Felicidade

Domingo com Verdi

 

Domingo é o dia mais difícil da semana: ruas sem ninguém, persianas descidas, quase nenhum automóvel, em que sítio andarão as pessoas? Horas lentas, pesadas, esta casa ao mesmo tempo igual e diferente, a dizer-me qualquer coisa que não entendo. O que será? Uma espécie de sol na varanda, até à mesa, um brilhozito na jarra.

 

O maluco do costume não dança no passeio a gritar

 

- Sou feliz

 

a estrangeira sem abrigo não passeia nos semáforos o saco de plástico, a estender a mão para carros indiferentes.

Parece que só eu no bairro. De certeza que só eu no bairro.

 

Amanhã a agência de viagens aberta de novo, a farmácia, o restaurante que perdeu quase todos os clientes, com o dono à porta, vencido. Tem mais rugas dos lados da boca, dos lados dos olhos. Para além do restaurante uma mercearia, um sítio onde fazem tatuagens, uma sucursal de banco. Até há pouco havia duas, uma delas fechou. Vão fechando coisas por aqui. O minimercado, por exemplo. Lojas. O maluco usa barbas, farrapos. Continua feliz. Mais do que o senhor que andou na guerra em África e, de vez em quando, dá pontapés nos caixotes, terrível de ordens militares. Mete uns copos ao bucho e voltam-lhe os tiros.

 

- Quatro mortos em cinco minutos, seus cabrões

 

afiança ele

 

- Quatro mortos em cinco minutos

 

e a gente calados. O sujeito do estabelecimento de telemóveis encolhe os ombros, uma velhota assusta-se em pulitos de galinha, passa de largo, aflita. Tirando a velhota ninguém liga ao guerreiro. O senhor que andou na guerra em África faz continências, amansa, some-se numa esquina. Daqui a nada regressa, mais feroz ainda. Há um outro que me mostra análises

 

- Que tal o meu fígado?

 

tiradas de um envelope usado

 

- O médico mandou-me ir lá daqui a três meses

 

e a mão treme-lhe enquanto vejo, de esguelha, os papéis. Explica

 

- Eu o fígado e a minha esposa

 

os nervos apontando uma criatura de expressão sofrida que já não sabe o que é dormir

 

- Há mais de sei lá quanto tempo que não descanso

 

esclarece a esposa numa vozita murcha

 

- Há mais de sei lá quanto tempo, senhor doutor

 

lembrada de que fui doutor.

 

- Nem o chá de tília me vale, palavra de honra.

 

Tília, lucialima, camomila, já bebeu a ervanária inteira. O filho polícia, a filha e o genro desempregados, três netos. E inicia, com a vozita murcha, uma digressão longuíssima acerca da miséria do subsídio de desemprego. No final da digressão levanta o queixo até mim

 

- E quando o subsídio acabar?

 

enquanto o marido concorda, a guardar o fígado no envelope.

 

- Não entendo estes exames

 

conta-me ele, antigamente era com cruzes, percebia-se.

 

- Mais de três cruzes e encomendava-se o caixão.

 

Hoje, domingo, devem trancar-se no seu primeiro andar, com o peso do fígado e dos nervos às costas e um bulezito de menta entre eles, fitando-se:

 

- E se chamássemos a ambulância?

 

com a filha e o genro desempregado, de lápis em riste, à cata de anúncios, nem que seja de limpezas

 

- Os dois com estudos, senhor doutor, já viu? no jornal. Comem o quê?

 

E a miséria escondida: ele de gravata, ela de cabelo pintado.


A esposa dos nervos orgulhosa

 

- Asseadíssimos e não só asseadíssimos, pinocas, a infelicidade não é para mostrar.

 

Na cave do prédio em que habitam um velhote magrinho que tocava clarinete na banda da Guarda (clarinete ou flauta) e elogia Verdi

 

- Um grande compositor

 

pela boca quase sem mobília. Sobra um dente espetado que garante

 

- Só de pensar em Verdi arrepio-me todo

 

com um hálito a vinho que me faz tremer os joelhos. A mulher dele apanha um estalo de vez em quando, sem motivo, ou antes, conforme ele me elucida

 

- Por causa das coisas

 

minúscula, sofrida. Engomava para fora, abafava uma tosse complicada na palma, não refilava. Há semanas o artista deu com o clarinete ou a flauta no toutiço da criatura e o instrumento entupiu-se, facto que não lhe perdoa

 

- Enquanto não me deu cabo da música não descansou

 

dado que, de vez em quando, ainda soprava uns compassos. Pede-me a opinião, exibindo o tubo

 

- Acha que se eu lhe bater ao contrário isto se compõe?

 

Não tenho a certeza da resposta mas pode ser mas pode ser que sim: um Verdi para a esquerda entorta, um Verdi para a direita corrige.

 

- É capaz

 

opino eu, e ela a proteger-se com o braço.

Domingo: ruas sem ninguém, persianas descidas, uma espécie de sol na varanda, até à mesa, um brilhozito na jarra. O maluco do costume

 

- Sou feliz

 

ausente, o senhor da guerra em África sem fazer continências. Deixo de escrever, aguço o ouvido: uma pancada para a direita primeiro e, a seguir, o grande Verdi a arrepiar-me todo.

 

António Lobo Antunes

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publicado por ardotempo às 20:38 | Adicionar