Multidões

Manifestações e quietude

 

Com um intervalo de poucos dias, uma multidão de adeptos da igreja Renascer em Cristo e uma multidão de gays e simpatizantes encheram as ruas de São Paulo, recentemente. Fora a sua proximidade no tempo e o número impressionante de participantes das duas, uma manifestação nada tem a ver com a outra.

 

Não servem para nenhum tipo de sociologia rápida e, juntas, não dizem nada sobre o momento do país e do mundo, além de renovarem nosso espanto com a diversidade humana.


Há paradas gay como a de São Paulo em várias outras grandes cidades e a força das seitas neopentecostais no Brasil também não é novidade.

 

Gente marchando pela sua fé ou pela sua opção sexual está exercendo sua liberdade; desde que as marchas não coincidam e dê confusão, como num encontro de torcidas, nada a comentar.

 

Salvo, talvez, no caso, o fato de as duas manifestações terem um caráter de desafio ostensivo.


Os homossexuais chamam o seu desfile de gay pride, orgulho gay, e
embora o preconceito contra gays seja uma coisa cada vez mais remota o
ressentimento persiste, e até os excessos da parada são uma forma de
compensar os anos de discriminação e segredo. O tamanho da
manifestação dos fiéis da Renascer em Cristo teve muito a ver com o
fato de a igreja ter estado no noticiário, com a prisão dos seus
líderes nos Estados Unidos. Também foi um desafio, uma proclamação de
que a fé e o orgulho não dependem do noticiário, ou da culpa ou
inocência dos líderes. O que também não deixa de ser um exercício de
liberdade.


No fim, só nos cabe especular que outras causas levariam tanta gente
para a rua no Brasil, hoje. Mas isso é o ressentimento falando.


Li num livro fascinante chamado "Mr.Wilson's Cabinet of Wonder", sobre
um museu de excentricidades em Los Angeles, escrito por Lawrence
Weschler, que um armênio chamado Hagop Sandaldjian emigrou para os
Estados Unidos e levou consigo a arte de fazer arte em miniatura, que
aparentemente era uma tradição na sua terra. Mas Hagop não fazia
pinturas em cabeças de agulha — fazia esculturas em cabeças de agulha.
Usando coisas como grãos de areia e fiapos de tecido, com instrumentos
que ele mesmo inventara — alfinetes com rubi abrasivo ou pó de
diamante na ponta — esculpia as figuras de Chapeuzinho Vermelho,
Napoleão, Pato Donald, o Papa João Paulo II todo paramentado e
abanando para os fiéis, Branca de Neve com todos os sete anões, ou
minianões, que depois pintava com pincéis feitos de um único fio de
cabelo.


Weschler descobriu com um filho dele, chamado Levon, que Hagop era
provavelmente o único microescultor do mundo, e que costumava
trabalhar tarde da noite, quando os filhos dormiam, a casa silenciava
e o trânsito nas auto-estradas de Los Angeles diminuía. Então se
debruçava sobre seu microscópio e fazia suas esculturas, segundo
Levon, entre as batidas do seu coração. Como o menor tremor da sua mão
impossibilitaria o trabalho, Hagop não podia arriscar nem a
microvibração do sangue pulsando em suas veias. Sincronizava os
movimentos dos seus alfinetes e pincéis de um só fio com os movimentos
do coração e fazia a sua arte nos rápidos intervalos de quietude
absoluta.


A história do filho provavelmente não é verdadeira mas há uma metáfora
aí, em algum lugar, nesse espaço picotado da criação particular. Essa
idéia de uma quietude perfeita que carregamos conosco sem saber por
que o pulsar da vida nos distrai. Ou a idéia de que sístole e diástole
todo o mundo tem mais ou menos parecido, mas o microinstante no meio é
de cada um.
 

Luis Fernando Verissimo

Foto de Carles Santos

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publicado por ardotempo às 22:54 | Comentar | Adicionar