Pêndulo do destempo

Ausentes da festa


Mariana Ianelli

 

 



O talento inimitável que tinha o avô para reunir quatro gerações da família ao redor de uma travessa de spaguetti ao pesto. A casa era a coxia do mundo, uma zoeira de vozes, de copos se entrechocando, um vagalumear de crianças numa patuscada italiana.

 

Agora é como se voltassem todos. A bisavó aninhada no sofá, tão bonita no seu casaquinho roxo, o tio-avô sentado à mesa com aquele jeito de Capitão Tornado, teatral, delirante, sempre gesticulando, a tia-avó chegando aos poucos, preparando o seu radar para os assuntos de alcova, preferencialmente os mais embaraçosos, os mais picantes, e o avô, nosso Don Corleone, com sua batuta de olhos verdes regendo à distância a órbita dos filhos e dos netos sem dizer uma palavra. É como se voltassem todos, alguém abrisse o velho piano e a música recompusesse nosso caminho entre as estátuas, e o arco da folhagem até o portão de entrada fizesse sombra ao nosso passo, como se tudo se erguesse de novo dentro daquela sala, o relógio de pêndulo do destempo da infância, a fileira embaçada dos retratos, o bandolim na parede, o cocar azul e branco, como se o chão crepitasse, e a injustiça fosse nossa, de pensar que agora é tarde, que estão todos mortos, que a casa está vazia, pronta para ser demolida, e ali pode crescer um prédio de vinte, trinta andares, com balaústres enfeitando os terraços, e que será apenas mais um prédio monstruoso na cidade, não a erupção do nosso columbário.


A verdade é que um ciclo se fecha, outro se abre, e assim a casa vai ficando cada vez mais animada, agora já vêm os parentes distantes, os amigos que há muito não davam notícias e estavam devendo uma visita, vão chegando também as mulheres e até mesmo uma criança, todos ali esperando, esperando ansiosamente, como se os ausentes da festa, por enquanto, fôssemos nós.


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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publicado por ardotempo às 13:21 | Adicionar