A fenda - de Doris Lessing

Doris Lessing

 

Independentemente do que possamos pensar a respeito das suas idiossincrasias, o facto é que Doris Lessing construiu uma obra a que não podemos ficar indiferentes. Livros como Um Casamento Apropriado (1954), The Golden Notebook (1962),

The Memoirs of a Survivor (1975) ou o primeiro volume da autobiografia, Under My Skin (1994), no qual descreve os anos em que viveu na Rodésia do Sul (o actual Zimbabue), a saída de África e a dissidência do comunismo, justificam plenamente a aura de que goza.

 

O Nobel mais não fez do que consagrar a persistência desta mulher de 88 anos, que escreveu 70 livros, muitos deles premiados, sem nunca se ter acomodado à sombra do establishment.

 

Logo no primeiro, A Erva Canta (1949), publicado assim que chegou a Inglaterra, dava conta da relação amorosa entre a mulher de um fazendeiro branco e um criado negro, o tipo de história que não ia com o ar do tempo.

 

A partir de então não deixou de surpreender.

Falando dela, é praticamente impossível separar obra e biografia. Os romances contam as peripécias, a autobiografia confirma, os ensaios explicam a deriva ideológica e religiosa. Na vida como nos livros, o desenraizamento é de regra.

Nascida no Curdistão iraniano, onde o pai estava colocado, foi em criança para a Rodésia do Sul. Naquela antiga colónia britânica viveu durante 25 anos, casou duas vezes, teve três filhos, tornou-se comunista. Só depois de deixar África, abandonando o segundo marido e os dois filhos do primeiro, se fez escritora e feminista. Em 1954 rompeu com o comunismo, e nos anos 1970 aderiu ao sufismo, talvez por influência do filósofo afegão Idries Shah, passando a escrever livros de ficção científica. A saga em cinco volumes Canopus em Argos (1979-1984) é justamente considerada um clássico do género.

A Fenda é uma parábola sobre o poder das mulheres. Não admira que a Academia Sueca tenha realçado o «carácter épico da experiência feminina» na obra de Lessing. O livro abre com um texto onde lemos: «Foi apontada a possibilidade de a estirpe humana básica e primordial ser feminina e de o aparecimento dos homens ser mais tardio, à semelhança duma reflexão cósmica posterior.» A história apoia-se nessa premissa, centrando a intriga numa comunidade de mulheres, as Fendas. Sabemos da sua existência a partir do relato de um patrício romano do tempo de Nero que guarda em sua casa material «acumulado ao longo do tempo, com origem na histórial oral [...] todo ele propondo-se abordar os nossos mais primevos registos...». Não deixa de ser curioso que Lessing dê um ponto de vista masculino a uma história feminista. De acordo com os documentos em poder do narrador, as Fendas geriam por partogénese (ou partenogénese, isto é, a reprodução sem fecundação), e sempre crianças do sexo feminino, até ao dia em que uma delas, contrariando a regra, deu à luz um rapaz, ou seja, um futuro Monstro. Aqui, os homens são Monstros, também conhecidos por Esguichos.

A inclinação de Lessing pelo politicamente incorrecto fica demonstrada no hábito que atribui às Fendas de se desfazerem das crianças com mal-formações: «Quando expúnhamos os nossos bebés deformados, as águias vinham buscá-los. Nós não matávamos os bebés, as águias é que os matavam.» O tom mantém-se quase sempre neste registo. A forma como o romance ilustra as relações entre mulheres e homens é idêntica à que se verifica na série de televisão Perdidos entre os sobreviventes do avião e os Outros, sendo certo que Lessing usa esse tipo de polarização para nos convencer da bondade do feminismo.

Estamos longe da força de obras anteriores, como por exemplo os famosos Diários de Jane Somers (1984), recusado em 1983 por todos os editores, incluindo o seu, porque Lessing enviara o original sob pseudónimo... Mas quando finalmente foi publicado, vendeu um milhão de exemplares no mês do lançamento. Reunindo as qualidades e defeitos do estilo incisivo que distingue a escrita de Lessing, A Fenda não é com certeza o livro que recomendaria a um neófito.

 

Publicado no blog Da Literatura - 16.05.2008


 

publicado por ardotempo às 12:47 | Adicionar