O jardim das azaléias

 

Setembro é quando rebentam o branco e o carmesim

 




Eu, que nunca antes tive um jardim de azaléias, descubro essa felicidade de casa nova como a abelha do poema de Emily Dickinson que entra na flor e se perde em bálsamo. A memória dos livros se mistura à memória das casas…

Ainda me lembro de penar com a leitura em letras miúdas de uma edição de bolso de Crime e Castigo e de ser esmagada pela cena daquele cavalo espancado até a morte. Na época, eu morava em um apartamento escuro ou foi esse livro que escureceu tudo em volta, perfeito catalisador de uma crise de adolescência. Anos depois, com o início de uma biblioteca, um mundo inteiro se abriu com o Quarteto de Alexandria, eu deitada no sol perto de uma cerca viva e Justine desaparecendo pelas ruas sombrias em torno do forte de Kom El Dick… Mais tarde, em um escritório com vista para uma torre de igreja, o sentimento de nuvem que foi atravessar as madrugadas raptada pelos anjos de Rafael Alberti… ¡Campanas! Gira más de prisa el aire./ El mundo, con ser el mundo, en la mano de una niña/ cabe… E não esqueço, não posso esquecer, um quarto de janelas fechadas e estantes completamente vazias, poucos dias antes de uma mudança, onde li sob uma lâmpada, estremecida, o desmesurado Kadosh, de Hilda Hilst…


Os espaços se interpenetram, é de repente uma vertigem que desperta em sonho físico. Agora chega setembro, numa explosão de azaléias, eu deixo minha biblioteca e vou lá fora sentir o cheiro fêmeo da terra, o mais sedutor dos livros…

 

Mariana Ianelli - Publicado em Vida Breve

publicado por ardotempo às 22:45 | Adicionar