Ausência de mim mesmo em mim mesmo

Sem sofrimento nem dor

 

António Lobo Antunes

 

Ontem, a meio da tarde, o meu pai disse

 

- Ai filho

 

e ficou-se como um passarinho, sem sofrimento nem dor. Não aborreceu ninguém. Aliás, durante toda a vida, pelo menos desde que o conheço, nunca aborreceu ninguém. Antes calculo que também não, era a paz em pessoa: gritos, zangas, impaciências foram coisas que não lhe vi. Passava as tardes na sua cadeira, a olhar a janela, quase não comia, quase não falava a não ser para garantir

 

- Estou bem

 

a minha mãe foi-se embora com o irmão dele, era eu pequeno, informou

 

- Vou viver com o Zé

 

e até hoje, não houve cenas, partes-gagas, discussões, o meu pai e o meu tio levaram-lhe, a meias, a bagagem, despediram-se no passeio e não tornei a vê-los. Não fiz perguntas e o meu pai não me explicou nada, deixou falar os factos. De início ainda pensei que mais dia menos dia se casasse outra vez. Não casou. E, tirando a madrinha dele, não nos entrou qualquer mulher no apartamento. À parte um bocadinho de pó a mais e umas nódoas por aqui e por ali as coisas continuaram na mesma: o meu pai na oficina e eu na escola, a seguir o meu pai e eu na oficina, a seguir o meu pai reformado e eu na oficina, aos domingos um passeiozeco a ver o rio, lado a lado, em silêncio, não me apareceram namoradas em condições, não éramos pessoas de criar amizades, um de nós preparava qualquer coisa para o jantar, o que não preparava qualquer coisa para o jantar tratava da loiça, um bocadinho de televisão antes da cama, coloquei uma cadeira ao lado da sua para olhar a janela com ele, as árvores, os pombos, os prédios, essas coisas e o tempo foi passando sem a gente dar por isso e, tirando um ou outro

 

- Ai filho

 

da sua parte não necessitávamos de conversas. Volta e meia a vizinha de baixo, viúva, oferecia-nos uns enchidos que trazia da terra, uma senhora que uma tarde me abraçou nas escadas

 

- Não te sentes sozinho?

 

e, como não me sentia sozinho, ficámos por ali mas ainda me lembro do perfume e de pegar na minha mão e a espalhar no seu peito. Nem sequer a tirei, acabou por cair por si quando ela se afastou, do mesmo modo que os enchidos acabaram a partir dessa altura e, pouco depois, um homem começou a morar com ela, empregado na drogaria à esquerda da oficina.

 

De vez em quando escutavam-se uns barulhos, a vizinha pedia

 

- Não me batas mais Jorge

 

os barulhos iam cessando a pouco e pouco, o homem saía a encontrar-se com a dona da papelaria, um de cada lado do balcão, a murmurarem sorrisos e dava-me ideia que a vizinha a chorar. Posso estar enganado mas dava-me ideia que a vizinha a chorar, queixando-se ao marido defunto. Que eu tenha reparado o marido defunto não a protegeu, em regra os maridos defuntos não se metem nesse género de problemas, preferem não sair das molduras. Por acaso ainda não esqueci o perfume nem o peito.

 

Não é que pense muito nisso mas continuam presentes. O homem da vizinha mudou para a cave da dona da capelista, isto há cinco ou seis anos. Não sei se lhe bate também porque os barulhos não chegam aqui, mas há meses a mulher trazia gesso no braço, o que não é suficiente para tirar ilações visto haver dúzias de maneiras de partir braços, se for a pensar acho, sem esforço, uma porção delas e, juntar a isso, a dona da capelista não parecia infeliz.

 

O meu pai comentou uma ocasião

 

- Não se me davam uns enchidos

 

eu continuei a olhar a janela e a história acabou dessa forma, embora a mim também não se me dessem uns enchidos. São um bocado indigestos porém na família temos bom estômago, até parafusos, se fosse preciso, a gente almoçava.

 

Bom. Portanto ontem, a meio da tarde, o meu pai disse

 

- Ai filho

 

sem alarme, tranquilo, e ficou-se como um passarinho.

 

O funeral é amanhã, às três horas e, pelas minhas contas devemos estar nós dois e o padre, porque não disse nada na oficina, mais os sujeitos da agência, claro, e uma coroa de flores que está incluída no preço. Deve ficar tudo despachado por volta das cinco, cinco e picos e, ao regressar a casa, passo na vizinha de baixo. Talvez me mande entrar, talvez partilhe uma morcela comigo, talvez reencontre o perfume e o peito, talvez se interesse

 

- Não te sentes sozinho?

 

e, no caso de se interessar

 

- Não te sentes sozinho?

 

sou pessoa para responder logo que sim. Há momentos em que me vai apetecer, conheço-me bem, companhia para um passeiozeco a ver o rio, alguém que me pegue no braço, a respirar perto de mim. Como se tivesse uma esposa. Tenho a certeza que o meu pai compreendia. E um jantar em condições, numa mesa com toalha e tudo e um copito de tinto para amortecer. E a vizinha de sapatos e brincos e a boca pintada. E os dedos dela sobre os meus. E o volume a aumentar-lhe num suspiro. E um segredo na minha orelha

 

- Sentes-te muito ou pouco sozinho?

 

um segundo segredo

 

- Não vais tornar a sentir-te sozinho,

 

prometo um joelho pegado ao meu, sob a toalha

 

- Não te chamas Jorge, pois não?

 

e, como não me chamo Jorge, o meu lóbulo apertado com ternura. E a mão dela a pegar na minha, a espalhá-la no peito, no outro peito, na barriga, eu

 

- Chamo-me Carlos

 

e uma segunda almofada na cama, e a minha nuca arrepiada por um mindinho lento, e pedacinhos de enchido que me coloca na boca, e a janela para a mesma rua que a minha, e eu estendido nos lençóis, e o pedido dela

 

- Dá um abracinho à mamã

 

e dou um abracinho à mamã, dois abracinhos à mamã, três abracinhos à mamã, e o meu coração desabalado, o meu corpo a tremer de alegria, uma impressão no peito, uma névoa nos olhos, o meu tronco incapaz de mover-se, os meus ouvidos a zumbirem, uma espécie de tontura, uma espécie de ausência de mim mesmo em mim mesmo, uma tentativa de falar sem que nenhuma palavra, a língua presa, os dentes moles, um frio esquisito por dentro, tão esquisito por dentro, a suspeita que eu


- Ai filha

 

a quase certeza que eu

 

- Ai filha

 

a certeza absoluta que eu

 

- Ai filha

 

e a ficar-me como um passarinho, sem sofrimento nem dor.

 

 

 


 

António Lobo Antunes

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publicado por ardotempo às 22:07 | Adicionar