Conto de José Mário Silva


IC-19

 


Há muitas coisas no mundo que não compreendo. Mas o que me atormenta mesmo, palavra de honra, é não entender por que carga de água existem engarrafamentos. É um mistério inexplicável, um enigma. As filas de automóveis formam-se, crescem, esticam-se por quilómetros e quilómetros, mas quando uma pessoa chega ao sítio onde era suposto haver um estrangulamento, um desastre, qualquer coisa de grave, verifica com espanto que não há nada de anormal e que o trânsito até flui com facilidade.

 

Confesso que este fenómeno não só me deixa perplexo como profundamente irritado. Já que um homem esperou não sei quanto tempo fechado num carro, com os nervos em franja e a paciência a ferver, ao menos que fosse por uma razão forte, um acidente com vários automóveis amachucados, com pessoas feridas na berma e muitas ambulâncias e bombeiros e macas, uma coisa em grande, digna de ser mostrada no telejornal das oito. Mas quase nunca há razão forte nenhuma. Na melhor das hipóteses, estão dois homens de gravata a discutir por causa de um farolim partido. Ou então é uma senhora que deixou o carro ir abaixo e não consegue pô-lo a funcionar por causa dos nervos e das buzinadelas. São sempre coisas destas, coisas menores. Nunca nada que justifique tantas horas com o pé na embraiagem, tantas horas num pára-arranca que nos mói o juízo.

 

No outro dia, lá no emprego, o Antunes tentou explicar-me o mistério. O Antunes é um tipo assim para o esquisito. Tem perto de dois metros de altura, quase outro tanto de lado e raramente toma banho. Há quem lhe chame o urso, mais pelo cheiro do que pela envergadura. Além disso, é gago, passa a vida nos corredores a meter conversa e tem a mania de que é muito inteligente. A meio da manhã, quando saí para beber café, estava ele a falar com o Fernandes sobre o El Niño e a dinâmica imprevisível dos furacões. Quando voltei, a vítima era a Micaela, encostada à parede a ouvir histórias sobre um tal Mandelbrot, matemático ou coisa parecida, um tipo de certeza ainda mais esquisito do que o Antunes. Ele a dar-lhe com o Mandelbrot e a Micaela, coitada, a perguntar: "Mandelquê?"

 

"Man-Man-Mandelbrot", exclamou o Antunes. Com a minha aproximação, a Micaela pôs-se a milhas, enquanto o urso me pregava uma violenta palmada nas costas e dizia "nem de pro-pro-propósito". Era mesmo comigo que queria falar, garantiu-me, porque já descobrira a solução para a minha dúvida existencial. Referia-se, é claro, à história dos engarrafamentos, que eu mencionara uns dias antes, nem sei bem porquê. Segundo ele, o tal Mandelbrot tinha a ver com uma coisa chamada fractais e com uma outra coisa chamada teoria do caos.

 

"Num sistema, pequenas alterações nas condições iniciais podem provocar grandes alterações nas condições finais", disse o Antunes, orgulhoso da sua sabedoria. E eu a esbugalhar os olhos, a dizer "troca lá isso por miúdos". E ele a especificar que "basta um carro abrandar o ritmo, uma coisa de nada, para que esse abrandamento se propague e amplie na sucessão de carros que vêm atrás, provocando um abrandamento generalizado que vai ao ponto de criar uma paragem do fluxo automóvel; ou seja, o engarrafamento".

 

O Antunes é um sabichão mas não me consola. Porque a verdade é que estou parado no IC-19, com milhares de automóveis à minha frente e meia-hora para chegar ao emprego. Saber se a culpa foi de um acidente ou de um abrandamento generalizado é igual ao litro. O que interessa são os factos e os factos dizem-me que estou preso dentro do meu próprio carro, com o motor em ponto morto e a pequena árvore desodorizante a baloiçar, a baloiçar, a baloiçar, pendurada no espelho retrovisor. Estou preso eu e estão presos milhares de outros como eu, que também picam o ponto às nove, que também ganham uma miséria, que também vivem em apartamentos no Cacém e em Queluz, apartamentos T1 com manchas de humidade nas paredes e vista para outros prédios, outros como eu que também pegam no carro todos os dias a pensar "isto não é vida", outros como eu que também desconheciam a origem misteriosa dos engarrafamentos e talvez ainda desconheçam, porque apesar de tudo gajos como o Antunes contam-se pelos dedos.Olho para o relógio digital do meu Opel Corsa e percebo que vou chegar atrasado, mais uma vez. O relógio pisca 08:40, 08:40, 08:40, como antes o despertador piscou 07:30, 07:30, 07:30.

 

É uma violência, acordar com o som estridente do buzzer e aqueles algarismos vermelhos a dizerem-me que não posso fechar outra vez os olhos, que tenho de saltar da cama, atravessar a cozinha descalço, acender o esquentador, enfrentar um rosto em ruínas no espelho da casa de banho, espalhar o creme da barba, fazer um slalom gigante com a lâmina de barbear, ter cuidado para não deixar pêlos no lavatório (caso contrário a Irene aproveitará logo para vir com os seus remoques), entrar para o duche rápido, sair do duche, vestir roupa lavada, acordar a Irene, engolir à pressa um prato de corn flakes, pentear o cabelo com um nadinha de gel, ajeitar o nó da gravata no espelho do hall de entrada, descer no elevador com a vizinha do sexto direito que trabalha num escritório das Amoreiras, beber um café na pastelaria da esquina e chegar ao carro convicto de que hoje vai ser diferente, de que hoje não haverá trânsito nenhum, embora saiba que no IC-19 já está a ser montado o inferno do costume.

 

O inferno, sim senhor, o inferno. Sem labaredas e sem demónios, mas inferno. Aliás, o castigo que nos reserva o outro mundo, a nós pecadores, deve ser isto: um engarrafamento infinito, eterno. O relógio agora pisca 08:50, 08:50, 08:50 e ainda estamos a uns quilómetros de Lisboa. O inferno, sim senhor. E por falar nisso espreito os outros condenados, os meus companheiros de infortúnio. No automóvel em frente, um homem de meia-idade, careca, estendeu o jornal desportivo sobre o volante e lê as últimas sobre o seu clube. No carro ao lado, um casal de trombas. Estiveram de certeza a discutir quem teve mais culpa no atraso, agora estão calados, ele a sintonizar o rádio e a esfregar os olhos, ela a fazer crochet, talvez uma camisolinha para o neto que há-de nascer daqui a uns meses. Atrás de mim, um yuppie de óculos espelhados a gritar, furioso, para um telemóvel.Passam dez minutos. Na fila ao lado, o casal de trombas avança. O carro que vem logo atrás apita. É o Antunes. Apita, gesticula, baixa o vidro. Eu também baixo o vidro e olho para o relógio: 09:04, 09:04, 09:05.

 

Ele grita: "Nunca mais lá chega-ga-gamos". Pois não, digo eu. "É uma cha-cha-chatice", torna ele. Pois é, respondo. E lá vamos nós, lado a lado, sorrindo um para o outro de vez em quando, encolhendo os ombros e abanando a cabeça, resignados aos abrandamentos generalizados que nos paralisam a vida, enquanto o tal Mandelbrot deve estar neste momento a fazer contas num quadro de ardósia, algures num instituto que fica, aposto, a cinco minutos a pé de sua casa.

 

 

 

 


© José Mário Silva - Efeito Borboleta e outras histórias - Edições ARdoTEmpo, 2010

publicado por ardotempo às 17:52 | Adicionar