O quadro de barcos e a espinha de peixe

Pedro


António Lobo Antunes

A mulher pôs a travessa na mesa, serviu-o, esperou que ele começasse a comer e disse


- Já não gosto de ti.


Por cima da cabeça dela, um pouco à esquerda, um quadro, representando barcos de pesca na areia de uma praia, que a tia do homem lhes deixara. Ao lado do quadro um prato chinês, preso com dentinhos de arame. A mulher serviu-se mas não começou comer. O homem reparou que tirara a aliança, e a mão pareceu-lhe mais bonita assim nua.


- Já não gosto de ti


repetiu ela. O jantar era peixe assado e uma ambulância passou aos gritos na rua. O homem teve a impressão que o andar estremecia com o ruído. Reparou também que a mulher apanhara o cabelo com o elástico e, contra o costume, não se maquilhara.


- Para poder chorar à vontade pensou. Pensou


- Detesta que a pintura lhe escorra pela cara abaixo


e demorou-se à cata de uma espinha que sentia no interior da boca e custava a encontrar com a língua.


- É a primeira vez que te vejo sem aliança


disse o homem, através do peixe e das batatas. Lembrou-se da mãe


- Engole primeiro e fala depois


sozinha no seu apartamento de viúva. Não jantava, essa: bebia chá e fazia uma torrada. Quase sem manteiga porque o colesterol andava alto. A mulher remexia o prato com o garfo, olhando-o sempre.


- Acho melhor separarmo-nos


disse ela, juntando as batatas com a faca


- Acho que a única solução é separarmo-nos


e o homem a lembrar-se da tia do quadro, de chapelinho quando saía às compras. De chapelinho sempre. Sem mencionar o broche. Morava com o gato. Talvez o melhor fosse comprar um gato. Perguntou


- Porquê?


e logo a seguir descobriu a espinha. Em vez de a depositar no talher, numa espécie de beijo, puxou-a com dois dedos.


- Que modos


ralhou a mãe ausente, e por pouco não sorriu à mãe, a concordar. Sentia uma espécie de cócegas no interior do peito, o coração, talvez.


- Não quero viver mais contigo


disse a mulher, e o homem teve a certeza de se encontrar com uma estranha. As cócegas no interior do peito aumentaram. O filho achava-se de férias com o irmão da mulher, e ele deu por si com saudades do filho.


- Queres viver com quem?


perguntou o homem, já salvo da espinha e com a boca livre. Livre o tanas: a vida inteira enrolada nos dentes.


- Tenho medo que me dê uma coisa


pensou ele a olhar o quadro dos barcos


- Tenho mesmo medo que me dê uma coisa


e a mulher afigurou-se-lhe, de súbito, um carrasco implacável.


- Podes não gostar de mim mas eu gosto de ti


disse o homem com o olho no quadro dos barcos, a recomendar a si mesmo não te enerves, não percas a cabeça, não faças cenas. A tia, de chapelinho, afagava-lhe o ombro


- Não é o fim do mundo, Pedro


anunciava ela no seu tonzito agudo


- Não é o fim do mundo.


Podia não ser o fim do mundo para a tia mas era o fim do mundo para o homem.


- É melhor que saias até domingo, antes que o miúdo volte


disse a mulher. Há quanto tempo andava ela a magicar aquilo?


- E para tua informação não quero viver com ninguém, quero ficar sozinha.


O peixe começava a esfriar, o mundo inteiro gelado, uma segunda ambulância em gritos diferentes. Não eram só as cócegas no interior do peito, verificou o homem, as pernas tremiam-lhe, os braços tremiam-lhe. Até a garganta tremia


- Isabel


e a mão da mulher sem aliança, tranquila, poisada na toalha.


- Nunca simpatizaste com o quadro dos barcos, pois não?


perguntou ele, nunca simpatizaste com o quadro dos barcos e já não gostas de mim. A mulher não tocara no jantar. O homem poisou os talheres, lutando com as lágrimas. Acontecesse o que acontecesse ia a conseguir vencê-las. E limitou-se a desejar que a próxima ambulância o levasse consigo.

 

António Lobo Antunes

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publicado por ardotempo às 10:08 | Adicionar