O acaso em versão sinistra

O jogo dos anjos da morte

 

Mariana Ianelli

 

Uma guerra pode acontecer a qualquer hora, em qualquer parte. Você está no mercado fazendo sua compra do mês e de repente sente uma agulhada, um fogacho no estômago, tenta dar um passo e o passo retrocede, você desmorona, a cara enfiada numa gôndola de biscoitos. Pode acontecer. Os jornais noticiam tragédias como essa de quando em quando. Porque a paz, a paz reina mesmo é no além-mundo.

 

Do lado de cá, temos esta coisa selvagem, sombria, que é a sede de sangue, uma sede tamanha que às vezes faz pensar se não chegará o dia em que nenhum motivo de guerra, nenhuma causa política, religiosa ou social será tão explícita quanto a pura vontade de matar. Matar por esporte. Tal e qual a Caçada Alegre do teatro mágico de Hermann Hesse, onde, na beira de uma estrada, do alto de um pinheiro, o jogo macabro de dois homens é atirar nos carros que passam.

 

Então você sai logo cedo a caminho do trabalho, como de hábito, e alguém mira sua nuca, a única disponível naquele momento ali na esquina, alguém mira sua nuca e dispara. Por razão nenhuma, só por farra. Ou quem sabe a arbitrariedade da violência seja mais sofisticada e o jogo se estenda, exatamente como o ritual de uma caçada, e você antes seja perseguido, cuidadosamente observado nas suas repetições de circuito, que por mais inusitados que possam ser os seus dias, haverá sempre algo que se repete, pois há sempre uma triste mania na qual um homem se enraíza, o canto de um balcão de uma padaria, uma cadeira predileta no fundo de um bar, aos domingos, ou no caminho da casa para o trabalho, do trabalho para casa, uma rua preferida. Alguém segue seu rastro, liga os pontos que delimitam sua rotina, descobre um desenho para a sua vida, até que finalmente você se distrai, na famosa hora da onça beber água, e pronto, o jogo termina.

 

 

 

 

Fantasioso que seja, não parece cenário tão mais absurdo do que estudantes abrindo fogo em salas de aula ou meninos pistoleiros que, sob o comando de traficantes, recebem três mil dólares por homicídio. Apenas que nesta nova caçada já não haveria necessidade de um motivo. Seria o império do acaso na sua versão mais sinistra, homens que se designassem anjos da morte uns dos outros numa brincadeira sanguinária cuja lei é só o prazer da guerra, sem limites.

 

Mariana Ianelli - Publicado no blog Vida Breve

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publicado por ardotempo às 10:21 | Comentar | Adicionar