Contorno de imortalidade

Marguerite Duras

 

Mariana Ianelli

 

Um homem aborda uma escritora em um saguão para lhe dizer que aprecia menos o seu rosto de moça do que o seu rosto de agora, devastado.

 

Assim começa O Amante, de Marguerite Duras. A história que se segue, no período entreguerras, em Saigon, é uma leitura das linhas que sulcaram esse rosto. A história de um amor que se imprime na pele e que não se pode remover, apagar, como hoje fazem algumas mulheres, belas mulheres de rosto limpo, repuxado, sem história.

 

Marguerite tem 15 anos e meio quando vive o escândalo de uma paixão por um chinês 12 anos mais velho. Ela não sopesa o escândalo. Não sente vergonha nem desonra, apenas se lança, sente que deve se lançar, deitar-se com aquele homem, seu primeiro amante, em uma garçonnière no bairro de Cholen. Esse desejo desesperado, que transformou o rosto da escritora e ofuscou os outros amores de sua vida, está presente em todos os seus livros. Mas é somente depois de enfrentar um dificílimo período de desintoxicação alcoólica que Marguerite Duras dá à luz a versão original da história que singularizou a sua escrita.

 

Marguerite tem, nessa época, 70 anos, e quem lhe assiste na convalescença é Yann Andréa Steiner, seu último amante, 38 anos mais novo do que ela. Não parece ser por acaso que os extremos da vida literária da escritora sejam marcados por amores que contornam longas distâncias de tempo. Então releio um outro texto seu, um texto curtíssimo, As mãos negativas. Este é o nome que se dá às pinturas encontradas em cavernas pré-históricas da Europa Sul-Atlântica, pinturas vermelhas, amarelas, brancas e negras de mãos que foram decalcadas naquelas paredes de pedra há 30 mil anos. Mãos negativas, mãos que se deixam ver quando já não estão ali, mãos esquecidas do vazio de que são feitas.

 

Curiosamente, em um livro intitulado Yann Andréa Steiner, Marguerite diz: “Nunca se conhece a história antes que ela seja escrita. Antes que tenham desaparecido as circunstâncias que levaram o autor a escrevê-la”. Foi assim que, partindo da Indochina para a França, a jovem menina branca descobriu que havia amado o homem de Cholen. Era assim que Marguerite Duras amava Yann, confessando-lhe que não há beijo derradeiro. Quem sabe seja também este o segredo dos livros eleitos pela nossa sede de espírito. Uma identificação imediata, um amor através do tempo, não apenas o sinal de uma vida que esteve ali, mas o contorno de sua imortalidade, sua presença.

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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publicado por ardotempo às 11:26 | Adicionar