Os escritores

 

Os livros e a imaginação do leitor

 

 

O romance O SONHO DO CELTA, de Mario Vargas Llosa não se sustenta em grandeza literária. É previsível em seu desfecho conhecido inicialmente (Borges e Garcia Marquez, foram mestres em contar antes e ainda assim nos enfeitiçar no enredo da sequencia, mas neste livro de Llosa isso não acontece); é burocrática a história da execução na forca do protagonista Roger Casemet, líder político pela emancipação da Irlanda, como consta na História e na wikipedia. Aliás, a estruturado livro está resumida toda ali, numa só página wikipedia.( Aliás, aprende-se mais sobre Roger Casement nesta página da wikipedia).

 

 

Poder-se-ia contrapor valor pela beleza da escrita, pelo deslumbramento literário de uma ideia interessante - contar a vida de um herói libertário nos tempos áureos e cruéis da exploração dos seres humanos das colônias, no Congo do Rei Leopoldo da Bélgica e na Amazônia peruana ao tempo do esplendor da riqueza da borracha e do extermínio das tribos indígenas amazônicas de Putumayo. Mas isso não acontece, o texto corre frouxo, sem convicções, sem surpresas e sem fervor. Apela um pouco ao sensacionalismo e à pieguice a partir de um certo instante.

 

A história do diplomata que se tornou Sir britânico, pelos dois livros-relatos de denúncias sobre as situações no Congo e na Amazônia e que posteriormente, foi considerado traidor pela Inglaterra por aliar-se ao inimigo, a Alemanha, durante a 1ª Guerra Mundial para tentar favorecer a dissidência da Irlanda. Foi sentenciado e enforcado por este motivo, da mesma forma que a Inglaterra moveu-se a atacar a Argentina pela razão (que se atribui na sua postura imperial) de domínio britânico sobre as Ilhas Malvinas. A justificativa da força e da pancada é a mesma. É da História o tempo para o julgamento sobre as injusticas cometidas no patíbulo e na guerra. Cabe aos escritores o universo da fantasia e da literatura.

 

Roger Casement foi um herói bastante corajoso nas denúncias contra a empresa exploradora do Rei Leopoldo no Congo Belga e contra a empresa anglo-peruana no caso da borracha amazônica. Não o foi mais ou menos por ser gay, simplesmente o foi por ser digno e um ser humano ético, de grandeza e coerência pessoal.

 

Casement foi executado em 1916 por ter sido considerado traidor à Inglaterra, pelo Rei e seus ministros, no caso da insurreição armada da Irlanda, pelo contrabando de armas, pelo acordo militar secreto com os generais alemães e não pelo fato de ser homossexual, independemente se os seus diários eram autênticos ou teriam sido forjados pela Scotland Yard, para escandalizar a sociedade e constranger os ministros do Império quanto à comutação da pena capital. O escândalo só entra nessa parte por conta do sensacionalismo dos tablóides e dos arabescos de Vargas Llosa.

 

O que importa é se o livro está bem construído, bem escrito e fascinante no seu ritmo e na sua invenção literária. Isso não acontece em nenhum instante, o texto não pega e não nos encanta. Não tem densidade e tampouco expõe os nervos e a carne dilacerada. Vai indo mansamente para o seu desfecho, sem surpresas e sem sombras, como se navegasse num grande rio tranquilo e sem os sobressaltos das quedas d’água. É estranha a posição pessoal do escritor, que acredita que os Diários Negros, com os breves apontamentos considerados chulos e pornográficos, tenham sido de fato escritos por Casement, porém sendo apenas fruto de sua imaginação, ainda que desejados na sua essência, mas fictícios, jamais realizados na verdade de sua vida concreta e tangível.

 

Muito melhor é ler e reler DON FRUTOS, de Aldyr Garcia Schlee, este sim um livro infinitamente superior, de literatura magnífica e surpreendente, que nos golpeia a cada instante, nos impacta e nos arrasta a cenários e ações que nos tira o fôlego, que nos transtorna, nos aflige, nos faz rir e desejar continuar lendo até o final. Há escritores e escritores, há livros e outros livros. Cabe a nós a escolha dessas viagens e dessa felicidade.

 

Alfredo Aquino

publicado por ardotempo às 23:10 | Adicionar