Cloaca, a redundância dos curadores

 

Cloaca

 

 

A máquina Cloaca, nem mais bela nem mais feia do que milhares de máquinas espalhadas em plantas de produção industrial pelo mundo, é considerada uma "instalação de arte", de tecnologia biológica, inventada por Win Delvoye, colocada dentro de um museu de arte contemporânea e que produz merda genuína de maneira sistemática. O seu produto é tratado como múltiplo de “obra de arte” sendo empacotado, numerado e assinado pelo seu criador.

 

Uma curiosidade engenhosa, certamente, porém não a acredito como obra de arte – nem a instalação e tampouco sua produção como algo que seja surpreendente, magnífico ou encantador, que mereça ser colecionado ou exposto em outros museus.

 

Não basta estar colocada em ambiente considerado um espaço da arte para ser transformada automaticamente em obra de arte. Isso encontra justificativa forçada apenas na cabeça de certos curadores de museus contemporâneos que fazem malabarismos intelectuais para provar que alguma coisa é arte (quando não é) e para recusar maliciosamente obras-primas de notáveis artistas sobre os quais as pessoas não têm a mais remota dúvida sobre a qualidade e valor artístico do que foram capazes de criar, apenas para tentar posar de carrascos de uma Arte mais profunda e construtiva (esta bem mais difícil de ser realizada pela exigência de talento real e capacidade de elaboração das ideias).

 

Esses curadores são figuras deletérias e recalcadas, que pretendem negar a existência de grandes artistas apenas para se notabilizar mediaticamente pelo escândalo e pelo choque, que a sua iconoclastia artificial seria capaz de causar, sem ater-se que a função de um curador é dizer não - dizer não ao seu Conselho Consultivo quando este estiver equivocado e dizer não quando alguma ação negativa possa causar dano ao conjunto de seu acervo. Recusar obras fundamentais é causar prejuízo irreparável a qualquer acervo de museu significativo e privar o público ao acesso a essas obras, se recusadas.

 

Dizer não à doação de obras-primas originais de um artista paradigmático e, portanto, obras incomparáveis entre si, é negar a existência do artista e de tudo o que ele tenha realizado ao longo de sua carreira. É tentar anedoticamente transformar a História da Arte (como Hitler tentou fazer com seu Museu de Linz, recusando e destruindo obras de artistas)... É como tentar dizer que Picasso, Miró, Morandi, Vieira da Silva, Matisse, Bacon, Marie Laurencin, Serge Poliakof, Van Gogh, Karel Appel não tenham existido, o que, no mínimo, só pode ser considerado uma insensatez e uma patologia.

 

No entanto, esses curadores que se fazem difusores de ideias indefensáveis, autoritárias e chocantes, de uma certa forma colocam-se como espécies de redundâncias ao estranho deslocamento produzido pela máquina Cloaca num inesperado espaço artístico que eles, curadores e máquina, ocupam indevidamente como se fossem traiçoeiros cavalos ocos de madeira: as ideias e as ações derrisórias que são capazes de produzir têm a mesma consistência, conteúdo, odor e valor que o produto que sai das entranhas do artefato mecânico industrial.

 

Alfredo Aquino

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publicado por ardotempo às 03:41 | Comentar | Adicionar