale-me agora de duas coisas contraditórias: o anonimato e o protagonismo. Primeiro, o anonimato. Você é anônima para os seus vizinhos, você anda no seu bairro pelas ruas e ninguém sabe direito quem você é?

YS – O processo de passar do anonimato em que eu vivia para estar no centro dos meios de imprensa de muitas partes do mundo foi muito rápido para mim. Eu, particularmente, sempre fui alguém que gostava da privacidade, da intimidade e do anonimato. Acho que não há adjetivo que um cidadão receba com mais felicidade do que o ser anônimo. Um cidadão normalmente é anônimo, desconhecido, pequeno.


Essa questão do estrelato, de estar nos jornais e na televisão de quase todo o mundo trouxe algumas mudanças para minha vida. Os jornalistas me perguntam mais, recebo mais telefonemas. Mas creio que na essência sigo mantendo um mundo privado, íntimo, muito fechado.


Eu prefiro o anonimato. O anonimato me permite criar com mais tranqüilidade, observar com mais objetividade. E penso que se os políticos tivessem a intenção de ser mais anônimos, menos espetaculares, os problemas que temos se resolveriam melhor. Quando a política deixar de ser um palco onde se procura brilhar e exibir-se e se converter num grupo de pessoas anônimas que tentam resolver os problemas e administrar um país, acho que muitos dos problemas que temos agora começarão a ser solucionados.


Diante da dicotomia entre anonimato e estrelato ou publicidade, fico com o anonimato, que é sempre muito mais real, mais autêntico, mais espontâneo. E mais duradouro. Porque os palcos, a imprensa, tudo isso passa, e no final cada pessoa fica com si mesma, e ela mesma é o ente mais privado, mais íntimo que possa encontrar.

Sonho: viver numa Cuba plural
 
MPQuais são seus sonhos?

YS – Tenho muitos sonhos. Acho que se alguma coisa me caracteriza é que estou constantemente sonhando. Tenho sonhos de viver numa Cuba plural, inclusiva, onde caibamos todos.


Tenho o sonho de escrever um livro, publicá-lo, ver meu nome na capa, isso me agrada muito. Como toda filóloga, toda apaixonada pela literatura, creio que a máxima realização seria começar a publicar meus textos, a escrever, e que os outros leiam o que escrevo.


E os sonhos têm relação, sobretudo, com meu filho. Quero que meu filho encontre um espaço nesta Cuba onde hoje tantos jovens emigram, que ele não tenha que emigrar para ter uma profissão, para poder ter um teto próprio, para poder manter sua família.


E também seguir junto a meu marido e ao grupo com que trabalho no portal Desde Cuba (www.desdecuba.com), fomentando e alimentando a sociedade civil cubana. Sonho que essa sociedade civil desperte, que não se deixe guiar por ideologias nem por líderes carismáticos, e que sinta que o país pertence à sociedade civil, que somos nós os responsáveis pelo que aqui se passa.

 

Entrevista por Mauro Malin - © Publicado pelo Museu da Pessoa

  

publicado por ardotempo às 17:14 | Adicionar