Nomes de minuanos

 

Inverno

 

Quando eu me for, no meio da chuva fina,

Planta-me uma folha em si menor,

Num sol maior dissonante

De bergamotas descascadas na soleira

Do inverno da minha infância.

 


Devagar como quem aprende a soletrar

Murmuro os nomes de minuanos,

Ventos navegantes que me alçaram ao sul,

Primeiro desterro,

Circulando ao redor do mistério.

 


Nada será lembrado que não for verdadeiro,

Todas as pequenas mentiras e todos os enganos

Serão somados ao receituário de vacinas.

Quero cantigas antigas e rocks caseiros.

Palavras como pão com manteiga, café com leite.

 


Mas toda vez que vier a chuva fina, como hoje,

Te levo também, inverno ensaiando

O caminhozinho lilás, aquarela

De cais e nuvens desfiadas,

Te embarco junto com o mais sagrado.

 


E quando eu for, memória de cascas,

Linha circular, pó de umbigo, rirei,

À toa, vadia como as rotas que me levaram,

Encharcada de sal, náufrago avistando a terra

De uma primavera.

 


Isolde Bosak, 2010

 

 

 

 


Imagem: Gilberto Perin, Paris 2009

publicado por ardotempo às 17:29 | Comentar | Adicionar