Do blog F–WORLD, para pensar



Vozes de sobreviventes de Auschwitz.

Falam as mulheres e o que se ouve é uma ínfima parte do que contam sem parar,
histórias em cima de histórias agarradas a detalhes de onde não saem
porque não querem sair.
A voz da última mulher treme, a belga hesita, repete bruler,
queimar na memória  coincide com o momento em que percebeu
onde estavam os pais, como estavam os pais, o que estavam a fazer aos pais,
separada dos pais por uma parede que essa mulher via e a voz quebra,
a mulher belga mais os pais que lhe morriam queimados.
Atrás de cada uma destas vozes de pessoas
estão vozes de outras pessoas.
Tudo se passa entre pessoas, grupos de pessoas como nós.
Nada as distingue de qualquer um de nós.
É fundamental perceber esta realidade porque sem nos dedicarmos à memória
desta precisa realidade corremos o risco de perder de vista a incerteza,
o significado da impossibilidade.
Há nazis grandes e pequenos.
Hoje quero escrever sobre os
pequenos,
ínfimos,
diminutos nazis.
Sobre nós.
Nós somos muitos de nós num ou outro grupo,
mas grupo que exija ilusões e extremos,
que se excite com o que parece ser excessivo
e reaja com o mais elevado grau de irritabilidade.
Neste grupo o líder pode ser uma abstracção,
pode ser o ódio contra
uma pessoa, instituição.
Vou citar Littell, Les Bienveillantes:
Je vous rappelle que Führerworte haben Gesetzeskraft,
la parole du Fürher a force de Loi.
Vous devez résister à la tentation d’être humains.
Estes nós que somos quase todos,
senão todos em grupo descemos com facilidade
ao estado mais bárbaro, animalesco,
nada que seja novidade em tudo o que sabemos dos/nos outros
mas um mundo desconhecido dentro de cada um de nós.
O nosso lado negro em grupo observa-se 
de forma muito prática e confortável
na blogosfera.
Na blogosfera, um grupo pode ser
de uma intolerância animalesca
e completamente imune à ideia de bondade
que parece ser coisa de gente fraca.
Neste rico planalto observo, inúmeras vezes,
indivíduos que se alimentam de suspeitas
que rapidamente passam a certezas
e em que pequenas antipatias
se transformam em ódios raivosos incompreensíveis
para quem estiver mais distraído consigo
ou com nada em especial.
O que é verdade e a verificação dessa mesma verdade passa,
desta forma, para nenhures porque os impulsos têm
um interesse superior e relacionam-se também
com uma ideia que faz Lei:
a ideia do que é o prestígio
e que arrasta groupies que arrastam groupies
numa frágil pirâmide mas, ainda assim,  poderosa.
São este alguns dos sinais de alerta dos pequenos nazis que nos habitam.
 Nazis de esquerda ou de direita.
 Nazis de esquerda ou de direita.
  Nazis de esquerda ou de direita.
  Nazis de esquerda ou de direita.
 Nazis de esquerda ou de direita.
                                                                                   
                                       

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publicado por ardotempo às 22:39 | Comentar | Adicionar