E outras coisas

O cabo ferrador


António Lobo Antunes

 

Duzentos euros por mês não dão para muita coisa: uma sopinha e uma maçã ao almoço, uma sopinha e uma maçã ao jantar. Nos intervalos pede-me cigarros


- Não há por aí um cigarrinho a mais, doutor?


ou senta-se nas esplanadas até o mandarem embora, tratando-o por tu


- Põe-te a andar


e ele lá segue para o café próximo a arrastar um sapato sem atacadores. Não aceita esmolas, não aceita dinheiro, só pede cigarros aos amigos


- Só peço cigarros aos amigos


de acordo com o seu código aristocrático de miséria. Quando quis oferecer-lhe uma camisola recusou ultrajado


- Sou algum infeliz, eu?


e levou uma semana a perdoar a minha incompreensão da sua dignidade Você pode ser doutor e escrever livros mas não percebe nada da vida e tem razão, não percebo nada da vida. O seu maior orgulho é ter feito a tropa em Chaves


- Em Chaves, senhor


e eu, que nunca fui a Chaves, esmagado de respeito por Chaves pela maneira como ele fala


- Quem não conhece Chaves conhece pouco do mundo


e tem razão outra vez, conheço pouco do mundo. Pergunto-lhe


- Como é Chaves, senhor Ismael?


e em vez de resposta olha-me, durante uma eternidade, com pena sincera, até erguer ao alto, por fim, a mão de unhas duvidosas, unidas em cacho para dar ênfase à maravilha da cidade. A mão acaba por descer a fim de aceitar um cigarro


(um cigarrinho)


e o senhor Ismael a estender-se para a labaredazita do isqueiro


- Tem montanhas perto


e o


- Tem montanhas perto


deixado cair como uma moeda fora da circulação, pequena condescendência a um ignorante que não merece que se gaste tempo em explicações. Depois de tossir o fumo acrescenta


- E outras coisas


submerso em inesquecíveis lembranças militares, paisagísticas, amorosas


- Gajas boas não faltam


gajas boas a inundarem, só para ele, as ruas de Chaves, sorrindo-lhe, piscando-lhe o olho, chamando-o num sussurro prometedor


- Ismael


e o senhor Ismael, é claro, a dar conta do recado


- Sempre dei conta do recado, doutor fossem dez, vinte ou cinquenta

- Pelos ossos da minha irmã que está na cova que aviei seis numa tarde
sem tirar o bivaque de magala
- Mostre-me uma mulher que não goste de fardas


as mulheres e o senhor Ismael gostavam de fardas, puxou de uma espécie de carteira que, com o tempo, adquiriu a forma da sua nádega, na carteira o retrato seboso de um soldado


- Soldado vírgula, amigo, cabo ferrador


o retrato de um cabo ferrador, cheio de infância na cara mas inigualável a aviar, em que levei tempo a descobrir a criatura de agora, já sem infância nenhuma na cara, pregas, cicatrizes, a pele a lembrar-me o mapa de Portugal da minha escola, com uma cagadela de mosca no Alentejo e uma segunda mesmo ao lado de Faro, nas feições do senhor Ismael também os pontos negros das cidades, rugas iguais ao Guadiana e ao Douro, a ponta de Sagres do queixo, o estuário do Tejo da boca e, a propósito de boca


- Não se arranja um bagacinho que tenho a língua seca


mostrando-ma a sair das gengivas desmobiladas, guardando-a de novo


- Sequíssima


pronta à lubrificação do bagaço, metido na goela de uma só vez, à homem


- Quem não mete o bagaço de uma só golada não é homem nem é nada


seguido de soluços e lágrimas afastadas com desprezo pela manga


- A gente envelhece


e no meio das lágrimas do bagaço uma lágrima diferente, que ele percebeu que eu notei dado que


- Isto passa


de súbito quase menino, quase aflito, quase a abraçar-me, o retrato do magala por uma pena, cheio de infância na cara. Disse


- Doutor


repetiu


- Doutor e ficámos os dois que tempos em silêncio porque na realidade o


- Doutor


um discurso compridíssimo, com todas as suas desgraças dentro. Passado um grande bocado acrescentou


- Tenho dormido num degrau, sabia?


levantou-se da cadeira e foi-se embora, aposto que sem pensar em Chaves, nos montes, nas gajas, todo inteiro no interior de uma incomodidade com picos que o atormentavam, o filho morto em criança, a mulher ida com um caixeiro viajante, os duzentos euros, a sopinha. Mas havia de acabar por animar-se


- Isto já passa amigo


porque não há azares que um cabo ferrador como deve ser não aguente, em sentido para o toque a silêncio, que nos mexe a todos por dentro e é o mais bonito que existe.

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publicado por ardotempo às 05:00 | Comentar | Adicionar