Poeta Maria

O herói desvalido

Maria Carpi

Pode o invicto, entronado,
vir a esquecer de que é um
indigente sob o cetro e a toga.
Mas o indigente, desvalido,

não esquece de sua realeza
cerzida em trapos. Pode
o belo olvidar o fenecimento,
mas a finitude não olvida

a beleza em cinzas. Pode
o vivente obscurecer da morte
a passagem, sendo a morte
o lume de sua escassa vida.

A indigência pressupõe severa
vigilância no sair. Ao inverso
da morada, não tem paredes
e gavetas. É um contínuo esvair.




O herói desvalido © Maria Carpi, Editora Bertrand Brasil, 2006
Desenho a crayon-conté de Alfredo Aquino
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publicado por ardotempo às 18:27 | Adicionar