Um lugar que se habita

Dia do Silêncio

 

Mariana Ianelli

 

O que quer que justifique a data, é irresistível pensar que esse dia existe desde sempre, que apenas gradativamente foi perdendo espaço, sendo expulso, até resultar numa ilha remota da qual já não se tem notícia, um pedaço de terra aonde agora só se chega, quando se chega, para breves passeios turísticos.

 

Não é o lugar onde alguém fica ruminando uma estratégia, uma jogada de mestre, qualquer coisa bem pensada que vai crescendo, amadurecendo na sombra, não é isso. Nem é uma forma de protesto, um estado de alerta, uma prova declarada de desprezo ou uma divergência tão grande que nada vale a pena ser dito.Não é um minuto de silêncio pelas vítimas de uma chacina.

 

Existe a censura, a veladura, o regime do medo, mas também não é isso, esse túmulo de verdades escondidas onde o que fecha a boca é a impotência, a humilhação ou a cumplicidade num crime. Tudo isso existe dentro de limites bem conhecidos e forma só uma casca de silêncio. Por baixo e ao redor dessa casca continua o mesmo barulho, o mesmo trabalho de colmeia, um mundo de insatisfações, de intenções e de interesses confundidos.

 

O silêncio que ficou difícil, que foi aos poucos se afastando e se perdendo é outro. Não quer significar nada, não sente falta de nada. Não tem o que esconder nem o que reprimir. É quando tudo repousa por dentro. Um horizonte tranquilo, exato, completo. Nenhuma rajada de vento, nem mau pressentimento, nenhum desejo de estar em outra parte. É um chão de pedra com silêncio de pedra. A coisa mais simples. Uma paragem. Um lugar que se habita.

 

Lembrando Ernesto Sabato falecido na madrugada do dia 30/04, último sábado:

 

A dois meses de seu centenário, Sabato encetou viagem para outros séculos. Porque lhe parecia triste morrer, foi mais além: tornou-se o anfitrião de uma outra realidade. Penetrou na noite definitiva, como fazem aqueles que de um sonho não voltam mais. Agora podem esses dois grandes amigos, Borges e Sabato, retomar sua conversa e devanear sobre a vida como antes devaneavam sobre a eternidade.

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

publicado por ardotempo às 07:21 | Adicionar