Olhar que conta

 

Inteira paisagem

 

 

 

 

 

 

Ela vê o mundo desde um mirante e nós dizemos que ela tem o olhar perdido. A solidão da avó nos desconcerta, nos intimida.


Ela não se lembra do dia de ontem, mas sabe descrever em detalhes a maçaneta de porcelana da sua casa de infância. Toda semana põe flores no túmulo do avô como num galanteio de namorada. Adora ouvir Nat King Cole cantando Quizás, Quizás, Quizás. Vive chamando o filho para uma visita, mas não se engana em aguardá-lo. Suas horas são contadas no ponto de cruz do bordado. É uma pena, mas já não pode tomar aquele dedinho de uísque durante a tarde. Ela se emociona tão facilmente. Gosta de presentear os netos com seus pertences, um vaso peruano, uma toalhinha de crochê, um colar de pedra, gostaria de dá-los todos.

 

Ainda guarda a herança de uma caixa com cartões-postais antigos, entre eles, a reprodução de um retrato do Marechal Floriano Peixoto, em cujo verso se lê: “hontem chegou-me às mãos tua prezadíssima missiva”. Lamenta que já ninguém se recorde daqueles versos de Vicente de Carvalho: Só a leve esperança, em toda a vida, / Disfarça a pena de viver, mais nada...

 

E se alegra com a lembrança daquela época, na casa da rua da Abolição, quando sua mãe comprou do Zequinha de Abreu a partitura de Tico-Tico no Fubá.


Ela me conta dezenas, centenas de vezes a mesma história, sempre como se fosse a primeira vez. Contempla cada coisa vivida e, sozinha, em segredo, possui a inteira paisagem da sua vida num êxtase de montanhista.

 

Não temos culpa se não vemos o que ela vê, lá de cima. Um dia, um dia também será o nosso olhar no infinito.


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

 

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publicado por ardotempo às 12:53 | Comentar | Adicionar