Os prêmios

 

Romain Gary: O escritor que recebeu o Goncourt duas vezes


Isabel Coutinho


Trinta anos depois da morte do escritor, sai finalmente em Portugal “Uma Vida à Sua Frente”, o livro que Romain Gary assinou como Émile Ajar para poder ganhar, violando as regras, o seu segundo Prémio Goncourt. Ao mesmo tempo, em Paris, uma exposição conta a história de um dos maiores embustes do mundo literário. Por Isabel Coutinho

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No dia 17 de Novembro de 1975, o júri do mais importante prémio literário francês reuniu-se e, à oitava ronda, atribuiu o Prémio Goncourt ao senhor Émile Ajar pelo seu romance “La Vie Devant Soi”. Na altura, os jornalistas perguntaram insistentemente se o júri não se tinha sentido pouco à vontade por estar a atribuir o prémio a um “autor desconhecido”. Poucos tinham visto Émile Ajar em carne e osso. Do escritor havia apenas uma fotografia um homem de cabelos ao vento em frente ao mar e sabia-se que tinha escrito, também sob pseudónimo, “Gros-Câlin”, o seu primeiro romance.


O júri não deu importância a estes pormenores e foi assim que, sem ninguém saber, Romain Gary (1914-1980) se tornou no único escritor a ganhar duas vezes o Goncourt, um prémio que, estipula o regulamento, só se pode receber uma vez na vida. O escritor francês já tinha recebido o prémio literário em 1956, pelo romance “As Raízes do Céu”, e voltava agora a ser escolhido com este livro. Só se soube a verdade seis meses depois da sua morte. A história narrada por Momo, um adolescente muçulmano de 14 anos que vive no bairro de Belleville, em Paris, na casa de Madame Rosa, uma prostituta reformada e sobrevivente de Auschwitz, é esta semana publicada, pela primeira vez em Portugal, numa edição da Sextante. Foi adaptado para cinema, por Moshé Mizrahi, com Simone Signoret a interpretar Madame Rosa.


Romain Gary arquitectou tudo. Teve atenção aos pormenores para que ninguém suspeitasse de que era ele quem estava por trás de Émile Ajar. Arranjou um cúmplice, contratou advogados e mentiu com os dentes todos, até aos amigos mais íntimos. Antes de se suicidar com um tiro, deixou indicações ao seu filho e ao editor para que o manuscrito “Vie et Mort d’Émile Ajar” fosse publicado postumamente.


Nessas dezenas de páginas, o escritor que nasceu em Vilnius, na Lituânia, filho de russos judeus, e viveu em França, com a mãe, desde os 14 anos, torna pública a falcatrua. “Diverti-me muito. Adeus e obrigado”: assim termina o livro onde conta como engendrou um dos maiores embustes do mundo literário.


O escritor – que começou por ser aviador e herói de guerra, fez carreira diplomática na Bulgária, em França, na Suíça e nos EUA, e foi cineasta, jornalista e actor revela aí que a sua principal motivação foi mostrar que os críticos literários franceses eram tolos. Em “Romain Gary: a Tall Story”, biografia publicada no final do ano passado, David Bellos afirma que o escritor estaria farto de ser cataloga do e desrespeitado pelos críticos. “Ele queria provar ao mundo que os jornalistas e os editores são preguiçosos, não lêem os textos que criticam ou os livros que sugerem, e apoiam-se em preconceitos e fofocas para formarem as opiniões que impõem à comunidade”, escreve o autor, professor de francês e de literatura comparada da Universidade de Princeton.


Na verdade, só depois de ter acabado de escrever “Gros-Câlin” é que Romain Gary decidiu publicá-lo com outro nome. Sentia que era muito diferente das suas obras anteriores. O romance é quase um diário de um homem que vive com uma serpente pitão num apartamento em Paris e tem uma linguagem considerada inovadora.


Foi assim que tudo começouComo é que Romain Gary conseguiu levar avante, e sem que ninguém suspeitasse, um dos maiores embustes do mundo literário? Primeiro precisou de convencer o seu amigo Pierre Michaut, um homem de negócios que vivia no Brasil, a entrar no jogo. Ele aceitou e, numa das suas visitas a Paris, dirigiu-se ao escritório do editor Robert Gallimard com o manuscrito de “Gros-Câlin” debaixo do braço.


Contou-lhe que estava ali em nome de um francês que vivia no Rio de Janeiro. Por razões legais, esse exilado não podia usar o nome verdadeiro nem regressar a França. O editor, conta David Bellos na biografia, leu duas páginas e enviou o livro para apreciação. No dia seguinte recebeu um convite para ir a casa de Romain Gary. Quando lá chegou, encontrou o escritor com um homem que lhe parecia familiar. “Não o estás a conhecer?”, perguntou-lhe Gary. Robert Gallimard percebeu a marosca.


Não me digas que me pregaste esta partida…”, disse. Romain Gary obrigou-o a jurar que não contaria o segredo a ninguém. O editor cumpriu a promessa, bem como o pequeno grupo que sabia que era Gary o verdadeiro Émile Ajar: a secretária que dactilografava os textos, a sua ex-mulher e mãe do seu filho, a actriz Jean Seberg, os advogados, e o seu primo Paul Pavlowitch, que terá um papel fundamental nesta história.


Apesar de a primeira leitora de “Gros-Câlin” ter dado uma apreciação muito positiva, os editores que o leram a seguir não ficaram tão entusiasmados.

 

Conta David Bellos que o escritor Raymond Queneau, que fazia parte do painel de leitura, disse que o autor devia ser um chato mas tinha talento. Aconselhava que o livro fosse publicado na Mercure de France, uma filial da Gallimard.


Quando o livro foi publicado, os críticos literários tentaram descobrir quem era o autor por trás do pseudónimo.


Nunca suspeitaram de Romain Gary, que nesse ano publica “La Nuit Sera Calme”, onde responde às perguntas de um seu amigo de adolescência, o jornalista François Bondy.


Para que tudo corresse bem com o pseudónimo, o escritor não assinou os contratos com a editora e, receando a curiosidade dos jornalistas, pediu ao primo Pavlowitch que se envolvesse na história fazendo-se passar por Émile Ajar. O plano: viajar para o Rio de Janeiro e aí encarnar a personagem de Émile Raja, um médico francês que, acusado da prática de abortos clandestinos, teria saído de França e adoptado o sobrenome Ajar como pseudónimo literário. A viagem nunca chegou a acontecer.


A mentira continua. Quando começou a correr o rumor de que “Gros-Câlin” poderia ser candidato ao Prémio Renaudot (atribuído a primeiras obras), Robert Gallimard avisa Romain Gary de que ele poderia meter-se em apuros. O escritor deu instruções ao advogado para que o livro fosse retirado das listas de todos os prémios a atribuir em 1974.


Mas, com o livro nas livrarias, Émile Ajar teve de aparecer e por isso Paul Pavlowitch deu uma entrevista ao “Le Monde”. A sua fotografia sai nos jornais. Entusiasmado com o sucesso, Romain Gary começa a escrever o segundo livro. Trabalhava de manhã na obra de Émile Ajar e de tarde na obra de Romain Gary. Em Outubro, publica “Uma Vida à Sua Frente”, que teve como primeiro título “La Tendresse des Pierres”. Quando a capa do livro já estava a ser impressa, a mulher de Pavlowitch repara que o título é igual àquele que uma personagem de um romance anterior de Gary dava ao livro que estava a escrever. Antes que alguém notasse a coincidência, Émile/ Paul Pavlowitch pediu ao editor para parar a impressão.


Mas o pior estava para vir. A 17 de Novembro de 1975, “Uma Vida à Sua Frente” recebe o Goncourt. Se alguém descobrisse que o romance era de um escritor que já tinha vencido o prémio, Romain Gary seria preso. Por isso, três dias depois, Émile Ajar faz saber que recusa o prémio.


O júri responde que “o Goncourt é como a vida e como a morte não se aceita nem se recusa”. Entretanto, um jornalista consegue, através da fotografia que circulara nos jornais, perceber que Émile Ajar era Paul Pavlowitch, primo de Romain Gary, e publica a história. Tudo é posto em causa. Gary é forçado a dizer publicamente que não ajudou o primo a escrever o livro e que não tem nada a ver com Émile Ajar. Nunca mais poderá contar a verdade, e portanto começa a escrever “Pseudo”, livro em que Émile Ajar conta como Paul Pavlowitch, internado numa clínica psiquiátrica, escreveu os seus livros. A mentira continua.

 

 

 

O último livro assinado por Émile Ajar, “L’Angoisse du Roi Salomon”, é publicado em 1979. No ano seguinte, aos 66, Romain Gary suicida-se na sua casa em Paris: “Fiz um pacto com o senhor lá de cima, vocês conhecem-no? Fiz um pacto com ele de forma a nunca me deixar envelhecer.” A sua ex-mulher, Jean Seberg, tinha aparecido morta no ano anterior. “Nenhuma ligação”, escreve na nota de suicídio que deixou.


Seis meses depois, em 1981, é revelada a verdadeira identidade de Émile Ajar. Paul Pavlowitch publica “L’Homme que l’On Croyait”, onde conta a sua versão da história. É entrevistado no programa “Apostrophes”, de Bernard Pivot. Pouco depois, é publicado o manuscrito “La Vie et Mort d’ Émile Ajar”, onde Romain conta que a jornalista Laure Boulay, do “Paris Match”, lhe disse a certa altura que estava convencida de que Romain Gary e Émile Ajar eram a mesma pessoa.

 

Romain Gary apaixonou-se perdidamente por ela e respondeu: “É evidente. Ninguém se apercebeu a que ponto Ajar foi influenciado por mim. Podemos até falar de um verdadeiro plágio. Mas enfim, é um jovem autor. Não faço questão de protestar.” Esta história mirabolante volta agora a ser contada, 30 anos depois da morte do escritor, no Musée des Lettres et Manuscrits, em Paris. Até 3 de Abril, a exposição “Romain Gary, des Racines du Ciel’ à ‘La Vie Devant Soi’” mostra os manuscritos, as cartas, as notas, as fotografias e os artigos de imprensa que reconstituem o grande golpe.


Isabel Coutinho - Publicado no Caderno Ípsilon, do PÚBLICO / Ciberescritas

tags: ,
publicado por ardotempo às 16:03 | Adicionar