Cartas portuguesas

Um Don Juan celestial

 

Mariana Ianelli

 

Eis que no mundo das investigações autorais hoje pairam rumores em torno das famosas Cartas Portuguesas. A suspeita é de que essas cartas de amor ardente desde há séculos atribuídas a Mariana Alcoforado tenham sido na realidade forjadas e que um homem chamado Guilleragues seja o autor dessa façanha literária.

 

Uma vez confirmada a hipótese, ganha a literatura uma das versões mais ousadas de Don Juan na voz de uma freira que troca sua fé pela má fortuna, que se mortifica, sacrifica sua vida e se deleita em morrer de amor num transe que seria um autêntico transe religioso se Deus não tivesse sido solenemente destronado por um homem.

 

Esperando por uma visita, depois por uma carta e então não esperando mais nada, pedindo ao amante que se lembre dela, em seguida o desafiando a esquecê-la, apiedando-se de si mesma e então se gabando de amar com violência, vai esta freira enlouquecendo de amor, enlouquecendo esplendidamente, repetindo o nome de um homem mil vezes por dia, amando um retrato mil vezes mais que sua vida, até chegar à última carta como a última fase de um delírio, quando o fervor começa a se transformar em “qualquer coisa parecida com a tranquilidade”, um amor satisfeito em si, um amor sem amante.

 

Rilke, não por acaso, nutria especial admiração pelas Cartas Portuguesas. Assim como deu conselhos a um jovem poeta, também aconselhou certa vez uma de suas amantes a tomar como exemplo o amor de Mariana Alcoforado. Ele que era um solitário, mas sempre cercado de mulheres, fazia prevalecer esse delírio esplêndido em seus galanteios, e o fazia com tamanha arte que realmente acabava sendo visto por suas amantes como “um arcanjo de terno”, um “Fra Angélico”, “uma aparição”. Registre-se aí uma espécie rara de sedutor, um sedutor de almas. Um Don Juan celestial.

 


 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

publicado por ardotempo às 13:37 | Adicionar