Consistência

Texto de António Lobo Antunes

 

 

 

Quem inicia um trabalho sabendo o que vai fazer faz mal. Faz idêntico ao anterior. Faz previsto. Faz aquilo que a preguiça do leitor espera.

 

Escrever

                (ou pintar, ou compor)

                é ser vedor de água. Caminhar com a varinha, à procura, até que a vara se inclina e anuncia

                - Aqui

                e então a gente pára e cava. E existe tudo, lá no fundo, à espera.

 

Escrever

               (ou pintar, ou compor)

                consiste em trazer para cima. Se a gente apanha o que está em cima  faz o que se vê nas livrarias e nas galerias, que apresentam o óbvio. O óbvio tem sucesso enquanto o hoje é hoje. Mal o hoje é ontem ganha ranço. As livrarias vendem livros rançosos, as galerias expõem quadros rançosos. Claro que tranquiliza comprar coisas com prazo de validade. Claro que não são boas, e isso, por estranho que pareça, é tranquilizador também. Se tivermos à frente Tolstoi aqui à esquerda e o jornal à direita, começamos sempre pelo jornal. O problema é que o jornal da semana passada é o jornal da semana passada e Tolstoi o jornal de todas as semanas, de modo que o jornal da semana passada se deita fora e Tolstoi fica.

 

Quero que o leitor esteja comigo. Que venha comigo. Que seja vedor de água também. Por isso recuso antologias, colecções, embaixadas, grupos: prefiro estar sozinho, ao acaso no campo, com a minha vara. Ela há-de inclinar-se, e os meus leitores e eu com ela, enquanto os outros discutem, lá em cima, dissertando sobre os ontens, louvando-se, invejando-se. É que, honestamente, só há grupos onde há fraquezas individuais.

 

                 ...os únicos livros que podem vir a ser bons

                 (e nunca é certo)

                 são aqueles que a gente tem a certeza de não ser capaz de escrever. Só essa luta contra a resistência do material, das frases, das cores, nos pode permitir, com alguma sorte pacientemente conquistada, entrar, nem que seja por um bocadinho, no coração da vida. E só assim a arte é, não apenas a nossa condenação, mas a única possibilidade de salvar-nos, ou seja deitar a cabeça em paz, quando chegar a hora, sem vergonha nem remorso.

 

 

© António Lobo Antunes - "Explicação aos paisanos"

Extraído de Quem me assassinou para que eu seja tão doce? - Dom Quixote, Lisboa, 2008

Pierre Alechinsky - Jeu, Litogravura, 2002

               

publicado por ardotempo às 22:57 | Comentar | Adicionar