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Os novos condes de Lautréamont


Mariana Ianelli


E se de repente artistas do mundo inteiro aderissem ao anonimato? Contando que toda obra de arte que se preze hoje exibe o epíteto da originalidade, este seria um expediente bastante original. Não deixaria de satisfazer também certo gosto pelo ato performático. Excetuando-se o mal que isso acarretaria para a vaidade e o mercado que dela se aproveita, vale pensar no bem que faria, por exemplo, para a literatura.


Apagados o nome e a figura do escritor, ficaria o seu livro, um livro sendo tudo o que há, nem maior por ter a chancela de uma grife, nem menor por carência de fama. Um livro com seu justo peso e sua justa medida, louvável ou desprezível, impressionante ou insípido, envolvente ou fastidioso por ele mesmo, pelo que nele está escrito, do modo como está escrito, sem os atenuantes ou os encômios da crítica por se tratar deste ou daquele autor, sem a ressalva ao demasiado jovem ou a concessão ao demasiado velho, sem o anexo dos afetos ou das antipatias pessoais.

 

Um livro sendo tudo o que nele há de pensamento, olhar e voz de alguém cujo mistério da autoria, não garantindo mais os privilégios da consagração de um nome, reconduzisse todas as atenções para o texto como um corpo total, com suas virtudes e suas falhas levadas ao primeiro plano, despojadas de manto, chapéu, lapela amedalhada, gravata de lantejoulas e outros distintivos. Quem sabe dentro deste fabuloso universo de escritos apócrifos surgissem muitas surpresas, e um livro, em circunstâncias costumeiras desprezado pela mídia, alçasse ao rol dos mais lidos e comentados, e um outro, antes merecedor do timbre das academias, fosse considerado simplesmente um gatinho perdido no meio de uma savana de leões.

 

 

 

 

O certo é que neste mar de vozes, um grande escritor, contrariando a ansiedade por seu reconhecimento e as ocasiões forjadas para sua autopromoção, levaria um tempo indefinível até ser descoberto, o tempo mágico em que se elaboram os encontros com os leitores, um a um. E agora, sem estar submetido ao peso de nomes que eventualmente falam mais alto do que os livros, o leitor seria respeitado em sua participação soberana nas garimpagens e nas descobertas que fizesse de acordo com seus próprios critérios de exigência, interesse ou predileção. Os escritores, por sua vez, não mais ocupados com atrativos adjacentes, poderiam empenhar um tempo extra no que é a alma mesma do seu ofício, a escrita, o livro, a palavra na sua força intrínseca e na sua jornada paciente através do tempo rumo a um destinatário igualmente anônimo. No correr das águas, os livros iriam se entender entre si e com seus leitores, seguindo uma vida conquistada por seus méritos, dependendo aqui e ali de um pouco de sorte, mas, ainda assim, fazendo prevalecer os méritos, como deveria ser a vida de todos os filhos, que, já de seus pais, antes e para além do nome, herdaram o sangue.


É possível imaginar, neste cenário infinito de textos e de vozes atravessadas por outras vozes, um homem passeando entre mundos de papel coligidos em lombadas enigmáticas, um visitante qualquer que fosse movido pelo sentimento que nele despertam os títulos de alguns livros apanhados ao acaso, até que, subitamente, numa dessas leituras, o susto, o tremendo calafrio, como o de encontrar, com uma estocada de picareta, ouro na rocha: a descoberta de um novo Conde de Lautréamont muitos anos após a sua morte.


Mariana Ianelli - Publicado no blog Vida Breve

publicado por ardotempo às 03:55 | Adicionar