Olhos remotos

 

Os desaparecidos

 

Mariana Ianelli

 

Os olhos remotos com que nos olham as pessoas da galeria dos desaparecidos.

 

Falo daquelas fotos que vêm no verso dos cupons de pedágio, como para lembrar o meio de estrada em que todos eles se perderam um dia. Fotos que datam da época em que pela última vez foram vistos, há seis meses, dois anos, duas décadas. Meninas que, pela expressão brejeira, inevitavelmente me levam a pensar num destino terrível. Meninos que hoje, se estão vivos, são homens feitos. E também aqueles que eram já mulheres e homens feitos quando sumiram.

 

Deve existir nessa galeria pelo menos um par de olhos autodenunciadores, olhos que já sabiam. Entre os que desapareceram por acidente, por loucura ou por tragédia, existirá pelo menos um, imagino, que partiu sabendo o que fazia. Alguém que não pôde evitar a encruzilhada depois da qual nada voltaria a ser como antes. Alguém que deixou o seu passado ardendo em uma cidade qualquer e que seguiu adiante, sem olhar para trás, como admoesta o anjo.

 

Um pai de família, uma pacata dona de casa, um senhor de negócios, um artista, enfim, alguém que deixou para trás sua impecável biografia e que reapareceu para o mundo na pele de um agricultor, um tropeiro, um eremita. Alguém, não importa mais com que rosto: um outro. Para quem essa antiga foto no rol dos desaparecidos hoje incomodaria tanto quanto os que são procurados pela polícia, por terem cometido o crime de desertar, de abandonar uma história, um ofício, uma família, por terem partido porque urgia partir, assumir um recomeço total. Os olhos remotos com que nos olham essas pessoas que um dia atravessaram uma linha fronteiriça e que, descontando a má sorte, fizeram a viagem que poucos de nós ousariam fazer, a viagem sem rastro, a narrativa apócrifa de uma vida mais rica pelo que perdeu, mais livre pelo que encontrou.

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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publicado por ardotempo às 18:19 | Adicionar