Sobre uma ausência

A seleção do Prêmio Portugal Telecom

 

Estive no Rio de Janeiro para participar da festa de indicação dos 50 finalistas (que, em realidade, tornaram-se 54). Felicidades aos indicados, posto que todos os indicados mereceram, por certo, ali estarem alinhados. Não questiono nenhuma das indicações. Apenas fiquei surpreendido e confesso que fiquei estarrecido e chocado pela ausência de Os Limites do Impossível da lista dos indicados.

 

Li vários dos livros constantes da lista e posso afirmar que o livro de Aldyr Garcia Schlee é do mesmo nível de alguns deles e em diversos casos é superior, bastante superior em qualidade literária. Apontaria até uma distância sideral nessa qualidade superior, pela extraordinária fatura literária, pela originalidade do tema e da ideia, pela proposta da linguagem e especialmente pela intrincada elaboração do "romance invisível" que se estrutura e se concretiza pela fina imaginação do autor com a ativa participação dos leitores.

 

É portanto uma ausência intolerável e surpreendente, resultando numa injustiça agora irreparável.

 

Nada a reclamar sobre o que não resiste a explicações. Mas haverá alguma explicação possível? Certamente não.

 

O que há é uma triste constatação que o Prêmio Portugal Telecom nem é tão isento nem tão democrático como poderíamos imaginar a princípio.

Naquela mesma noite do triste sábado já em São Paulo, conversando sobre este assunto com uma jornalista crítica literária que normalmente participa das votações primárias do Portugal Telecom, ela fez um comentário espantoso sobre como funciona o primeiro filtro - os que votam nem lêem todos os livros, indicam por experiência anterior e convencional, os nomes conhecidos e célebres ou os livros que estiveram mais badalados aqui e ali... Nenhuma preocupação mais profunda com a questão literária e sim com um compromisso mais mediático no qual, evidentemente, as grandes editoras ficam automaticamente favorecidas.

 

Ora, se é assim porque autores outros de cidades ou centros culturalmente desfavorecidos na questão da potência da mídia e não presentes no guarda-chuva protetor das grandes editoras, deveriam se inscrever no Prêmio Porugal Telecom que corre, aparentemente com cartas previamente marcadas e autorizadas em nomes tão somente de escritores celebrizados, independentemente da sua eventual qualidade literária? Isso deveria ficar mais claro no discurso de convite ao Prêmio Portugal Telecom e não sugerir, como o faz, que seria democraticamente atento e estimulador à busca da qualidade literária e do fortalecimento de um universo mais rico para os leitores?

 

No caso que afeta e fere a ausência lamentada, isso apenas serve de experiência e de lição. Não se deve concorrer ao Prêmio Portugal Telecom para não se expor a situações injustas e vexatórias de ter a sua obra literária excluída sem sequer ter sido lida para uma avaliação mais precisa e aprofundada. Uma pena, pois isso atinge a todos na medida em que macula o prestígio do próprio certame na razão direta de sua opção pela abolição do mérito em benefício a outros critérios não revelados na sua própria divulgação e publicidade.

 

A Edições ARdoTEmpo não inscreverá mais os seus livros e seus autores em futuras concorrências ao Prêmio Portugal Telecom, porque aprendeu duramente, com sua ingenuidade de principiante, que é apenas perda tempo, uma vez as pequenas editoras e aquelas que estão preocupadas apenas trazer a público obras de alta qualidade, não tem a menor chance de passar sequer à fase seguinte porque os seus livros ficam esquecidos no limbo, ou seja no espaço invisível da não-leitura.

 

Nada a reclamar, nada a reivindicar. É apenas uma constatação de como funciona o mecanismo e, se ele de fato funciona em favor do mercado, que trata livros como se fossem "commodities" de parâmetros estandartizados, nem sempre ele funciona em benefício de uma literatura de alto nível e de busca de uma originalidade singular.

 

A Edições ARdoTEmpo lançará vários títulos agora em 2010. Acredito que sejam livros bons, de excelentes autores, entre eles o notável romance DON FRUTOS de Aldyr Garcia Schlee e outros deles, de autores portugueses de alto nível e de literatura de primeirissima linha, sem intervenções na fatura literária original (ou seja, publicados na forma como foram escritos em Portugal, sem quaisquer adaptações ou "traduções", como aliás deveria ser feito sempre, tanto aqui no Brasil como em Portugal, porque essa será a riqueza extraordinária de nossa língua comum).

 

A única certeza que tenho é que eles não estarão inscritos à edição do próximo próximo Prêmio Portugal Telecom.

publicado por ardotempo às 21:54 | Adicionar