Melo era uma festa

O dia em que o Papa foi a Melo

 

Iuri Müller

 

Foi uma pena, porque Melo era uma festa, antes da chegada do Papa. A gente notava nas caras das pessoas – nos gestos, nas atitudes – uma alegria sem necessidade de explicação, alguma coisa muito rica e muito viva que alguém chamaria equivocadamente de orgulho municipal ou de vaidade ufana, mas que era muito mais ou muito menos do que isso: era o júbilo dos deserdados, o regozijo dos esquecidos despertados repentinamente para um momento de confiança, para uma possibilidade de certeza.

 

Aldyr Garcia Schlee, Melo era uma festa

 

No dia oito de maio de 1988, um domingo de tempo feio, neblina e vento frio, a Negra Martiana, que não tinha nada, viu entrar pelo buraco do fogão duas galinhas e um galo, acontecimento estranho para quem vivia em um casebre, perto de terrenos baldios e de um arroio e muito longe de qualquer galinheiro. No dia oito de maio de 1988, o Papa João Paulo II esteve em Melo, na cidade do interior uruguaio onde vivia a Negra Martiana, mas ela não se lembra de ter pedido qualquer coisa ao Santo Padre. Ainda mais depois que os seus enteados percorreram meia cidade com bandeirolas e faixas brancas nos bolsos, todas elas com mensagens de boas-vindas ao Papa, e voltaram para casa sem ter vendido absolutamente nada. Mas ali estavam as duas galinhas e o galo, justamente na cozinha de quem não tinha nada, e logo no dia em que o Papa foi a Melo – dessa história, que pode ter acontecido em qualquer canto da capital do departamento de Cerro Largo, o escritor Aldyr Garcia Schlee fez um conto e o chamou, mesmo perguntando no rodapé da página se não seria muito, de “Milagre”.

 

Aldyr, nascido em 1934 na cidade de Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, não esteve em Melo naquele dia; o Papa, sim. A ausência não impediu que três anos após a visita papal o escritor se fizesse presente, quase que magicamente, em todos os lados da cidadezinha que se preparou até como não podia para receber João Paulo II – em 1991, Schlee publicou “El día en que el Papa fue a Melo” nas Ediciones de La Banda Oriental. Oito anos mais tarde, o livro formado por dez contos cujo pano de fundo é sempre a presença – ou a enorme ausência – do Papa no interior uruguaio aparece no Brasil publicado pela editora Mercado Aberto com o título “O dia em que o Papa foi a Melo”.

 

O Milagre” que viveu a Negra Martiana, portanto, é só um dos causos de um dia que, por curioso ou trágico, não deve nunca escapar da memória de quem esteve em Melo naquele domingo.

 

Tudo porque os uruguaios esperavam um público de ao menos cinquenta mil pessoas e a chegada de gigantescas caravanas de católicos brasileiros – e há quem diga que não mais do que oito mil pessoas, a maioria de Melo, de fato foram ver o Papa.

 

Entre os personagens de Aldyr, no conto “Espelho partido” está o avô que completava 98 anos no dia em que a cidade estava impactada pela chegada do maior visitante que já havia recebido – e que, apesar das centenas de parentes e conhecidos que se aglomeravam na “grande casa alta de dezoito peças”, prefere não sair da cama de onde contemplava há horas a rachadura de um velho espelho.

 

Talvez relembrasse, em meio ao cansaço dos últimos anos de vida, as conquistas de “uma pobre e obscura republiquinha” que há tempos havia “suprimido o ensino religioso nas escolas públicas e logo se pôde diminuir para oito horas a jornada diária de trabalho, implantar as jubilaciones, criar as pensões de velhice, garantir a assistência pública e laica aos enfermos e assegurar a gratuidade da educação nos três níveis”. E que secularizou “os juramentos oficiais, deixando de mencionar Deus e os santos evangelhos”; que garantiu “a total liberdade de culto, separando a igreja do Estado – embora não tenhamos conseguido a aprovação da semana renga, com um dia de descanso a cada seis, para acabar com o feriado de domingo por sua significação religiosa”. E lá fora estava o Papa, orando para uma multidão que não chegou.

 


 

É no conto “Melo era uma festa”, narrado por um jornalista credenciado no evento, que se encontra uma descrição do desastre que foi a preparação dos habitantes de Melo para o grandioso acontecimento; embora ficcional, o texto de Aldyr não destoa de outros relatos sobre aquele domingo que, apenas para uns poucos, ainda é lembrado com alegria: “a verdade é que nada deu certo no dia em que o Papa foi a Melo – pelo menos para a pobre gente que mais esperava de sua visita. Foi tudo tão rápido e inesperado como um milagre, mas um milagre às avessas: quando se viu, o que se queria que acontecesse, o que tinha que acontecer, o que era certo que ia acontecer, não aconteceu; e em seguida não dava mais para acontecer. O Papa veio se foi; e pronto!

 

Quando recém o leitãozinho de estimação começava a pingar graxa no braseiro, quando os primeiros chouriços caseiros pegaram a dourar e a estalar, o homem já tinha ido embora e todo mundo se foi – se foi sem almoçar nem nada –, e ficou só a terra vermelha e pisoteada da esplanada coberta de lixo barato”.

 

Iuri Müller - Publicado em SUL 21

tags: ,
publicado por ardotempo às 19:43 | Adicionar