As birras do pai

 

Janjão

 

António Lobo Antunes

 

 



Há quatro ou cinco dias, no intervalo do livro, abri um dos sete envelopes grandes e pardos que o meu pai deixou cuidadosamente numerados sob o meu nome, António, escrito na sua caligrafia bonita, um pouco inclinada para a direita, um pouco preciosa demais, um pouco petulante e que, de certa forma, o retrata inteiro, e encontrei os bilhetes-postais que o meu avô lhe mandava da guerra em França, com gravuras infantis estampadas que o tempo não tornou apenas mais atractivas, tornou encantadoras.

 

A maioria são redigidos a lápis, cheios de recomendações, promessas e pedidos de bom comportamento, o meu pai tinha dois anos, não sabia ler (era de certeza a minha avó que lhos lia) e começavam sempre por Querido Janjão. De repente o adulto que conheci toda a vida tornou-se uma criança que podia ser meu neto, fazia birras, não queria comer, "aborrecia a mãizinha" e eu a olhar aquilo com pasmo, a pensar num pai criança e num avô de vinte e sete anos, a pingar de ternura, e a desejar que em menino pingassem uma ternura igual sobre mim. Sempre senti um amor imenso pelo meu avô ao ponto de, ainda hoje, lhe beijar o retrato quando não estão a olhar.

 

Era o homem mais viril e corajoso que conheci, capaz de expansões de afecto que nunca esquecerei, o verdadeiro fundador de uma dinastia a que me orgulho de pertencer, mas o que me intrigou nos postais foi o facto de o meu pai haver sido o Janjão, nome que jamais ouvira em relação a ele. Para mim o seu nome foi sempre Pai e julgo que o conheço melhor agora, seis anos depois da sua morte. É curioso como foi mudando cá dentro neste tempo, compreendo-o melhor, perdoo-lhe sem dificuldade os defeitos mas continuo a não ser amigo dele, a ser apenas seu filho e é assim que quero que a nossa relação prossiga, porque há-de prosseguir, quer eu deseje quer não, até me fecharem uma tampa em cima e me mandarem para os Jerónimos com honras de Estado. A vida é um tribunal inesperado e o julgamento do pai pelo filho um acto impiedoso e terrível, encarando-o num ressentimento acusador. Sou consciente dos defeitos e limitações dele como sou consciente das suas qualidades, e a casa de Benfica, onde vivemos até adultos, os meus irmãos e eu, tornou-se um lugar vazio e triste sem a sua presença. Tudo mudou permanecendo igual mas a sua falta faz-me coxear, sem dar por isso, de compartimento em compartimento.


Está em todos e não está em nenhum, o Janjão, que se manteve, a vida inteira, embirrento, teimoso, egoísta, como o meu avô mansamente lhe dizia de França, nos seus postais antigos, ele que podia não ser muito inteligente mas sempre admoestou com doçura, característica que o Janjão não tinha.


E no entanto, ao escrever sobre o pai nos tais envelopes grandes e pardos, a sua habitual rigidez torna-se surpreendentemente terna, de uma ternura contida mas óbvia, que o Janjão não mostrava ou lhe era muito difícil mostrar, sob uma espessa fachada de intransigência severa. A minha mãe sustenta que o Janjão foi feliz, "o homem mais feliz que conheci porque só fez o que queria". Não estou bem de acordo com ela. Acho que só fez o que queria, sim, mas sempre senti nele o desejo secreto de fazer o que não queria se para tal o ajudassem, mostrando-lhe que não ficaria destruído se pudesse estar mais próximo dos outros, longe do feroz individualismo que usava para ocultar uma fraqueza quase infantil, de que o receio de se exibir tal qual era o impedia.
O facto de guardar preciosamente todos aqueles Janjões, que mais ninguém conhecia, tocou-me, quase me deu vontade de lhe pegar ao colo, garantir-lhe que havia, para ele, um lugar no mundo fora dos muros com cacos de vidro em cima, tantas vezes construídos de má-criação e violência, de que se rodeou.

 

Não o estou a julgar, Janjão, estou a falar de si com serenidade.


Em certos momentos, imensamente raros, esquecia-se do papel que tinha de representar e que talvez um postal, vindo da guerra no estrangeiro, ajudasse a prolongar um pouco. Claro que herdei alguma coisa dele: a solidão feroz, a capacidade de ser horrivelmente desagradável para os outros, os caprichos não tão incompreensíveis quanto isso, apenas defensivos, a agressividade injusta, o receio que me toquem demasiado fundo e fique tão sem pele, tão vulnerável, tão à mercê dos outros. Salvei-me através da escrita, matéria para a qual o Janjão, com grande dor sua, não tinha o menor talento.


O sonho secreto dele era ser artista mas faltava-lhe a sensibilidade, os meios de expressão, o que ele chamava "a faísca". Julgo que se orgulhava de mim e portanto, agora, não se encrespe comigo ao dizer-lhe, querido Janjão, que se o menino se portar bem e não aborrecer a mãizinha o paezinho, seu filho, manda-lhe um presente muito engraçado para o Janjão brincar até eu voltar à sua casa, bater à porta da sua sala, onde estava sempre sentado, com uma prancheta nos joelhos, e lhe dizer a sorrir Olá pai antes de roçar a bochecha na sua (nunca nos beijámos a sério) e ocupar o divã para falar consigo.


António Lobo Antunes

tags:
publicado por ardotempo às 19:36 | Adicionar