O doce cotidiano das cidades

 

 

 

Cristaizinhos de gentileza

 

Taciane Corrêa, de Paris (França)

 

 

Durante esta semana meus pensamentos ficaram açucarados

 

Repletos de creme, de chantilly e de um toque de caramelo

 

Porque descobri que as pessoas que gostam de doce são mais amáveis e gentis

 

E porque o salão nobre da prefeitura de Pelotas se recheou de doce para comemorar

 

Assim, resolvi transformar minha semana gélida em um doce momento

 

Aproveitando para visitar e descobri novos sabores


Em Paris, não caminhamos por quadras e sim por minutos

 

Então... A cada três minutos uma pausa para sentir, observar, degustar e se deliciar com os peculiares aromas

 

Na quadra que não tem uma pâtisserie, tem uma maison du chocolat ou uma colorida banquinha repleta de guloseimas.  Após ler a pesquisa que foi realizada nos Estados Unidos, na qual afirma que as pessoas que comem doces são mais queridas, prestativas e simpáticas

 

Saí para flanar feliz e sem culpa

 

Pelos doces da moda e pelas centenárias histórias dos clássicos franceses

 

Encontrei milhares de nuances sucrés.  O colorido exótico dos macarons.  O aroma estonteante das boutiques de chocolate.  As curiosas origens de doces do século passado.

 

Os pedidos de Napoleão que são como bálsamos de alegria.  O relâmpago estouro marcante da éclair.  Criada por volta de 1800 assume, hoje, criativas versões

 

Neste momento para acessar minhas lembranças gastronômicas da infância me delicio com Paris-Brest, um doce circular, leve e fluido

 

Exatamente como a roda de uma vélo

 

Mas o que é mesmo que uma bicicleta tem a ver com a história? Inicialmente nada, até a atendente da pâtisserie começar a me explicar que o doce foi criado em 1891 para homenagear uma corrida de bicicleta Paris-Brest-Paris.  Por aqui tudo é possível!!!

 

Alguns grandes e renomados profissionais são chamados de Picassos da pâtisserie

 

O design de alguns doces foi criado por estilistas.   Sim, aqueles profissionais da moda... Até o brasileiro Alexandre Herchcovitch andou fazendo arte por aqui

 

Nossa sorte é que os reis também gostavam do sabor doce da vida.  No reinado de Luís XIV foi realizado um profundo trabalho para melhorar o sabor das frutas.   Que logo passam a fazer parte do mundo das sobremesas.  São borbulhas frutadas que refinam nosso paladar

 

Por aqui, a criação da tarte tatin na transição do século 19, pelas irmãs que viraram a torta de maçã de pernas para o ar

 

Por aí, os doces cristalizados e as compotas. Uma influência dos franceses Por aqui, os doces familiares feitos de cereja, clafoutis e de outras frutas, flaugnarde

 

Por aí, chimias, geleias e doces em pasta

 

Os doces são peças importantes da gastronomia da França

 

E também são tratados com deferência por aqui Inclusive alguns se diz ser o segredo da eterna juventude, com 126 anos de vida O Crème de Marrons cruza o tempo com o autêntico sabor da castanha de l'Ardèche

 

Agora de posse do Selo de Indicação de Procedência será possível proteger a identidade do doce pelotense

 

A tradição doceira de Pelotas é legítima e garantida

 

Aproveite a Capital Nacional de Doce para flanar e se perder em seus espirais adocicados

 

Flutue com um pastel de Santa Clara

 

Amarre-se com um bem-casado

 

Inspire-se com o camafeu

 

Brinque com um brigadeiro

 

Enrole-se em um ninho

 

Deixe os cristais de gentileza tomarem conta do seu dia a dia.

 

 

 


 

Taciane Corrêa - Publicado no Diário Popular - Pelotas  

 

 Imagem: Fotografia de Edison Vara

publicado por ardotempo às 17:07 | Adicionar