Os mentirosos, cruéis e verdadeiros

A verdade nua por baixo de sete véus


Mariana Ianelli


Erico Verissimo dizia que os escritores são todos uns mentirosos. Não é à toa que o avô o reprovava por se divertir inventando histórias que nunca aconteceram sobre gente que nunca existiu. Há uma espécie de dança de Salomé na arte da escrita, um enfeitiçamento, um ludíbrio que dá prazer e no fim nos presenteia com alguma coisa surpreendentemente cruel e verdadeira.


A diferença na vida, supondo que mentimos pelo menos uma vez por dia, todos os dias, é a falta de um toque de delírio nas nossas mentiras, a diferença entre a lei do bom convívio e um obstinado instinto de fantasia. Seria preciso mentir completamente, maravilhosamente, ser um encantador de serpentes, um sonhador incorrigível, para não trair a verdade mas revesti-la com sedas e holandas, cor de púrpura e fúcsia, num enredo de encantos que roubasse da realidade sua palidez, sua monotonia, seu aterro de belezas destruídas. Seria preciso existir uma mentira que pusesse algum fogo mágico em uma das inúmeras versões de um mesmo fato, uma mentira que voltasse a conhecer o seu sentido não pejorativo, a sua natureza de fábula, que nos deixasse mais encantados do que iludidos, e brincando, divagando, desfilasse a verdade nua por baixo de sete véus, uma verdade que, por mais estranha ou terrível que parecesse, ainda assim pudéssemos contar a uma criança sem o perigo de matar sua fantasia.


Porque se o homem é escravo do menino, como dizia Erico Verissimo, basta enterrar o nosso castelo de quimeras para sermos escravos do desgosto, do cansaço, da mentira que perdeu sua realeza e transformou-se na coisa desencantada, o legítimo oposto da verdade, que costumamos chamar de hipocrisia. Nada perdemos de sensatez no gosto pela fábula, de realismo no prazer da metáfora, apenas saímos da condição de miséria para a qual nos arrasta a falta de magia. A dança de Salomé continua a nos dizer o mesmo que nos diz a vida, todos os dias, que, afinal, mais cedo ou mais tarde, sempre perdemos a cabeça. Assim dizem os escritores nos seus devaneios, nos seus rodopios.

 

 

 

 


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve
Imagem: Pintura de Siron Franco

tags:
publicado por ardotempo às 14:03 | Comentar | Adicionar