Todas as vozes

Todas as vozes

 

Autoras brasileiras, como Mariana Ianelli, Carola Saavedra, Adriana Lisboa, Ana Paula Maia e Verônica Stigger, adotam estilos variados, conquistam visibilidade em premiações e desmancham os clichês de gênero. 

 

Carola Saavedra conjuga histórias de desamor, que revelam seus jogos de poder no ato sexual, a estratégias de narrativa inesperadas, e incorpora o debate sobre arte contemporânea a seu livro mais recente, Paisagem com Dromedário, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Portugal Telecom.

 

Ana Paula Maia retrata sem rodeios o cotidiano brutal de homens cujo ofício os põe diante da vida reduzida a pó, no recém-lançado Carvão Animal. Verônica Stigger experimenta formas literárias e se apropria do readymade nos contos de Anões (também finalista do Portugal Telecom), que extrapolam a violência espetacularizada.

 

Adriana Lisboa se enveredou na memória da guerrilha do Araguaia para construir o pano de fundo dos solitários imigrantes que formam um trio improvável de amigos em solo americano, no livro Azul-Corvo, outro concorrente ao Prêmio São Paulo de Literatura.

 

Há tantos estilos quanto há escritoras”, resume Carola.

 

Os esquecidos

 

Adriana Lisboa (de Azul-Corvo) e todos os demais autores da Rocco ficaram de fora da lista de finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Portuguesa, antes de qualquer demérito, por um motivo simples: a editora se esqueceu de inscrever os livros publicados em 2010. Ao perceber, já tarde demais, pediu desculpas.

 

A investigação de um outro sujeito Contra qualquer possibilidade de estereótipo, a escritora carioca Ana Paula Maia destrincha universos masculinos marginais em sua prosa seca, desde sua estréia literária, em 2003, com O Habitante das Falhas Subterrâneas, quando ainda escrevia sob o impacto da leitura de O Apanhador dos Campos de Centeio, de J. D. Salinger.

 

Uma proposta de enigma Carola Saavedra é a única mulher finalista das duas principais premiações literárias em curso. Paisagem com Dromedário, seu terceiro romance, concorre entre os dez indicados a melhor livro pelo Prêmio São Paulo de Literatura e entre os 50 do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Portuguesa. É o reconhecimento à obra na qual a escritora aprofunda temas e experiências formais que já vinha testando. Ao olhar amplamente para as prateleiras de literatura brasileira, vê-se que as vozes das escritoras se multiplicaram.

 

Há mil assinaturas distintas, e não só no texto: o jeito como cada autora lida com sua identidade como profissional da escrita é bem distinto também”, afirma o crítico literário Antonio Marcos Pereira, professor da Universidade Federal da Bahia e colaborador do caderno “Prosa e Verso”, do jornal O Globo. E elas têm encontrado mais espaço para ressoar. “O que eu identifico é que, a partir da minha geração, começa a haver maior visibilidade para as mulheres na literatura. Me parece uma consequência lógica das mudanças na sociedade. Por que isso não aconteceria na literatura também?”, constata Carola. A consequência dessa pluralidade há de ser o alargamento do imaginário sobre a mulher escritora. “Isso possibilita a associação da escritora como capaz de abordar assuntos diversos, com estilos e linguagem e temas também diversos”, diz Ana Paula Maia. “Penso que a grande variedade de experiências literárias realizadas por escritoras ajuda a desmanchar todos os clichês que se costumam lançar sobre a imagem da mulher que escreve literatura”, completa Verônica Stigger.

 


 

A poeta Mariana Ianelli, outra entre os 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom, pelo livro Treva Alvorada, identifica, sobretudo, duas linhas de força: “Há variações em torno de uma linguagem que absorve do mundo o que nele há de convulsivo, que estetiza a violência, o tempo fragmentado, a crueza da realidade, uma cotidianidade que muito raramente se deixar tocar pelo sublime. Por outro lado, existem vozes que se aproximam num sentido inverso, ascendente, realçando a sutileza, o inefável, o que acrescenta à realidade cotidiana, brutal, fragmentada, uma outra realidade possível”, diz.

 

Implodem-se, diante desse panorama, as expectativas mais restritas sobre o universo da escrita da mulher. Nada mais coerente com as últimas décadas, que abandonaram a coesão em nome da heterogeneidade não somente na literatura feita por uns ou outras, mas nas artes como um todo. É um caminho aberto.

 

Destaques

 

Provocado pela reportagem, Pereira destaca aquelas autoras cuja obra despertam seu maior interesse. “A Carola Saavedra é, acho, a que ainda vai ter um grande livro: penso que ela está reelaborando mais ou menos as mesmas coisas, e que uma hora vai sair um ‘uau’ dali. A leio desde que ela apareceu, num conto em O Globo, temos a mesma idade, já resenhei livros dela e, com ela, tenho uma coisa de parceiro geracional”, prediz. “A Stigger me fascina porque a ficção (cabendo aí lembrar que os textos dela são meio sem lugar, o que também é interessante) dela tem muita astúcia e graça, é ao mesmo tempo leve e incisiva, e agrada algo em mim que gosta de dadaísmo: a cocada-mole, a Baleia-sem-cu, as coisas que ela faz com partículas de um vernáculo que reconhece a fala do presente. E graça, em literatura, é raro pacas.

 

Para completar, o crítico cita Simone Campos, que não publica desde o livro de contos Amostragem Complexa, de 2009, mas se tornou respeitada precocemente, aos 17 anos, quando estreou com No Shopping, com uma literatura ligada a blog, na qual oferecia um retrato geracional. “Ela se descolou disso e tem buscado inventar uma tradição pra si mesma, explorando gêneros supostamente menores – ficção científica, melodrama etc”, argumenta.

 

Matemática

 

Na ponta do lápis, porém, a matemática ainda é descompensada. Há nove mulheres entre os 50 finalistas do Portugal Telecom e duas entre os dez que concorrem a melhor livro do ano no Prêmio São Paulo de Literatura. Que essa pluralidade de vozes, cada vê mais, se traduza em qualidade e não deixe de ser notada pelos leitores e críticos literários – inclusive aqueles que, procurados pela reportagem do Caderno G Ideias, se abstiveram de comentar essa geração, justificando ter lido poucas ou nenhuma delas. “Se formos fazer essa distinção dentro da literatura, não será difícil encontrar uma certa discrepância nos critérios utilizados pela crítica. A começar por esse mesmo enquadramento de escritoras em ‘literatura feminina’ ou ‘literatura feita por mulheres’, algo sobre o qual se discute e se polemiza, sem haver o equivalente de uma ‘literatura feita por homens’”, pondera Mariana Ianelli.Essa é uma discrepância de tal modo instituída que, muitas vezes, nem se caracteriza como tratamento injusto ou pejorativo, a exemplo das inúmeras coletâneas de mulheres escritoras.

 

 

 

Publicado na Gazeta do Povo

publicado por ardotempo às 16:07 | Adicionar