Melhor seria se não tivéssemos que fazer Copa do Mundo de futebol...

Gestor cultural, o profissional do futuro

 

Leonardo Brant

 

Estamos falando de um dos mercados mais potentes do mundo e um dos que mais cresce e se revigora a cada dia. De algo tão necessário ao ser humano como comer e respirar. De uma atividade que dá sentido ao ser humano, significa sua vida e projeta seu futuro.


Além dos mercados tradicionais, supostamente em crise, como o cinema, a indústria fonográfica e editorial, atropeladas pelo advento das tecnologias de informação e comunicação, surgem a cada dia novas formas de significar a presença do ser humano na Terra, de criar utopias, planos de futuro, ou simplesmente de amenizar o sofrimento de quem ainda não encontrou sua autonomia em relação ao próprio imaginário.


Os códigos culturais antes dominados por impérios, igrejas, estados autoritários e grandes corporações estão cada vez mais ao alcance de todos nós. A teia que se forma em torno dos elementos culturais, diversos, controversos, livres, colaborativos e, ao mesmo tempo, controlados, sistematizados, formatados, lineares, é cada vez mais complexa. Exigem dos terráqueos contemporâneos uma capacidade de decodificação, síntese e diálogo constantes.


O gestor cultural se habilita a esse exercício constante, com um diálogo permanente entre as formas mais lineares e alienantes do conhecimento e as mais revolucionárias maneiras de criação e conexão com os universos paralelos do sentido. Um diálogo que possibilita, ao mesmo, implodir e reforçar os sistemas estabelecidos de poder.


Um profissional detentor de uma chave mestra, capaz de promover a livre expressão e arbítrio, e de revelar os sistemas de cerceamento de conhecimento, opinião e expressão, aptos a afugentar os medíocres, robotizando-os em lógicas binárias e sistemas bancários.


Antes de qualquer coisa, um profissional pautado pela ética. Não necessariamente pautado pelo bem, mas um bom conhecedor do mal que há dentro de si.
Algumas características são marcantes nesse profissional, que ganha espaço a cada dia não somente nos mercados tradicionais de cultura e comunicação, mas em várias esferas da sociedade.

 

São elas:


A constante reflexão em relação a tudo o que faz.

Alto poder de aplicabilidade daquilo que pensa naquilo que faz.

Participa da vida política, articula e trabalha em rede.

É familiarizado com a língua e a lógica do mercado.

Subverte a lógica do mercado, propondo novas formas de superação.

É empreendedor e criativo.

 

É claro que estou idealizando este profissional, mas ao mesmo tempo reconheço-o em corpo presente nos corredores dos inúmeros empreendimentos culturais com que tenho contato pelo Brasil e pelo mundo afora.


Alguém que, como o artista, se prepara como nenhum outro para lidar com as incertezas de um tempo que colhe os frutos do desenvolvimento tecnológico e da ciência, mas ao mesmo tempo paga a conta da irresponsabilidade para com seus pares, seu planeta e com a vida.


Leonardo Brant


(NE: Um artigo algo otimista de Leonardo Brant, um pouco sonhador, um tanto utópico. Pena que tenhamos à frente a demência do compromisso de uma Copa do Mundo, que não comportamos realizar, por ser drenadora de recursos importantes que não possuímos e desviadora de todas as atenções. Não temos estradas adequadas, faltam as duplicações viárias e as grandes pontes; não temos ferrovias de transportes de cargas e pessoas; não temos metrôs adequados às metrópoles caóticas pelo trânsito excessivo; não temos aeroportos funcionais; faltam-nos as escolas e os professores preparados e bem remunerados (hardware e software); faltam os hospitais (quem atenderá os problemas que surgirão durante a Copa, o SUS, o Hospital Albert Einstein?); falta a seguranca do nosso dia-a-dia; não há hotelaria e restaurantes suficientes para demanda tão expressiva de turistas e jornalistas; falta-nos vencer a síndrome do jeitinho, do qual tanto nos orgulhamos como capacidade criativa e que não passa de um disfarce para o improviso mal-feito, mal-acabado e amadorístico com o qual empurramos para frente o péssimo hábito de fazer às pressas no último instante o que deveríamos ter feito antecidamente com previdência, denodo e exigência para alcançar a qualidade exemplar e a que se espera de algo bem planejado. Enfim, bem melhor seria que não fizéssemos a tal Copa do Mundo, deixando-a para a Inglaterra ou para a Ibéria, que têm melhores condições econômicas e mais infraestrutura...- ARdoTEmpo)

publicado por ardotempo às 12:36 | Adicionar