O escritor que gosta de cadernos antigos

Ignácio de Loyola Brandão - Homenagem ao grande escritor que gosta de colecionar os velhos cadernos sem uso e neles escrever a caneta, a tinta e a lápis, os seus espantosos e surpreendentes contos e romances contemporâneos, além de neles colocar suas copiosas e detalhadas pesquisas e colagens de documentos para escritos futuros.

 

 

 


O caderno Avante


No início do ano letivo era sempre a mesma rotina.

 

Antes do primeiro dia de aula era preciso passar nas livrarias Don Bosco, Previtalli, Miscelânea ou Predileta, e comprar o material escolar para o semestre. Lápis, borracha, caderno. Estojo e pasta não era preciso comprar. Esses dois itens durariam todo o Ginásio. Ao entrar no Científico se trocava de pasta para mostrar que já não éramos mais aquelas crianças de primeira ou segunda série. Era só por isso.

 

As pastas, normalmente de couro, estavam inteirinhas, quase novas. Mesmo depois de usadas durante quatro anos, ou mais, no caso de serem herança de irmãos maiores. Mesmo tendo passado por pequenas guerras de pastas, servirem de almofada nos bancos gelados da Praça Esporte, elas resistiriam ainda muitos anos. Os estojos, normalmente de madeira, só precisariam de uma boa limpeza e estavam prontos para mais um ano de uso.

 

Novidades viriam na terceira, quarta série. Esquadro, régua, transferidor, compasso... Uma caixa de lápis de cor e, dependendo da graduação, uma que outra caneta de tinta Johann Faber, a precursora das esferográficas modernas. Certamente um dia elas soltariam a ponta e deixariam as famosas manchas azuis nas pastas, estojos e, muitas vezes, no uniforme....

 

 

 

 

 

 

Uma caneta Parker 51 só veríamos nas mãos dos nossos mestres. Os famosos arquivos não eram bem vistos pelos professores. Tirar ou acrescentar folhas na sequência das matérias não era politicamente correto, mesmo numa época em que essa expressão ainda nem existia. Bom mesmo era caderno, e caderno de grampo.

 

Nada de caderno de molinha (espiral) para ficar arrancando as folhas. Por isso, caderno, era o caderno Avante. Aquele dos escoteiros na capa. Grampeado no meio, com 50 folhas pautadas e com aquela margem vermelha. O resto era supérfluo, coisas caras para quem, como meu pai, tinha que “equipar” quatro filhos para o início das aulas no Estadual. De graça, só um mata-borrão e uma grade de horário. E o caderno Avante ainda trazia na capa traseira a letra do Hino Nacional. O caderno Avante era sempre igual. Mas a cada ano, novinho em folha, e cheirando a tinta, era como se fosse o primeiro de nossas vidas.

 


Luiz Carlos dos Santos Vaz - Publicado em Jornalista Vaz

publicado por ardotempo às 22:47 | Adicionar