As casas sem flores - A Fenda

                       


As casas sem flores


As casas do mundo, organizadas e comandadas por mulheres, casadas ou não, ao lado de seus companheiros estáveis, com suas amigas, sozinhas por opção pessoal ou de um outro, com ou sem filhos, com netos...isso pouco importa, as casas com mulheres sempre têm flores, vasos de folhagens, trepadeiras, xaxins com avencas, plantas que ligam diretamente os seres dessas casas à natureza e à vida. Homens solitários, ao contrário, moram em  casas sem flores.

Roberto estava solitário e fazia algum tempo.

Béco. Esse tinha sido seu apelido desde o tempo em que jogara futebol na praia e praticara um pouco de surf com um pranchão de madeira no qual ele próprio pintara, em azul turquesa, uns filetes estriados muito finos. Ele sempre tivera namoradas abusadas e notáveis a seu lado, o que o fizera ser notado e suficientemente assediado para sentir-se intensamente feliz, por um breve período de sua vida, sem muitos esforços.

As coisas se transformaram em seguida, depois que terminara a faculdade de Direito.
 
Casara-se (cedo demais), separara-se (cedo demais), tornara a casar-se (cedo demais) e voltara a ficar só, mas aí já era tarde demais. Fôra deixando lentamente de ser Béco, principalmente em suas jornadas cotidianas de trabalho, por causa dos outros e, pouco a pouco durante seus casamentos, por sua própria culpa.
           
Resultara ser apenas Roberto, Dr. Roberto ou Dr. Sobil, o que lhe atribuía mais respeitabilidade, muita severidade, mais velhice, muita chatice e, por fim, como decorrência de tudo isso, uma solidão anunciada e insuportável.

Roberto tentara voltar a ser Béco, mas atrapalhara-se, fôra mal sucedido, sentindo-se ridículo numas roupas novas que comprara, o desconforto espiritual correspondendo com rigor à realidade física. Saiu-se muito mal também em tentativas com algumas moças, daquelas do tipo que sempre apreciara, esguias mas com curvas e volumes delineados a compasso e que, aparentemente, gostaram dele no passado. Mas as moças, que não tinham passado, não eram mais as mesmas, ele tampouco tornaria a ser o Béco de antes, e percebeu de maneira dolorida que era invisível para elas. Aliás, por experiências recentes, tornara-se invisível a todas as mulheres do mundo.
  

Extraído do conto As casa sem flores - © Alfredo Aquino, A Fenda - Iluminuras, 2007

 

publicado por ardotempo às 20:56 | Adicionar