A casa fala

O espectro dos velhos hábitos


Mariana Ianelli

Um dos mais arrepiantes casos de fantasma que já ouvi foi de um funcionário que trabalhava na oficina da casa de meu avô. A história não era de pregar susto, era até muito sutil. Um homem e uma mulher lhe apareciam na oficina todas as tardes, no mesmo horário, e passavam os dois tão absortos, tão inofensivos, que o assombroso ali era uma terceira presença, infiltrada na penumbra entre corredor e escada, a observá-los. O assombroso era a visão de uma sobrenatural banalidade.

Entrei naquela oficina algumas vezes, uma delas memorável, quando eu e minha prima, crianças enlouquecidas, enchemos as mãos com pó de alumínio e saímos prateando os jardins da casa. A proeza nos rendeu a fúria do avô e horas de castigo de frente a uma parede. Com o tempo, a atmosfera semi-arruinada do lugar naturalmente me expulsava. Se pisava ali, era a contragosto, num relâmpago, inventando alguma operação de resgate que justificasse a invasão de território alheio. O escuro, o frio, a poeira, anfitriões do lugar desde décadas, recebiam-me logo na entrada. Bastava-me ver a um canto as serras e as talhadeiras enferrujadas para considerar dispensável um fantasma.


É um tremor sem sobressaltos, um tremor contínuo e baixo, como um murmúrio, que se instala em certos lugares abandonados, onde o universo imperceptível do limo, das teias e da sujeira enfim se expande e abraça cada objeto até o completo desmanche de sua forma. A oficina, agora eu vejo, sempre me apavorou por condensar ali o espectro dos velhos hábitos, essa morte lenta e indisfarçável que um dia tomaria conta da casa.

 

 

 

 

 

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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publicado por ardotempo às 13:33 | Comentar | Adicionar