Foi num café do Centro

 

 

Foi num café do Centro

 

Pedro Gonzaga

 

foi num café do centro

há muito passara a primeira juventude

e pesava sobre os dois

o silêncio das palavras não ditas

 

já não era ela aquela jovem

já não era ele aquele inapto,

e por isso,

porque certa doçura

só se colhe na alvorada

 

havia aspereza no reencontro

aos poucos,

ela passou a falar de suas conquistas profissionais

do primeiro casamento desastroso

do segundo casamento recém-encerrado

 

ele tinha menos feitos a oferecer

o divórcio ainda vivo

e um filho

o único emprego público e insosso

que tomara depois da faculdade

 

neste café do centro,

que ameaça fechar as portas

ambos têm a sensação de que a vida

é um veloz desperdiçar de tudo

 

onde fora parar o desejo que os animara?

quão ridícula lhes parece agora

a esperança de um beijo

de um encontro furtivo ao fim da tarde

 

o garçom volta a surgir

pergunta

sem esconder o enfado

se ainda querem alguma coisa,

comunica que a cozinha

está por fechar

 

os dois se olham e se desolham

se pudessem ainda pedir alguma coisa

seria uma nova tarde aos 17 anos

mas o que poderiam pedir agora?

 

o que se pode pedir quando o café já vai fechar?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedro Gonzaga

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publicado por ardotempo às 12:23 | Adicionar