Os que podiam tudo

 

 

ASAS ESCONDIDAS

 


Mariana Ianelli

 

 


 


Fujo a todas as reuniões de turma. Algo a ver com aquela parábola das sementes que caem entre espinhos. O terror de ver o que definhou nos outros, como em mim definhou a paixão pela biologia. O que terá sido feito daquele garoto, exímio no desenho e na música, e daquele outro, galo de rinha, que sempre desafiava os professores? Quero acreditar que nenhum deles perdeu a audácia, que continuam triunfantes no seu ímpeto de vida.

A célebre foto do colégio: os meninos desalinhados no topo da escada, ainda pouco à vontade com seus próprios tamanhos, tumultuando o cenário num ato de rebeldia contra a solenidade do instante. Um degrau abaixo, as meninas, tão loiras, tão bonitas, diabolicamente sorridentes, maliciosas no seu ar de primavera, cada uma encarando a lente do fotógrafo como uma sibila mira outra sibila. Mais abaixo, a fileira dos melancólicos, dos meninos velhos atrás dos óculos, enfrentando a câmera com aquela ponta de angústia de quem já se vê ali do outro lado, no extremo oposto da história. Lá em cima, à direita, comandando o encouraçado, o antiquíssimo professor de matemática, que um dia simplesmente desistiu de ensinar à nossa turma o logaritmo.


Não sei quantos hoje são pais de meninos iguais a eles ou quantos já se esqueceram de que podiam tudo. Sei de dois que ficaram eternos naquela foto. Um garoto moreno, de sobrancelhas cerradas, rosto árabe, quase um homem, ali à esquerda no topo da escada e, mais abaixo, uma menina de cabelos pretos, riso aberto, peito alto, ambos iluminados, congelados no tempo, com suas asas escondidas atrás das costas.


Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

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publicado por ardotempo às 18:54 | Adicionar