A conveniência dos arranjos

Realpolitik


Luis Fernando Verissimo


Realpolitik é um termo alemão que significa política realista, pragmatismo, o sacrifício de ideais puros por objetivos práticos e o uso de meios espúrios para fins supostamente nobres. Resumindo: “realpolitik” é o nome que se dá ao processo pelo qual você vota no PT e elege o PMDB.


O chanceler Otto von Bismarck, que dominou a política alemã durante boa parte do século 19, era adepto da “realpolitik” mas o melhor exemplo que deu, sem querer, da sua tática nada teve a ver com questões de Estado. Está no livro do Edmund Wilson Para a Estação Finlândia. Bismarck disse ao socialista Ferdinand Lassalle que se ele pretendia ter sucesso na política deveria 1) adquirir uma propriedade rural e 2) casar com uma mulher feia. A propriedade rural lhe daria uma respeitabilidade senhorial que o ajudaria mesmo na sua pregação socialista e a mulher feia, presumivelmente, não o manteria em casa, liberando-o para a vida pública. Uma receita pouco romântica, mas realista e prática.


O caso mais notório de “realpolitik” em ação foi o pacto de não agressão entre a Alemanha nazista e a União Soviética de Stalin, em 1939. O pacto durou pouco – acabou quando a Alemanha invadiu a Rússia –, mas foi o bastante para desencantar comunistas no mundo inteiro. As recentes revelações de correspondência diplomática secreta mostram como a “realpolitik” ainda rege as relações internacionais. Não há exemplo atual maior do sacrifício de ideais pela conveniência, ou de hipocrisia, do que os 30 anos de amizade dos Estados Unidos com o Egito de Mubarak, que não era menos ditador antes de começarem os distúrbios.


Claro, não vamos comparar as alianças políticas feitas pelo PT para poder governar nem com Hitler nem com Stalin nem com qualquer outra calhordice histórica – mas a realpolitikinha exemplificada pela receita matrimonial do Bismarck eu acho que cabe. O PT abandonou seus ideais românticos e casou com uma mulher feia que obviamente não ama, mas que o ajudará na sua carreira.


Em tempo: não sei se Lassalle seguiu o conselho de Bismarck. O Google acaba de me informar que ele morreu num duelo causado por ciúme. Vê com quem você está se metendo, PT!

 

 

 

Luis Fernando Verissimo

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publicado por ardotempo às 07:08 | Adicionar