SVEGLIA, de Edson Migracielo

 

Lançamento de livro - Bamboletras

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O lançamento do livro SVEGLIA, do escritor Edson Migracielo, que ganhou Menção Honrosa no Prêmio Nacional SESC 2009, será lançado nesta quinta-feira, dia 9 de dezembro, às 19h na Livraria Bamboletras, em Porto Alegre, RS.


Publicado pela editora 7letras, o livro é um romance sobre a liberdade, mas tem uma característica particular: a história é contada sem pausas, em um parágrafo único, no qual diálogos, descrições e devaneios se misturam.


A intenção do autor é valorizar o ritmo e o som da obra, "um delírio da linguagem em transe de escrita", segundo ele.


Trecho do livro:


Chegou num cavalo, com sede. Arfava. Ao redor do pescoço pendia num barbante uma chave pendurada e pelo menos visíveis não eram as asas que proclamava ter. Bradou: água! Quero mais que me ver! Quero me lambuzar no sangue do tempo! Quero nascer! Água! Água! Arfava. Gostava de consumir-se no seu fardo que pertencia a cada um a seu modo e no caso dele era o mistério. O mistério em que refestelava-se levava-o imune pelo  mundo, e ele precisava aceitar como um prêmio aquela dor. Porque era dor também um fardo como o mistério, como o segredo vivo da morte, carregar-se assim como um iluminado e sem chamar a atenção como um passageiro. As pessoas eram roubadas e não percebiam, achavam que ele era apenas condescendente. Mas ele via nos encontros e nos sucessos os efeitos, e os tomava por causas num pressentimento de trás para a frente que era como divertir-se. Com as mais diversas máscaras cuspia atravessado em algumas caras. Como uma invenção móvel e imprecisa, assim moldava-se a cada vez distinto. Pois queria amar mas o amor quanto maior mais implacavelmente o dissolvia no grande pavor de um nada. Mas o céu restava. O céu estava sempre lá e as estrelas vinham à noite e nenhum espelho devolvia com fidelidade seu genuíno suspiro quando alguma delas caía. O fogo ardia num transe e ele pegava-se emprestado algumas chamas altas, para queimar-se. Para cumprir o misterioso fardo de consumir-se. As bolhas das queimaduras estouravam conforme as revoluções da lua e ele era novo. Bastava começar a caminhar e ele já era um rosto sem o sim e o não que conhecia, e cultivava, um rosto fabricado pelo futuro de todos, andando na rua entre mil outros. Famílias e descaminhos atiçavam-lhe a imagem e ele dizia muito, escrevia, ele acabava falando demais e deixava-se perpassar por flechas quando muito mais fácil teria sido abandonar os personagens. Mas não é fácil viajar sem a vida ou mesmo miseramente distante dela. E o fumo, e um café forte cujo cheiro já era uma promessa, café feito às pressas para abraçar a insônia. Para abraçar as máscaras, removê-las atentamente do papel cuidando que suas letras permanecessem unidas como na palavra Sveglia. E assim como a verdade, Sveglia também é sempre o filho trazido do cemitério onde ventava muito quando acordei. Receei que o sono do início fosse querer me levar outra vez: mas eu lembrava mesmo de quando estivera lá dentro, no escurinho líquido, atado por um cordão de carne?

publicado por ardotempo às 18:52 | Adicionar