Aldyr Garcia Schlee - CONTO INÉDITO


LA FOLIE ET L’AMOUR

Aldyr Garcia Schlee

 


Desde muitos anos antes de eu nascer, meu tio tinha um aparelho mágico que não sei bem como chegara a suas mãos: se fora como um presente, trazido da Europa pelo padrinho de minha irmã, juntamente com uma máquina de escrever; se fora como algo surrupiado em Jaguarão do espólio do sr. Tomazzo Aimone, que era pai de meu próprio padrinho e que havia explorado em Pelotas uma casa de cinematógrafo.

 

Aquele mágico ou pelo menos misterioso aparelho servia para ver as coisas como elas seriam, se fosse verdade; mas era de mentira, pois embora as mostrasse como verdadeiras, só nos deixava a impressão disso ao fazer de conta que ali elas não eram de mentira e ao gerar a ilusão de que ali elas existiam realmente.

 

Faz tempo. Eu não era nascido, meu pai e minha mãe ainda nem se conheciam, o irmão mais velho de minha mãe já era moço e se dizia sacrílego. Terá sido quando o futuro padrinho de minha irmã voltou da Europa, trazendo como grande novidade a inesperada e inacreditável máquina alemã Adler, uma alta, grande e rara “typewrite machine” – a primeira em que eu viria um dia a escrever. Ou foi quando se quedaram abandonados em Jaguarão os restos dos despojos do cinematógrafo de seu Tomazzo Aimone. O certo é que meu tio tinha aquele aparelho desde antes de eu nascer; desde quando fora a Porto Alegre fazer concurso para calígrafo da polícia civil.

 

Era uma caixa, uma simples caixa de madeira ornamentada que, fantasticamente se abria de dentro para fora dela mesma e se armava para a gente olhar como por um binóculo e ter ali, diante das vistas, imagens deslumbrantes das mais famosas batalhas, dos mais importantes monumentos e dos mais distantes e exóticos lugares do mundo.


A Lápia, a Hercínea, a Tingitânea

O Touro de Perilo, Hercule et Omphale, a medusa de Caravaggio.

A batalha de Ourique, a de Badajoz, a do Salado.


Faz muito tempo. Meu tio recém fora levado pelo futuro padrinho de minha irmã a conhecer mulher, num prostíbulo da beira da praia, onde haveria de ser apresentado a uma china chamada Ignez, suficientemente louca para atendê-lo de graça como o primeiro e último homem do mundo, para iniciá-lo enfim nas mais inesperadas e surpreendentes formas de fornicação humana e animal. Ele ainda era guri, contam; mas foi preciso arrastá-lo à força daquele puteiro imundo, de onde não queria mais sair, onde insistia em ficar o tempo que fosse, sem arredar pé da louca Ignez.

 

Faz muito, muito tempo. Seria de se pensar que tudo aquilo poderia ser esquecido, que nunca mais seria lembrado, que nunca seria revelado (como nunca foi revelado à minha avó, para não se somar como mais um desgosto no rosário de desgostos em que ela rezaria a vida inteira pela salvação da alma de seu pobre filho, meu tio). Assim, o esquecimento, a deslembrança, o segredo acabaram borrando o suceder da vida de meu tio desde antes que eu tivesse nascido. De modo que fica difícil agora rememorar o olvidado. Restou durante algum tempo a rejeitada máquina de escrever; resta comigo o instigante e maravilhoso aparelho que acompanhou meu tio a vida inteira como se fosse coisa de mentira; e já não resta mais nada que possa ser lembrado.

 

Esqueceu-se tanta coisa vista que aquele aparelho quase se perdeu no tempo e, para muitos, é ou foi como se não houvesse existido; mas, sendo um velho objeto que servia para ver as coisas como foram ou deveriam ser, não se pode dizer que era de mentira – pois só o que se via, isso era mentira (não propriamente mentira, mas sim umas figuras, umas imagens, umas estampas caprichosamente coloridas pelo avesso, devidamente emolduradas sob rubrica francesa como “tableaux vivants” e que, postas diante de nossos olhos deslumbrados, revelavam-se imediatamente como se nunca tivessem deixado de ser o que deveriam ser e eram de verdade).


Les vues stéréoscopiques

Meu tio era como um quarto de século mais velho do que eu; e desde pequeno fora capaz de ultrajes, profanações e sacrilégios. Uma vez, chegara ao confessionário da Matriz e dissera ao padre, de maneira a ser ouvido pelas beatas em volta: não me arrependo de ser pecador – sabe? –; e, por isso, não me importo de te mandar daqui mesmo pra puta que te pariu. Antes havia metido a mão por baixo do vestido de veludo da Virgem – e descobrira, aos berros, que a santa era só uma armação de madeira por dentro, com pés, cabeça e mãos de louça! E desde muito vinha mastigando hóstias, mantendo-as na boca mastigadas, trazendo-as mastigadas para casa, num lenço – e rindo com naturalidade daquilo.

 

Pois um dia meu tio fora a Porto Alegre fazer concurso para calígrafo da polícia. Como o convenceram disso, não sei; como também não sei bem se viajou no vapor Juncal ou no Jenny Naval, se minha avó deu-lhe dinheiro bastante e se ele levou consigo o mágico estereoscópio e suas vistas – os seus quadros vivos. O certo é que foi a Porto Alegre aparentemente com uma única finalidade: a de fazer concurso para calígrafo da polícia civil.

Les tableaux vivants


Os quadros vivos eram montados em molduras de cartão grosso, com duas figuras aparentemente iguais postas lado a lado, num retângulo de uns 9 x 18 cm, coloridas e sombreadas manualmente pelo reverso, em diferentes camadas de papel de seda muito fino e transparente, de maneira tal que observadas através de um visor binocular, contra a luz, davam a impressão e per-mitiam a ilusão de uma única imagem, apresentando relevo e profundidade.Ainda tenho comigo apenas e exatamente trinta dessas vistas, das muitas dezenas que pas-savam pelo visor, uma a uma, e a cada vez reviviam-se ante nossos olhos e nossa imaginação. Já não sobra quase nada das coleções de dúzias e dúzias delas, que foram se extraviando, se extraviando, e se perderam definitivamente no esquecimento. Também ainda tenho comigo a surpreendente caixa do estereoscópio: ela permanece fechada – ao lado do montezinho de vistas desusadas, presas entre si por um elástico – sem abrir-se e desencantar-se, avolumando-se sobre si mesma num prodigioso aparelho; tem só um palmo de comprimento por meio de largura, com guarnição de prata lavrada nos quatro cantos da tampa, fecho igualmente de prata, com um aplique posto no centro, talvez para a gravação do monograma do proprietário (mas sem qualquer inscrição).


Porto Alegre, 1929


Meu tio fez concurso para calígrafo da polícia numa quinta-feira à tarde (chegara três dias antes, depois de dois de viagem num vapor desde Jaguarão). Havia mais onze candidatos numa sala escura fedendo a creolina, onde foram dispostas doze largas classes escolares duplas, com tinteiro embutido – ficando cada um numa classe, fazendo-se ditado de duas páginas de um detalhado inquérito policial; e, depois, dispondo-se de até uma hora para copiar o maior trecho, com o menor número de erros e a letra mais parelha possível do Canto III de “Os Lusíadas”.


Agora tu, Calíope, me ensina

o que contou ao Rei o ilustre Gama


Desde a chegada, meu tio metera-se em Porto Alegre nos puteiros da Pantaleão Telles, ruela que se espremia pelo costado da Matriz em direção à velha ponte de pedra, lá embaixo. Embora estivesse ali com a única finalidade de fazer concurso para calígrafo da polícia; e, embora eu não seja capaz de afirmar que ele tenha levado e utilizado o estereoscópio, duvido que não o aproveitasse para impressionar e empolgar as mulheres, acionando-o com indispensáveis gestos estudados tanto de precisão como de encantamento – e as imagino cercando-o, atraídas pela maquina mágica, surpresas e curiosas, arrepiando-se alvorotadas com suas inimagináveis figuras como dos mais longínquos lugares desconhecidos e perdidos do mundo ou do outro mundo – os mais distantes e exóticos lugares sabe lá de onde, seus mais importantes e fantásticos e inacreditáveis monumentos, suas mais sangrentas e famosas e inimagináveis batalhas...


Esta é a ditosa pátria minha amada

à qual se o Céu me dá que eu sem perigo torne,

com esta empresa já acabada,

acabe-se esta luz ali comigo.


Então meu tio tirava de sua mala de papelão moldado a caixa do estereoscópio, a surpreendente caixa do estereoscópio abrindo-se e desencantando-se, avolumando-se sobre ela mesma no prodigioso aparelho que ainda guardo comigo. E apresentava às putas em volta os “tableaux vivants” que, postos diante de seus olhos deslumbrados, através da mágica binocular contra a luz, revelavam-se imediatamente como se nunca tivessem deixado de ser o que deveriam ser e eram de verdade: mulheres desnudas, de rostos insinuantes e cabelos insolentes, de largas cadeiras e generosos seios, em poses sensuais e gestos lúbricos, a exporem despudoradamente suas partes íntimas diante de um cenário onírico dominado pela perspectiva infinita de colunas e mais colunas quebradas sob seus respectivos capitéis.

 

 

 

 

 

 

Cada uma das mulheres do prostíbulo precisava então se despir toda e tentar repetir da melhor maneira que pudesse o mesmo gesto obsceno e provocador daquela que ela estava vendo pelo aparelho (isso tudo eu só imagino agora, pelo que sei que contavam e diziam de meu tio, e pelo que penso do que ele seria capaz – pois, infelizmente, não me restaram entre as “vues stéréoscopiques” mais que o montezinho de trinta, presas entre si por um elástico – nenhuma delas com ao menos a imagem de uma única mulher pelada; embora uma, extraviada como a número 3 e intitulada La Folie et l’Amour, propusesse as imagens de uma impossível mulher cor de rosa e de um provável tipo afeminado posando ambos com gestos imprecisos e cabelos dourados, entre pombas esvoaçantes ou asas de cisnes numa insuspeitada ribalta ou num improvisado picadeiro).


Meu tio dizia-se herege. Mas era desrespeitoso e ímpio, além de irreligioso, porque afrontava, insultava e ofendia quem quer que fosse, quando menos se esperava. Com um sorriso nos lábios era capaz de estragar uma festa, acabar com um velório, comprometer uma simples apresentação – fosse identificando um marido traído diante da mulher que o corneava, fosse anunciando secretas intimidades de quem estava sendo velado, fosse admitindo que não tinha prazer em conhecer quem lhe estendia a mão.


Nesta Chefatura de Polícia consta que N.N., brasileiro, pardo, de 23 anos de idade,

sem profissão fixa, residente à rua do Arvoredo, s/n,

foi identificado e compromissado nos termos constantes deste registro de investigação como depoente,

na condição de testemunha ocular da ocorrência anotada sob número 0117/29,

constante às folhas 34 e 35 do Livro de Ocorrências de numero 2-B desta Chefatura,

tendo respondido as perguntas de praxe


Meu tio fora expulso do seminário onde minha avó pretendia vê-lo transformado em padre e onde ele passava o dia lendo, lendo e contestando em aula o que fosse ante quem fosse; até comprovar-se que incluía em suas leituras os mais ten-tadores livros do index da Igreja – que manuseava às escondidas e distribuía fartamente entre os colegas (eu sei que depois, de volta a casa, ele até foi dado por doido: não tomava banho, não se arrumava, deixara a barba crescer à semelhança de Antonio Conselheiro e andava vagando pela rua arrenegado, a escarrar longe e a patear cachorros, sem cumprimentar ninguém).


1. se teve participação no ocorrido, disse que não;

2. se conhecia as pessoas envolvidas no ocorrido, disse que não;

3. se vinha passando pelo local do ocorrido, dis-se que sim;

4. se viu um homem atacando um outro com uma faca, disse que sim;

5. se sabe se era com uma faca ou facão, disse que não;

6. se sabe se a arma é a mesma que lhe foi apresentada nesta Chefatura, disse que não;

7. se chegou a ver que o agressor fugiu para um baldio, disse que sim;

8. se  sabia que a vítima resultou morta, disse que não;

9. se chegou a perseguir o agressor ou a ajudar a vítima, disse que não;

10. se ficou sabendo de algo mais no local do ocorrido, disse que não.


Não terá sido difícil para meu tio levar o estereoscópio em sua mala para Porto Alegre (o aparelho fechado, sabemos, tem só um palmo de comprimento por meio de largura, com guarnição de prata lavrada nos quatro cantos da tampa, fecho igualmente de prata, e um aplique posto no centro, mas sem qualquer inscrição). A mala de papelão moldado de meu tio, metida embaixo de muitas camas, antes e depois do concurso, terá disputado espaço com penicos cheios e panos sujos e frascos de desinfetantes (e baratas e ratos) em cada chineredo onde ele tratou de se meter a cada noite, tentando dispor de pousada e mulher, ainda que sem encontrar quem o acolhesse de graça ou lhe pagasse a despesa. Em Jaguarão era diferente: em pelo menos três dos nossos muitos puteiros, só pelo prazer do desfrute meu tio dispunha quando queria de ca-ma e mulher; uma destas, a velha e decadente louca Ignez, ainda lhe dava boa parte da féria do dia, para os vícios.


Ignez

 

Ignez da Silva Berneira

 


Meu avô bem que tentara colocar meu tio como seu ajudante no Banco Pelotense, ou de auxiliar de guarda-livros na Mesa de Rendas, ou de escriturário na Alfândega, ou de anotador na Ca-pitania dos Portos – afinal, tinha uma bela caligrafia! – mas meu tio só tinha cabeça para ler, ler e ler; e tanto no Porto como na Aduana e na Exatoria, até no Banco, deixava de fazer as devidas anotações, atrasava a escrita, trocava nomes e valores, escondendo na gaveta mais próxima o livro que mal-parava de ler. Era como se sonhasse com o mundo indizível das vistas maravilhosas.


Mas quem pode livrar-se, porventura,

dos laços que Amor arma brandamente

entre as rosas e a neve humana pura,

o ouro e o alabastro transparente?

 

O futuro padrinho de minha irmã, contudo, admirava meu tio por sua rara inteligência (aprendera francês utilizando apenas um manual de conversação, uma gramática, livros escolares e o dicionário), por suas variadas leituras (lera mais da metade da biblioteca do Clube Jaguarense), por sua boa caligrafia (copiava com letra admirável os trechos que mais lhe agradavam da melhor literatura) – e, vendo-o um dia limpo, enfim, e até falante, deu-lhe de presente a máquina de escrever que trouxera da Europa e falou-lhe em dactilografia. Meu tio, contudo, nunca acionou uma mínima tecla, nunca escreveu uma única palavra na poderosa Adler; jamais leu o manual de instruções em quatro idiomas que ensinava a manejar, lubrificar e manter limpa a imponente máquina negra.

 

q  w  e  r  t  y  u  i  o  p

a  s  d  f  g  h  j  k  l

z  x  c  v  b  n  m


Meu tio possuía uma letra magnífica: graú-da, arredondada, parelha, elegante, levemente inclinada à direita – e sempre primorosamente igual. Cada maiúscula, cada minúscula, fosse vogal, fosse consoante, abria-se e fechava-se sempre da mesma maneira nas suas correspondentes curvas e retas e no requinte de seus remates de pena. Era uma perfeição.

 

Pude constatar a excelência da letra de meu tio no dia em que arrombaram a porta do guarda-roupa do quarto do asilo de velhos em que ele morava (e morrera) e me alcançaram, além do precioso estereocópio, um amarelado caderno Vasquez de caligrafia com suas iniciais, resgatado entre roupas emboloradas e os mais triviais ou inesperados produtos comprados em Rio Branco. No guarda-roupa, havia ainda cubinhos de açúcar Rausa, pedras de anil Rekitt, duas garrafas de leite vazias (ambas de vidro verde, daquelas com boca larga e tampinha de cartão), um pacote de caixas de fósforos de cera Victoria, uma garrafa âmbar de Crush, uma lata de galletitas Cauci, um caixa de sabão Reuter, duas garrafas cheias de Malta Montevideana, uma garrafa vazia de mandarina Urreta, uma outra de pomelo Pomona, dois rolos de papel higiênico verde H-H, e uma lata de erva-mate Armiño.

Largada no chão, desprezada e sem uso, a velha máquina de escrever, coberta de pó.


Adler Werke – Frankfurt


Meu tio nunca chegara a ter um emprego decente. Sobrevivera e envelhecera fazendo de conta que não recebia uma permanente ajuda de vovó, além de parte da féria diária do prostíbulo da louca Ignez. Quando a louca morreu, fora instalado no asilo, onde teve livre a fantasia e pôde dela desfrutar como e quando queria. Jamais deixara, entretanto, de redigir com todo o capricho de sua letra impecável todas as cartas que o padrinho de minha irmã dirigia à amante que deixara no Havre e que lhe ditava seguida e pausadamente em francês (dizem até que meu tio, de posse do endereço da mulher, passara um dia a se corresponder com ela, entabulando uma ardente e paralela correspondência íntima cheia de indecente lubricidade).


Mas quem pode livrar-se, porventura,

dos laços que Amor arma brandamente

entre as rosas e a neve humana pura,

o ouro e o alabastro transparente?

Quem de uma peregrina fermosura

de um vulto de Medusa propriamente,

que o coração converte que tem preso,

em pedra não, mas em desejo aceso?


Meu tio havia permanecido em Porto Alegre o tempo que dava. Para que voltasse, fora necessário mandar-lhe um dinheiro extra – que lhe pudesse garantir a passagem de retorno no vapor e mais um dia de mínimos gastos, evitando-se que ele chegasse a melindrar dona Ercília, solteirona comadre de vovó, que vivia sozinha com seus ga-tos e suas rezas na rua Riachuelo e em cuja casa ele ameaçava meter-se, para ter onde comer e dormir – quem sabe também para espiá-la pelo buraco da fechadura, às gargalhadas, como já fizera em Jaguarão.


A. E. G.      Jaguarão

 

Depois, de volta, não houve aqui quem pudesse convencer meu tio a assumir o cargo de calígrafo da polícia.

 

Foi identificado e compromissado nos termos constantes deste registro

de investigação como depoente, na condição de testemunha ocular da ocorrência anotada

sob número tal, constante às folhas tais tais do Livro de Ocorrências, tal, tendo respondido ...
Não houve conselho que ajudasse, ameaça que intimidasse, promessa que resolvesse.
1. se teve participação no ocorrido, disse que não;

2. se conhecia as pessoas envolvidas no ocorrido, disse que não...


Meu tio fora aprovado em primeiro lugar no concurso para calígrafo da polícia.


se ficou sabendo de algo mais no local do ocorrido, disse que não.


Ele fora aprovado no concurso com mais outros quatro; e fora classificado em primeiro lugar (vovô recebera um telegrama anunciando o resultado).

 

Meu tio fora aprovado em primeiro lugar no concurso para calígrafo da polícia. Mas não quis saber de nada. Com a mesma mala de papelão moldado, com que chegara de volta de Porto Alegre, ele saiu de casa no mesmo dia em que soube o resultado do concurso. Foi-se para não voltar: preferira ficar por conta da pobre louca Ignez em seu puteiro – com a imponente e inútil máquina de escrever Adler, com as maravilhosas “vues stéréoscopiques”, com os deslumbrantes “tableaux vivants”, e como se partisse feliz com La Folie et l’Amour para os mais longínquos lugares desconhecidos e perdidos do mundo (ou do outro mundo).

 

Quem viu um olhar seguro, um gesto brando

Uma suave e angélica excelência,

Que em si está sempre as almas transformando,

Que tivesse contra ela resistência?

 

 

 

© Aldyr Garcia Schlee - "La Folie et l'Amour" - Conto, 2010

publicado por ardotempo às 14:19 | Adicionar