Conto-carta de IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

 

O ônibus da madrugada

 


    Glorinha, amiga do coração,

    Sei, percebi tudo ontem, ficou claro e este bilhete é o da minha libertação...

    ... descobri à  medida que o ônibus avançava pela Marginal do Tietê e o cansaço me dominava, o amargo subia, eu me enchia de decepção, perguntando o que estou fazendo aqui? O que estamos todos fazendo?


    ... não, não estou mais dominado pela ambição de vencer na vida, naquele sentido que todos davam ao tema na década de 70 e se avolumou nos 80, com aquela cambada de yuppies...


    ... naquele momento, na madrugada, quatro horas, todos dormiam no ônibus, olhei as ruas desertas, deixei de compreender minha presença


      na cidade... corríamos por entre fábricas, depósitos, galpões, novos,
em construção, velhos, caindo aos pedaços, vidraças rompidas, telhados caídos, ruínas, terrenos estaqueados, empresas de plásticos, tecidos, autopeças, trilhos de trem, roupas, misturadoras de concreto com suas torres vermelhas e centenas de caminhões betoneiras, linha de frente avançada de um exército pronto a atacar, e começaria  pela manhã a levar concreto para mais um prédio, outro, outro, e dezenas centenas...


    ... prédios serão novos apartamentos, milhares, escritórios, milhares, para abrigar gente e gerar emprego a render dinheiro, tudo o que estava à minha volta era para fazer dinheiro, bares, casas, armazéns, lojas, mercadorias empilhadas, vagões de carga prontos a conduzir, empresas de transporte, fachadas de vidros, aço, pastilhas, tijolos, concreto aparente, prédios dominados pelo cinza, cobertos de poeira, limalha de ferro, fumaça que respiro,  sufoca, tudo para fazer dinheiro...


    ... a nossa finalidade é fazer dinheiro, produzir, vencer, possuir, ter, acumular, investir, crescer, evoluir, aumentar o pib, o pob, o pub, a pqp...


    ...ônibus passando por anúncios luminosos, néon e eletrônicos,
out-doors, cartazes, letreiros, faixas, o cansaço era visual, físico...


    ... não, não é a luta que desejo, que busco, todo o sentido da cidade e do mundo reunido nessas quadras, cada tijolo, prego, telha, sacos de cimento e cal, parafuso  a serviço do vencer na vida, pequenas empresas, grandes, indústrias, industriazinhas, telhados, muros, portas, janelas, vitrines, padarias, farmácias, quitandas, bancas de camelô, bancos, em tudo a marca das coisas que eu nego e me sufocam...


    ...não fui feito para isso, não admiti por anos e anos, e minha barriga cresceu, inchou, meus olhos se gastaram, meus ossos doem, nem sei porque estou  contando estas coisas, nem sei porque não fiquei naquele ônibus e me afastei, desci na rodoviária e vim para minha casa, entrei...


    ...entrei, porque há trinta anos abro este portão que vou reformar um dia, há trinta anos coloco a chave na fechadura...


    ...há trinta anos tiro os sapatos na sala, vou para a pia do banheiro, lavo o rosto com água fria, muito fria...


    ...e me deito pensando ...e me deito pensando...
    ...e me deito pensando...
    ...pensando que amanhã vou mudar tudo.
 
    Você ainda acredita em mim?

    Com a profunda amizade do

    Leon

 


 

 

© Ignácio de Loyola Brandão - Cartas, Iluminuras, 2005

Foto de Irving Penn - Embalagem, 1975

publicado por ardotempo às 23:50 | Adicionar