Não há polêmica

Uma planície acomodada no horizonte


Mariana Ianelli

 

 



Meu sobrinho de quinze anos se diz ateu. Sem dilema, sem afronta, em uma conversa arejada durante um almoço em família, a declaração se dilui na sequência de um por favor, você me passa a salada?. Justificativas são desnecessárias.

Nenhuma palavra sobre campos de sangue, sobre o fato de tê-los havido sempre, nem sequer uma arremetida irônica, como por exemplo, a injustiça no mundo, esta sim, é onipotente. Nenhuma elucubração sobre lance de dados ou comentário maldoso sobre o cilício por baixo das togas. A espada e o machado trabalhando em nome da fé, cidades incendiadas, crianças atiradas contra um rochedo, homens tratados feito erva seca por um deus vingativo e ciumento, nada disso alimenta a polêmica. Não há polêmica.


Meu sobrinho não bate o punho na mesa para defender suas razões. Não faria o que fez meu bisavô comunista, que se recusou a entrar na igreja no dia em que se casaram os meus avós. Sua declaração é uma planície acomodada no horizonte, uma quase natural indiferença. Pode desconhecer muitas coisas, não compreender outras tantas, mas o que é orfandade ele sabe, desde pequeno, quando ainda mal caminhava e aquele que aparecia, com o sol estrelado no rosto, de braços estendidos, para buscá-lo aos domingos, todos os domingos, de repente, quase naturalmente, não apareceu mais.


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

publicado por ardotempo às 17:17 | Adicionar