A forma da leveza

Texto do escritor e crítico João Paulo Sousa - Da Literatura
 
Catorze anos depois da morte do importante pintor brasileiro, abre hoje as portas ao público, em Porto Alegre, o edifício concebido por Álvaro Siza Vieira para albergar a Fundação Iberê Camargo e preservar o vasto acervo do artista, constituído por pinturas, desenhos, gravuras e documentos. Consciente da importância do acontecimento, o jornal Público colocava ontem o assunto nas páginas 2 e 3 da sua edição em papel, com uma entrevista ao arquitecto português, uma breve reportagem sobre as reacções ao edifício, que conquistou o Leão de Ouro na Bienal de Arquitectura de Veneza de 2002, e a crítica especializada de Ana Vaz Milheiro. Segundo ela, Siza, que deixa no sul do Brasil uma obra­‑prima, "intromete­‑se num dos mitos fundadores da nação brasileira: a antropofagia"; tal ficará a dever­‑se ao facto de ele, em parte por apoiar­‑se em Lina Bo Bardi "para desenhar os tubos exteriores que assinalam a imagem de marca do edifício", poder "colocar os brasileiros a falar sobre o sentido das suas tradições modernas e de como estas podem ser apropriadas na contemporaneidade, e de fazê­‑lo numa perspectiva provocadora".
 

As imagens que já tive ocasião de ver do novo museu, nomeadamente no ARdoTEmpo (aqui e aqui), justificam a sua aproximação à ideia de escultura. A forma, que parece surgir do chão, numa espécie de crescendo, é simultaneamente leve e dinâmica, com o betão branco das paredes a irradiar calor e a proporcionar tranquilidade. Têm, a partir de agora, mais razões para sair à rua os cidadãos de Porto Alegre.

Na entrevista que concedeu a Nuno Amaral, no Público, Siza queixa­‑se do abandono a que algumas das suas obras têm sido votadas no nosso país, citando o caso do Pavilhão de Portugal, em Lisboa, junto ao Tejo, entregue a um esquecimento deprimente, depois do vultuoso investimento financeiro que representou. Por outro lado, os insultos que, por causa da renovação da Avenida dos Aliados, no Porto, lhe foram lançados, e de que ele se queixa justificadamente, servem para reforçar o seu desagrado quanto à possibilidade de continuar a trabalhar por cá, o que ele, felizmente, ainda não deixou de fazer. Se há quem, perdido no gosto pelos canteiros ornamentais (o que talvez se pudesse curar com uma leitura atenta de Adolf Loos), aparenta dificuldade em compreender a linguagem tão clara e luminosa de Siza, outros refugiam­‑se na ignorante afirmação de que "as coisas sempre foram assim e não é agora que devem mudar" para se oporem a qualquer tipo de transformação, embora, decorridos alguns anos, já se tenham esquecido do que antes haviam afirmado e estejam então disponíveis para defenderem o edifício ou o espaço a que entretanto se habituaram. Talvez essas incongruências pudessem ser evitadas se os seus responsáveis não se empenhassem tanto em ter opiniões sobre tudo, uma vez que isso acaba por ser o equivalente a não se ter opinião sobre nada.
 

João Paulo Sousa - publicado no blog Da Literatura   - 31.05.2008

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