Espaço recluso

Figuras pasolinianas


João Gilberto Nöll

 


 

 

 

 

Uma das emoções estéticas mais verticais que tive nesses últimos tempos no Rio Grande do Sul deu-se no encontro com o trabalho fotográfico de Gilberto Perin. É inacreditável que, de dentro desse cidadão de expressão costumeiramente serena, possa irromper uma arte de toques metafísicos acompanhados de um gozo tão eloquente e avassalador, característica assombrosamente presente já em sua penúltima exposição. Na ocasião dessa primeira mostra, o que poderíamos acrescentar diante de uma fotografia a revelar um homem negro em algum ponto da África, de costas contemplando o mar? Em frenesi de cores, sentimos a nudez pagã entre o eu e o mundo, mais nada. Talvez um arrepio. Contemplamos a atual exposição um pouco de soslaio, tal um certo pudor em face do impacto frente a corpos masculinos periféricos, um tanto esquecidos pelos jornais de grande circulação. Vemos jogadores em um campeonato de segunda divisão  num intimismo viril, nos toscos vestiários, alguns ensaboados debaixo dos chuveiros, entre confidências discretas, surdos palpites talvez. Parecem as figuras populares pasolinianas, encenando a sua autenticidade singela. E as cores, sempre as cores, vivíssimas, tão vivas que sentimos nelas um santo laivo narcísico.


Gilberto Perin é um dos mais marcantes fotógrafos brasileiros em ação. Entre suas fotos, há uma expondo como que um túnel improvisado entre  o campo do jogo e o vestiário. Ninguém. Existe tal densidade em sua luz erma, entre o claro e o sombrio, que esse instante tem a qualificação de um mistério. Trata-se da pausa entre as múltiplas insinuações eróticas da exposição. As coisas sem a presença humana nos fazem descansar um pouco da força carnal, mesmo que essa força venha um tanto dissimulada no bojo de certa placidez do pós-futebol, no desfecho do trabalho-lazer, antes de os atores se dissolverem novamente na prática do cotidiano.


No fundo dessa fotografia, as sombras da entrada do vestiário não deixam nada tomar forma. Mas os atletas de um arrabalde distante podem ainda estar ali, dormitando, esboçando o sonho de uma nova partida, quando serão, aí sim, os herois...

 

 

 

 

© João Gilberto Noll

© Brasil - Camisa Brasileira - Livro de Fotografias de Gilberto Perin

Texto de Aldyr Garcia Schlee

Projeto Camisa Brasileira PRONAC nº 10 4301

Imagens de © Gilberto Perin - Edições ARdoTEmpo

publicado por ardotempo às 20:00 | Adicionar