As chaves

Hotéis de passagem (II)

 

João Ventura

 

Nas minhas andanças através de uma cartografia pessoal onde se bifurcam livros, filmes e discos, tenho cruzado outros hotéis de passagem onde numa qualquer dobra da página, de faixa ou de fibra digital ousei subir a um qualquer quarto 205 e aí pernoitar, escutando, depois, noite adentro, o murmúrio de personagens momentaneamente desaparecidas do mundo lá fora, talvez, à procura, também elas, de uma qualquer porta de passagem entaipada atrás de um velho armário com espelho que dê para outras vidas.

 

Lembro-me de alguns dos 342 motéis de estrada onde Nabokov (e depois Kubrick) fez pernoitar Lolita e o seu velho amante Humbert, tudo cenários transitórios de cerimónias secretas e rituais privados oferecidos ao voyeurismo do leitor. E no armário onde guardo os velhos LPs e os recentes CDs e DVDs lá está ainda o Hotel California, dos Eagles, onde o viajante se deita sob «mirrors in the ceiling, pink champagne on ice»; e o Desert Song Hotel,onde Nicholas Cage se encerra para se embebedar até à morte, em Adeus Las Vegas; e o quarto de banho do Bates Motel, onde Hitchcock engendra o assassinato brutal de uma jovem secretária, em Psico. 

 

E em dobras de páginas, que de repente me vêm à memória, aquele hotel de Michigan que surge no conto de Borges, As metamorfoses de Shakespeare,onde um homem sem rosto oferece ao escritor argentino a memória de Shakespeare. E o Costa Verde Motel Tulán, de A noite da iguana, de Tennessee Williams, cenário de amores depressivos; e o obscuro quarto de Los adioses, de Juan Carlos Onetti, onde tuberculosos se encontram para desdenhar da morte; e a «pensão de má morte», em Budapeste, onde se hospedou o protagonista de O Mal de Montano, de Enrique Vila-Matas; e os hotéis baratos de Ciudad Juárez, cenários dos crimes horrendos de 2666, de Roberto Bolaño.

 

E como a realidade supera quase sempre a ficção, também o hotel El Molino, em Buenos Aires, evocado por Laura Restrepo, numa recente edição de Babelia, onde a escritora colombiana recorda as noites clandestinas de sexta-feira ou sábado que aí passou, depois de esperar numa longa fila de casais muito jovens, de estudantes sem dinheiro, abraçados ou de mão dada, conversando em voz baixa como se estivessem numa fila para o cinema à espera de um quarto para desaparecer do mundo lá fora, por horas, suspendendo o tempo num território transitório no meio da obscuridade da ditadura. Conta Laura Restrepo que quis saber desse hotel transitório, se ainda lá estava na rua Salguero, e por isso, pediu a uma amiga que lá fosse. E resultou que sim, que ainda lá estva, embora também tenha sido vítima de um daqueles upgrades desconcertantes que procuram modernizar-nos as recordações.

 

 

João Ventura - Publicado no blog O leitor sem qualidades

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publicado por ardotempo às 12:32 | Adicionar